A Queda, parte 02

Estou debruçado sobre o parapeito da varanda e sinto a vertigem que me atinge. O chão da rua aproxima-se de mim, vem ao meu encontro, ao mesmo tempo que a varanda se afasta da rua, da cidade, da vida de todos os dias. Sinto-me cambalear. Sei que devia voltar para trás. Encostar-me à parede. Não estar assim, debruçado sobre este enorme vazio que me chama. Mas não consigo não olhar. É a própria vertigem que faz o apelo. Olha. Olha, porra! E eu olho. Não consigo não olhar.
Não deixo de pensar na miúda sentada na cerca sobre o penhasco no Vale Furado. A miúda em quem não reparei logo. Mas vim a reparar. Não consigo deixar de pensar que num momento ela estava lá e no momento seguinte estava a deixar de estar. É que ainda não tinha deixado de estar lá. Estava a deixar de estar. E eu vi. Ela estava lá e pôs-se em trânsito para deixar de estar. E eu não fiz nada. Nada. Não fiz nada para parar o que estava em andamento. Fiquei parado. Fiquei parado a olhar. Como agora. Olho. Olho mas não vejo nada. Como não vi então. E ela foi. Foi-se. E eu não consigo deixar de pensar na miúda. Uma miúda nova. Bonita. Podia ser minha filha. E deixei-a ir. E não fiz nada.
Nunca faço nada. Lamento. É sempre o que faço. Lamento. E não é o que fazemos todos? Lamentar? Nunca fazemos nada. Nunca. Porque sim. Porque não podemos. Porque temos as nossas vidas. Os nossos problemas. As nossas quedas. E lamentamos. Lamentamos a nossa incapacidade.
Sinto-me em queda. E preocupo-me? Quero cair? Deixo-me cair?
Recordo uma queda de há uns tempos. Já não sei há quanto tempo. Nem sei se é verdade ou imaginação. Não sei se realmente caí ou imaginei que caí. Mas um dia, ou uma noite, senti-me tombar sobre qualquer coisa que não soube o que era. Qualquer coisa que ficou por baixo de mim e me magoou. Qualquer coisa que me suportou na queda e, na dor, acordou-me. Estava num sono e senti-me cair. Senti o meu corpo perder chão e desconjuntar-se. Tombei. E por baixo de mim algo anguloso que me magoou mais que a queda. Uma dor. Um grito de dor que me despertou e me trouxe do sono.
Não sei se senti esta mesma vertigem. Não sei se a queda de então é a mesma de agora. A que vi. A que sinto. Porque mesmo que não esteja a cair lá em baixo na rua, estou em queda profunda. Não fiz nada. Não faço nada. Só lamento.
Acordo com um chamamento. Ouço o meu nome. Alguém lá em baixo na rua grita o meu nome. Tenho o corpo debruçado sobre o parapeito da varanda. Em queda sobre a rua. Sinto a cidade às voltas como um carrossel. Linhas de cores passam por mim à velocidade da luz. Agarro-me como posso. Sinto vómitos. O mundo a girar. A atracção da gravidade.
Não quero cair.
Puxo-me para cima. Puxo-me para dentro. Mas ainda tenho tempo para ver lá em baixo, parado no meio da rua, o tipo que gritou o meu nome. E reconheci-o.
Balancei-me para trás. Encostei-me à parede da casa. Deixei-me escorregar ao longo da parede. Sentei-me no chão. Acendi um cigarro.
Senti o fumo do cigarro percorrer-me os alvéolos até aos pulmões. Tossi. Tossi mas senti-me bem.
Pensei no tipo que gritou o meu nome lá de baixo. Alguém que me conhece. Alguém que conheço. Alguém com quem me zanguei. Já nem sei porquê. Sei. Mas não quero saber.
Eu podia ter chamado a miúda. Não fiz nada. Nada. Fiquei parado a ver acontecer.
Sou eu que estou em queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/05]

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