Na Impossibilidade de Sossego

Ela andava pelo quarto a cirandar. Tinha sempre que fazer. Não conseguia sentar-se numa cadeira e parar. Respirar fundo, deixar-se levar pelo espaço e tempo do pensamento, era uma coisa impossível para ela.
Eu sentava-me muitas vezes na poltrona junto à janela da sala, a ler, com a luz do dia, uns dias de sol outros dias não, um livro no colo, a ler. Ou deixava-me enterrar no sofá mole e de molas partidas que se espetavam no rabo, a ver uma qualquer matinée televisiva de filmes imbecis mas que me limpavam a cabeça das impurezas do dia-a-dia tão cansativo que às vezes tinha, bebia um chá de limão quente, umas gotas exprimidas a garantirem a acidez que me mantinha activo e a cabeça a desenrolar novelos à volta de uma narrativa de uma simplicidade desarmante mas que ajudava a colocar em perspectiva os assuntos, esses sim, sérios, que comandavam os meus dias, pelo menos naqueles tempos.
Ela abria e fechava gavetas e aquelas gavetas dos móveis do quarto, móveis feitos por um amigo em recuperação de consumos aditivos a querer ser útil à sociedade e a aprender a dar bom uso às mãos, nunca fluíram, eram abertas e fechadas aos empurrões, única maneira das calhas mal feitas e tortas funcionarem.
Eu estava a tentar dormir. Mas era impossível com ela ali à volta. Ela não fazia por mal. Ela nunca fazia por mal. Era assim. Acho que nem se apercebia do incómodo que estava a causar ao andar ali pelo quarto a dançar entre os móveis, a abrir e a fechar gavetas e as portas do roupeiro para arrumar a roupa que tinha acabado de passar-a-ferro, e entretanto já tinha posto mais uma máquina-de-roupa a lavar enquanto montava um estendal de roupa na varanda, Para aproveitar o sol, dizia, o pouco de sol que aqueles dias primaveris no meio de um inverno envergonhado permitiam.
É claro que aquelas horas não eram horas de estar a dormir. Mas a vida já não era assim. De horas certas e iguais. De módulos repetitivos de um dia atrás do outro. Comigo nunca tinha sido assim. Nunca tivera uma vida de emprego das nove às cinco com noites longas de Inverno para nos podermos tocar na cama revolvida pelos nossos corpos transpirados de desejo nem de fins-de-semanas caseiros sem despir o pijama, onde nos arrastávamos da cama para o sofá em tardes de tédio, a não ser quando descobríamos que estávamos livres os dois ao mesmo tempo e um de nós puxava o outro de volta para a cama ou aproveitava o conforto fundo do sofá da sala ou a bancada fresca da cozinha com vista para a vizinha da frente que algumas vezes nos apanhava a foder com a janela aberta, sorríamos uns aos outros e ela não se ia embora, ficava ali, de chávena de café na mão, a olhar para nós até que eu parava, puxava-a para o corredor e, às vezes, era mesmo ali, contra a parede fria do corredor, que acabávamos o que tínhamos começado em cima da bancada da cozinha, e eu ficava ofegante e ela a perguntar se estava tudo bem. Sim, está tudo bem. Está sempre tudo bem.
Eu nunca tinha um horário certo de trabalho. Havia trabalhos que tinha de entregar em determinado dia, até determinada hora, e trabalhava tendo essas linhas como meta. Geria o meu tempo. Às vezes passava noites acordado a trabalhar enquanto ela dormia sozinha. Tomávamos o pequeno-almoço juntos. Ela ia para o trabalho. Eu ia dormir.
Mas às vezes nem essa nossa organizada desorganização de modelo de vida que experienciávamos dava resultado. Ela simplesmente não se apercebia que eu estava a tentar descansar. Então abria as janelas de vidro para trás para deixar entrar o sol e afastar a humidade dos cantos da casa, já a ganharem bolor que ela depois andaria a limpar com lixívia num pano enrolado à volta de uma vassoura e cujo cheiro me entrava pelo nariz dentro e me despertava a bronquite e amplificava a minha pieira e ela dizia Estás bem? Pareces estar com um ataque! sem se aperceber que era ela a responsável, mesmo que inconsciente. E eu dizia Estou bem! estava sempre bem.
Então, nesses dias em que estava a tentar dormir um pouco durante a manhã, rebolava de um lado para o outro na cama à procura de lugares frescos enquanto ia ouvindo o trautear de pequenas canções populares que ela ia entoando enquanto dançava entre gavetas e portas de móveis desengonçados a arrumar roupa, limpar o pó, arejar a casa, acabar com o bolor e dignificar o seu estatuto de dona-de-casa em certos dias, eu acabava por lhe mandar com o telemóvel para cima, cheguei-lhe a partir a cabeça, parti quatro telemóveis, tivemos várias zangas bastante agressivas e acabávamos, invariavelmente, na cama, comigo a entrar dentro dela e ela a espreitar pela janela à procura do olhar voyeur da vizinha da frente que, às vezes, acabava por entrar numa ménage connosco mesmo que à distância da rua que nos separava.
Ainda hoje é assim, a nossa vida. Ela não consegue sossegar. E às vezes nem a mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/10]

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