Íamos os Três de Carro

Íamos os três de carro. Eu ia a conduzir. Ela ia ao meu lado. Ele estava atrás dela. Eu via-o pelo espelho retrovisor. Levava os auscultadores nos ouvidos. Os olhos fechados. Não sei o que ia a ouvir. Talvez música. Mas não havia rádio nem internet. Estava tudo offline. Se calhar levava os auscultadores nos ouvidos para se desligar de nós, para se afastar. Estava a dizer que estava ali mas não estava.
Íamos os três de carro e íamos em silêncio. Eu ia com atenção à estrada. Chovia muito. Não via quase nada. Por vezes, quando a chuva tornava a viagem mesmo impossível, parava debaixo dos viadutos que cruzavam a A1. Depois, quando abrandava, ou pelo menos, quando não era tão agressiva, voltava à viagem. Sempre com muita atenção. Sempre em silêncio.
Íamos os três de carro e eu levava um cigarro apagado na boca. Apetecia-me fumar, mas era impossível abrir as janelas com a chuva que caía lá fora. Não podia acender o cigarro. Quer dizer, poder, podia, mas não devia. Não é que não me apetecesse. Pelo menos para chatear o tipo, fazê-lo falar, sei lá Podes apagar essa merda, se fazes favor? ou qualquer coisa do género. Mas achei melhor estar quieto. A viagem já era complicada. Não precisava de a complicar mais.
Íamos os três de carro e, por vezes, pensávamos que éramos os últimos sobreviventes na Terra. Até ao momento ainda não tínhamos encontrado nenhum outro carro na auto-estrada. Nem na nossa direcção nem na direcção contrária. Ninguém é doido o suficiente para vir para a rua nestas condições. Só mesmo nós. Nem os carros da Brigada de Trânsito se viam. E ainda havia Brigada de Trânsito? Não sabia. Ninguém sabia. Há quanto tempo não tínhamos acesso a informação?
Íamos os três de carro pela auto-estrada A1. Íamos para Coimbra. Até ao momento ainda não tínhamos precisado de sair da auto-estrada. Não havia lençóis-de-água. Não tínhamos encontrado zonas alagadas. A estrada estava transitável. Estava quase a referir um milagre. Mas eu não acredito em milagres. Não depois de tudo o que tem acontecido.
Íamos os três de carro pela A1 até ao Hospital dos Covões, em Coimbra. Pelo menos esperávamos que o combustível que levávamos num jerricã fosse suficiente para lá chegar e que o hospital estivesse a funcionar e que a consulta que ele tinha marcada desde há um ano ainda se mantivesse. Muitos ses mas, mesmo assim, achámos que era melhor arriscar.
E assim fizemos.
Foi quando começámos a fazer a última subida antes da descida para a saída de Coimbra que nos deparámos com os primeiros sinais de vida desde que saíramos de casa. Estávamos já em cima deles quando a forte chuva que caía nos permitiu ver um camião TIR, a tentar ultrapassar outro camião TIR. Depois de uma viagem sem ver vivalma, apanhei com dois camiões a bloquearem-me a estrada numa subida. Fui atrás do camião da esquerda, o que ia a ultrapassar, mas mantive-me à distância para não ser entalado.
Quando chegámos ao cimo da subida e começámos a descer, o camião da esquerda, que ia a ultrapassar, começou a ganhar velocidade e, finalmente, parecia que ia conseguir ultrapassar o camião da direita e libertar a passagem para que pudéssemos seguir viagem.
Mas não foi o que aconteceu.
O camião da esquerda vez um movimento brusco para a direita, começou a deslizar pela água que escorria descida abaixo e foi contra o outro camião. Eu só tive tempo de tirar o pé do acelerador, baixar a alavanca de velocidades e travar o carro. Senti-o a deslizar pela descida, com os camiões à nossa frente, todos a deslizar, até que começaram a rebolar e foram assim durante vários metros e eu, entretanto, consegui, finalmente, parar o carro no meio da estrada.
Estávamos os três dentro do carro assustados e em silêncio a olhar para o que tinha acontecido. Eu sentia o coração a querer saltar para fora do peito. Ela vomitou para cima do tablier. Ele, vi pelo espelho retrovisor interior, tirou os auscultadores dos ouvidos como para ver melhor. Mas a imagem era muito deficiente. Tínhamos uma queda de água entre nós e os camiões engalfinhados um no outro.
Eu saí do carro para poder ver. Chovia que Deus-a-dava. Avancei uns metros. A auto-estrada estava bloqueada. Não conseguiríamos passar. Também não via sinal dos motoristas dos camiões. E a chuva não parava. Voltei para o carro.
Acendi um cigarro. Finalmente, alguém falou. Foi ela. E perguntou E agora? Eu olhei para ela, abanei a cabeça e disse Não sei!

[escrito directamente no facebook em 2020/01/23]

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