Voyeur

Houve um tempo, há uns anos, ainda eu era um miúdo, em que partilhei uma casa com outros miúdos como eu. Éramos estudantes. Com pouco dinheiro mas, mesmo assim, o suficiente para pagarmos uma casa nos subúrbios e todas as despesas que lhe vinham agarradas. Cada um tinha o seu quarto. Partilhávamos a cozinha, a casa-de-banho e a sala onde víamos televisão, principalmente os jogos de futebol.
Nessa altura eu era um miúdo muito tímido. Principalmente com as miúdas. Não sabia o que lhes dizer. Como lhes dizer. Bloqueava. Começava a tremer. E fugia.
Nas aulas não. Nas aulas não era tímido nem com elas nem com os professores. Acho que isso também contribuiu para que as minhas notas não fosse melhores. Fui tomado de ponta muitas vezes. Estava sempre a colocar em causa alguns conhecimentos. Alguns dados adquiridos. Estava sempre a levantar dúvidas. Naquela altura, além de muito tímido, também era muito chato.
Não me metia com as miúdas porque era tímido e elas não se aproximavam de mim porque eu era um chato.
Por outro lado, os meus companheiros de casa não tinham problemas com as miúdas. Eram aquele género de miúdos de quem as miúdas gostam e um tipo nem sabe porquê. O que é que eles tinham que eu não tinha? Nunca soube. Mas havia qualquer coisa neles que não conseguia compreender. Ainda hoje é um pouco assim. Estou é um pouco mais velho. Estamos. Mas alguns envelheceram mais que eu. Acho que consegui ganhar alguma coisa por aqui.
Haviam sempre muitas miúdas lá por casa. Muitas delas dormiam por lá. Dormiam com os meus colegas. Não comigo. Nunca comigo.
Eu era o solitário. O miúdo que estava sempre lá por casa. Sozinho. Disponível. Fazia recados. Dava recados. Ficava com recados.
Mas era à noite, tarde da noite, que eu me transformava.
Quando a casa já estava em silêncio, ou quase, quando já toda a gente estava a dormir, ou quase, ouviam-se uns distantes e abafados sons. E eu já sabia o que era.
Ao ouvir esses sons levantava-me da cama, saía do quarto, e aproximava-me da porta do quarto de onde vinham esses barulhos. Ia às escuras. Descalço, mesmo durante o Inverno. Encostava o ouvido à porta e ficava ali, a ouvir o que se passava no interior do quarto. A ouvir as conversas íntimas. Os desejos. As confissões. Ouvia os corpos a tocarem-se. A roçarem-se. Baixava-me e colava um olho à fechadura da porta. E entrava lá dentro com o meu olhar. E via-os na cama. Despidos. Descobertos. A pele dela arrepiada. A dele nervosa. As mãos que se tocavam. E se aventuravam. Os gemidos baixinho. As contracções do corpo dela. A pujança do corpo dele. A doçura, primeiro. A fúria depois. E eu ali, a sentir a minha respiração galopante. O ouvido na porta. O olho na fechadura. A minha mão no meu sexo. Com atenção à casa. A toda a casa. Com rota de fuga traçada até à casa-de-banho, o melhor sítio para onde fugir e não ser apanhado.
Às vezes, mais tarde, muito mais tarde, já depois deles terem adormecido e eu sem conseguir adormecer, abria a porta dos quartos deles, dos quartos onde se permitiam estar íntimos e descansados, corpos tombados sobre os lençóis encharcados, e entrava. Primeiro com muito cuidado. Em silêncio. Prostrava-me aos pés da cama a olhar para aqueles corpos abandonados. Brancos. Às vezes queimados do sol. As marcas dos biquínis delas. As marcas dos calções de banho deles. O triângulo branco sobre os seios tão redondos e perfeitos. As pernas que a meio passavam de uma cor a outra.
Um dia aventurei-me. Aproximei-me de uma. Era nova. Nunca a tinha visto lá em casa. Aproximei a minha cara da dela. Senti-lhe o bafo da respiração na minha cara. Uma respiração tranquila. Os cabelos caídos sobre a almofada. As mãos sob a cara, em suporte. Puxei os lençóis para baixo. Vi-o a ele encostado, por trás, a ela. A mão dele pousada sobre a anca dela. Soprei levemente sobre o corpo nu dela e vi-lhe os pêlos a eriçarem. Ela mexeu-se. Eu fiquei quieto. Esperei. Ela acalmou. Eu levantei-me e afastei-me para sair do quarto. À porta olhei para trás, de novo para eles. E foi então, ao vê-los assim, à distância, que senti um desejo enorme de estar ali no meio deles, deles os dois. E fui a correr para a casa-de-banho.
Ainda hoje, depois da minha mulher adormecer, levanto-me sozinho, em silêncio, com pouca luz, puxo o edredão para o fundo da cama e fico ali assim, a olhá-la. Percorro-lhe o corpo nu com o olhar e sinto-o como se lhe tocasse com as minhas mãos. Às vezes tiro-lhe fotografias. Já a desenhei. Às vezes tenho de ir para a casa-de-banho.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/03]

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