Setenta e Cinco Anos

E então?
É noite, embora fosse ainda dia. Fumo um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Continuamos a cuspir-nos ao espelho.
Espelho meu, espelho meu, existe alguém melhor que eu?
O trabalho liberta.
Soares é fixe.
O partido é sexy.
Diferentes mas iguais.
#MeToo.
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas. Para o trabalho. Para casa. Fazer o jantar. Lavar a roupa. Passar a ferro. Fazer os TPC. Aspirar o pó. Cerzir as meias. Mudar a roupa da cama. Apanhar as batatas. Plantar milho. Cozer as couves. Assar um frango. Amanhar o peixe. Pintar as unhas. Cortar o cabelo. Lavar o carro. Ver o jogo. Corrigir as provas. Coçar um olho. Coçar os dois. Abrir a boca num bocejo. Que horas são?
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas.
Uma voz grita Bebes um copo? As cabeças abanam. Todas as cabeças abanam. As pessoas estão atrasadas. Estão sempre atrasadas para irem fazer o que têm de fazer.
O trabalho liberta. Liberta quem?
Continuo a fumar o cigarro à janela enquanto ouço a telefonia na cozinha.
A mulher mais rica de África, ouço.
A mulher é uma ladra, ouço,
As provas não têm legalidade no país, ouço.
O trabalho liberta, lembram-me.
Não. O dinheiro liberta.
Setenta e cinco anos da libertação de Auschwitz. Não aprendemos nada.
Continuamos no ódio. Ao judeu. Ao árabe. Ao cristão. Ao preto. Ao amarelo. Ao vermelho. Ao comunista. Ao fascista. À mulher. Ao homem. Ao velho. Ao novo. Ao careca. Ao cabeludo. Ao albino. Ao cigano. Ao transmontano. Ao alentejano. Ao vizinho. A ti. A mim.
E então?
Está escuro e é já quase noite. Acabo de fumar um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Mando fora a beata do cigarro. Fecho a janela. Desligo a telefonia.
Silêncio.
Não estou.
Não estou para ninguém.
Tenho o jantar por fazer. A roupa por lavar. As camisas por passar. Os TPC por fazer. O pó por aspirar. As meias por cerzir. A roupa da cama por mudar. As batatas por apanhar. O milho por plantar. As couves por cozer. O frango por assar. O peixe por amanhar. As unhas por pintar. O cabelo por cortar. O carro por lavar. O jogo para ver. As provas por corrigir.
Foda-se!
Visto o casaco. Apanho o maço de cigarros, o telemóvel e a carteira. Saio de casa. Preciso de rua. De ar fresco. De gente. De conversar. Beber um copo. Rir. Dançar.

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