Passar os Dias Sentado no Sofá

Ela chegava e eu estava lá. Estava sempre lá. Enterrado no sofá, com os pés na mesa de apoio. Às vezes com as botas calçadas. Isso nos dias em que tomava banho, vestia-me e sentava-me na sala, frente à televisão, à espera que ela chegasse com o carro para poder sair. Não saía muito, mas às vezes saía. Farto de passeios a pé à volta de casa, pegava no carro quando ela chegava do trabalho e ia dar uma volta. Às vezes ver o mar. Às vezes ela ia comigo. Às vezes até parecíamos um casal a namorar nas arribas sobre o Atlântico, a fumarmos um cigarro e a olhar o horizonte. Mas só parecíamos.
Ela saía de manhã, para ir trabalhar, todos os dias. Ia de carro. A fábrica ficava nos arredores. Não muito longe. Mas também não tão perto. Precisava do carro para ir trabalhar. Eu, desde que fui despedido, fiquei sem carro. Agora passava os dias em casa. De manhã dormia até ao meio-dia. Depois levantava-me. Espreitava o frigorífico à procura de restos da véspera, que quase nunca havia, e sentava-me no sofá, frente à televisão, a olhar programas da treta cheios de conversas de merda. Passava ali o dia. Às vezes levantava-me. Se estivesse sol, vestia-me e ia dar uma volta a pé pelas redondezas. Se estivesse de chuva, deixava-me estar de pijama em casa, frente à televisão. Às vezes adormecia. Às vezes dormia a tarde toda. Ela chegava e eu estava a dormir. Às vezes ela chegava a casa e ia aspirar, cozinhar, pôr roupa a lavar e, muitas das vezes, nem o barulho do aspirador me acordava.
Outras vezes ela chegava a casa e eu estava sentado no sofá, como o cu enterrado no sofá, a ver televisão. Às vezes ainda apanhava alguns jogos de futebol. Às vezes havia reprises de jogos dos anos ’90. E eu ficava ali a ver. Depois ela chegava e sentava-se no outro sofá. E ficávamos ali os dois. Ela não dizia nada. Não dizia nada por eu estar ali o dia inteiro sem fazer nada, frente à televisão. Nos primeiros dias ainda procurei trabalho nas fábricas ali à volta mas, não havia nada. Umas fábricas estavam a automatizar-se e o número de operários era residual, outras estavam em processo de falência. Havia muita gente a ser despedida. Aquelas fábricas não estavam preparadas para o futuro. Eram de outra época e não souberam prever o futuro que era já presente. Elas eram como eu.
Ela chegava. Ia ao frigorífico e tirava duas cervejas. Uma para ela e outra para mim. E ficávamos ali os dois, sem dizermos nada um-ao-outro, a olhar para programas de merda na televisão. Às vezes ela agarrava no comando e punha-se a ver A Loja em Casa. Não sei por quê. Nunca tinha comprado nada, mas via o canal e os produtos que tinham à venda por ninharias.
Às vezes, quando ela chegava, eu ia buscar a chave que ela largava na fruteira sem frutas em cima da mesa da cozinha e ia para o carro. Punha o carro a trabalhar e esperava dois ou três minutos por ela. Às vezes ela vinha. Outras vezes não.
Às vezes adormecíamos os dois no sofá. Cada um no seu. A meio da noite eu acordava, ia mijar e levava-a para a cama. Ainda podia com ela ao colo. Às vezes custava-me. Não que ela estivesse a ficar gorda, que não estava, ela era daquela mulheres que pode comer tudo o que quiser que nunca engorda nem fica pesada. Era eu que estava a ficar fraco. Sentia-me fraco. Aqueles dias de cama-sofá estavam a tirar-me as poucas forças que tinha.
Hoje de manhã telefonaram cá para casa. Tinham uma proposta de trabalho para mim. Num café à saída da terra. Até posso ir a pé. Não é longe e ponho-me lá em meia-hora, quarenta-e-cinco-minutos. Fiquei contente.
Tomei um banho. Vesti roupa lavada. Fiz umas omeletas com cebola. Abri uma garrafa de vinho. Estou à espera que ela venha. Mas ainda não chegou. Está atrasada. Não costuma atrasar-se. Ela chega sempre à mesma hora. Mas ainda não chegou.

[escritos directamente no facebook em 2020/02/19]

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