A Besta Espalha os Seus Tentáculos

O tipo já lá estava quando eu cheguei.
Sentei-me ao balcão e pedi uma imperial. O homem do bar colocou-me uma imperial e um pires com tremoços à frente. Trinquei dois. Bebi um gole de cerveja. E ouvi Esta merda agora é tudo racismo, tudo racismo. Sabem lá eles o que é racismo! e eu olhei para o lado e vi o tipo que já lá estava antes de mim, sentado ao balcão, com um copo de bagaço à frente. Ele virou-se para mim, à procura de coro e disse E eu não sou racista. Até tenho amigos pretos! Aquilo não é racismo. Aquilo é uma provocação do preto, e eu olhei para a televisão que estava pendurada lá no alto e vi as imagens com o jogador que abandonou o jogo futebol por causa dos adeptos que estavam a imitar o som de macacos.
Virei-me para a frente. Para a minha frente. À minha frente estavam umas garrafas de bebidas brancas expostas em prateleiras de vidro cheias de pó. Por trás das garrafas via-me estilhaçado, em pequenos pedaços que o espelho reflectia. Via-me velho. A barba mal aparada. Uma barba grisalha. Fazia lembrar-me do meu pai. Não na barba, que ele não usava barba. O meu pai fazia a barba todos os dias, durante toda a vida. Não falhava um dia. Só nos últimos dias é que deixou de conseguir fazer a barba. Fui eu que lha fiz, nesses dias. Não, não era por causa da barba que me lembrava dele. Eram as feições da cara. Uma cara escavada. As olheiras. A face um pouco chupada. A boca descaída. A mim a boca via-se mal mas, percebia-se pelo corte na barba onde estava boca e como é que ela era. A cara dele na minha. Uma cara triste. Acho que sempre tivemos isso em comum. Uma cara triste.
Senti uma mão a pousar-me no braço. Ouvi Oh, amigo!… e afastei o braço da mão que me agarrava. Fiz um olhar duro, duro e fixo para o tipo que se tinha abeirado de mim. O tipo era magro. Magro e seco. Cabelo curto. Um dente partido mesmo à frente, que se via cada vez que abria a boca. Oh, amigo!… Criei uma barreira. Não estava com vontade de o aturar e fiz-lhe ver isso.
Agarrei no copo da imperial e despejei-a de uma vez. Os meus olhos procuraram os olhos do homem do bar. Levantei um pouco a mão. O homem trouxe outra imperial. Trinquei mais uns tremoços. O tipo regressou ao banco frente ao copo de bagaço.
Quando é com um branco nunca é racismo!, ouvi o lamento do tipo que virava o olhar da televisão para mim, ainda não convencido que eu não queria conversa.
Na televisão passavam imagens de claques a manifestarem-se num campo de futebol.
O homem do bar colocou a imperial à minha frente. Trinquei mais uns tremoços. Agarrei na imperial. Bebi um gole.
O meus olhos voltaram a pousar no meu reflexo. Na verdade não me parecia nada com o meu pai. Éramos bem diferentes. Com a mesma idade, o meu pai não usava barba e era careca. Eu uso barba e tenho bastante cabelo. Mas tudo em mim me fazia lembrar dele.
Vindo do lado, voltei a ouvir o tipo Esta gente precisava era de umas arrochadas!… Afinal, somos nós que lhes pagamos para poderem ter a vida que têm! Mal agradecidos! A cuspir na sopa!
Nós quem? Quem de nós é que pagava o que quer que fosse a alguém? Olhei para o tipo. Vi-o despejar o bagaço. Depois levantou o braço com o copo e disse São todos uns corruptos. Pretos e corruptos. São todos iguais. Todos não. Este não! Este sabe! Oh, este sabe! Este é esperto! Este diz as verdades! Segui o olhar do tipo e vi a besta na televisão. Vi a besta a vociferar ódio contra toda agente que não fosse igual a ele. Toda a gente que não pensasse como ele. E durante o pouco tempo em que olhei para a televisão, a besta não fechava a boca e não deixava mais ninguém falar. O tipo ao balcão gritava loas à besta. De braço levantado. De vez em quando olhava para mim. Provocava-me?
Eu chamei o homem do bar, Pedi uma cerveja em garrafa. Despejei o copo de imperial. Comi mais uns tremoços. Larguei uma nota de cinco euros. Agarrei na garrafa. Na garrafa cheia de cerveja. Aproximei-me do tipo e dei-lhe com a garrafa na cabeça. Vi a garrafa partir. Vi cerveja cair pela cabeça do homem. Vi o sangue a começar a escorrer pela cara dele abaixo. Vi o tipo cambalear. Vi o tipo cair.
Vi-me a mim, reflectido no espelho.
O homem do bar colocou uma garrafa de cerveja à minha frente. Agarrei na garrafa e saí do balcão. Passei por trás do homem que continuava sentado ao balcão a olhar a televisão, e saí do bar.
Na rua acendi um cigarro. Encostei-me à parede do bar, uma perna flectida e o pé na parede, a fumar o cigarro e a beber a cerveja da garrafa.
E pensava, Este mundo está muito doente.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/18]

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