Dia de Greve na Função Pública

Levantei-me cedo. Tinha uma consulta no hospital. Uma consulta muito cedo. Tinha de apanhar a carreira mais cedo ainda. Estes poucos mais de vinte e cinco quilómetros que me distanciam da cidade e do hospital são na verdade muito mais que os quilómetros que as placas à beira da estrada anunciam. Os horários curtos. As inúmeras paragens. As voltas pelas redondezas numa viagem pelo que é o país profundo, consomem as voltas dos ponteiros do relógio que giram rápido a olho nu. Quase que tenho de sair de véspera se quero chegar a tempo às minhas obrigações, mesmo que sejam de saúde, esse bem precioso que me custa os olhos da cara mesmo que seja barato ao olhos sempre financeiramente aguçados dos economistas de serviço.
Levantei-me de noite. Antes do galo. Fui cantar à janela para o acordar e mostrar-lhe como é terrível ter que o aturar todas as manhãs. Gostas de estar do outro lado, cabrão? Estava a chover.
Tomei um duche com todos os cuidados do mundo. Não posso cair. Ando com vertigens. Tenho de tomar cuidado com os passos que dou. Com as voltas do corpo. Agarro-me. Às vezes esqueço-me. Às vezes ainda penso que sou um jovem adolescente na flor da idade e de perna ligeira. Já quase caí. Mas ainda não aconteceu.
Vesti-me no quarto. Em silêncio. A tentar esquecer o frio que estava.
Fiz café para beber antes de sair de casa. Liguei a televisão pequena, a televisão a preto e branco da cozinha, a televisão que muda os canais com um rotor que preciso de rodar sempre para a direita para mudar de canal. Às vezes é preciso força. Deixei no canal que estava. Notícias. Ainda bem que liguei a televisão.
Era dia de greve na função pública.
Primeiro nem percebi muito bem o que estava a ouvir. Sabia que era algo que me interessava. Que me afectava, de algum modo. Mas nem percebi logo. Depois, o clique. Greve. A greve. A greve da função pública.
Pus café numa caneca. Acendi um cigarro. Fui pôr-me à janela da cozinha. A olhar para fora, para a rua. Mas via-me a mim, não via a rua. Via o meu reflexo. Lá fora estava escuro. O dia ainda era noite. Só via o meu reflexo na janela. O meu reflexo de caneca numa mão e cigarro na outra.
Imaginei o cabrão do galo a rir-se de mim.
Ainda não via o contorno das montanhas lá ao fundo. Ainda era de noite. A manhã ainda vinha longe. A carreira devia estar a passar lá ao fundo. Ao fundo da estrada. E continuava a chover.
Apaguei o resto do cigarro no resto do café que já não conseguia beber.
Comecei a despir-me ali, na cozinha. Tirei a camisola. As botas. As calças. A t-shirt. Os boxers. As meias. Fiquei nu. Vi-me nu na janela da cozinha. No meu reflexo iluminado no vidro da janela contra o escuro da rua. Senti um arrepio de frio.
Para que é que ia à consulta? perguntei-me. E já não me lembrava ao que ia.
Tentei forçar a memória. O porquê da consulta. E então só me vinha à memória a Suzi Quatro. Porquê a Suzi Quatro? Vi-a de calças de cabedal pretas e camisola de alças branca, justa, os peitos volumosos, uma guitarra nas mãos a cantar 48 Crash.
Virei costas ao meu reflexo. Percorri a casa nu, na companhia da Suzi Quatro, e voltei para a cama. Ouvia a chuva a cair lá fora.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/31]

Tudo ou o que Resta?

Quem sou eu, agora?
Todos os dias de manhã, quando me levanto, quando entro na casa-de-banho e me olho ao espelho para fazer a barba, faço essa pergunta Quem sou eu, agora?
E quem sou eu, agora?
Uma mistura de todas as vidas que fui vivendo ou o resto que ficou?
Vasculho-me e nada.
Abro os olhos meio-tombados, amarelos de hepatite, e olho-me ao espelho. Esfrego a mão na cara. Sinto, com prazer, os curtos pêlos da barba por fazer a arranharem-me a mão. Gosto do som que faz.
Molho o pincel na água da torneira. Esfrego-o no sabonete. Olho para o meu reflexo. Bocejo. Espalho a espuma do sabonete pela cara. Com a navalha, em contra ciclo ao nascimento dos pêlos, corto-os. Faço sangue. Vejo-o espalhar-se pela cara através da espuma. Mas continuo a escanhoar a cara.
Quem sou eu? Quem sou eu, agora?
Molho a cara. Retiro esta máscara de limpeza. Olho e sou já outro. Demoro uns nano-segundos para perceber que este que está aqui à minha frente é o mesmo que estava aqui, no mesmo sítio, no mesmo reflexo, uns minutos antes. A cara é outra, mas eu sou o mesmo, ou não?
A verdade é que me sinto diferente se estiver de barba ou de barba feita. O hábito faz o monge? Também.
Mas indo para além dessa hora madrugadora do dia?
Sou a confluência de toda a minha vida ou só o que resta dela?
Vejo uma borbulha de ponta amarela na cara. Escapou à navalha. Tem pus. Espremo-a e vejo sair um fio amarelo-gordura de dentro de mim. Lavo a cara. Penso que dentro de mim transporto lixo e virulência.
Visto-me sem vontade. Sento-me na cama desfeita entre peças de roupa. Boxers. Sento-me. Uma meia. Outra. As calças. Sento-me. Uma camisola. Sento-me. Um sapato. O outro. Outra camisola mais grossa. Sento-me. E agora? O que é que tenho de fazer?
Ouço dentro de mim Ganhar a vida, para me consciencializar. Ganhar a vida. Mas não me faz ganhar força, ganhar a vida. Para quê?
Não serei eu só um resto do que foi ficando?
Do que ficou nas casas que deixei?
Do todo eu que foi ficando para trás? Nas mãos das amantes, dos amigos, da família? O que deixei numa chávena de café? Na cinza de um cigarro?
Levanto-me da cama. Sinto os meus passos cruzarem o quarto, o corredor, a cozinha, O que é que vim aqui fazer?, o regresso ao corredor. A mão a abrir a porta da rua e sair.
Quem sou eu, agora?
Sou talvez um resto. Uma cara vagamente familiar e uma mente confusa. Talvez aquilo que mais ninguém quis e que me sobrou. O restolho.
Ou sou tudo isto e mais o resto. O que sou e já fui. O que já esqueci, o que deixei e o que trouxe. O que li. Mesmo o que não li, mas tenho para ler. O que vi. O que aprendi. O que amei. E tanto que amei.
Porra, sou uma grande confusão.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/30]

A Camisa Castanha

Bastou uma vez. Bastou vê-la uma única vez para perceber.
Estava sentado no muro da rua. Estava a fumar um cigarro, mas com o cigarro escondido dentro da mão para ninguém ver. Para os meus pais não saberem. Claro que, à minha volta, percebia-se o fumo do cigarro a subir em espiral. Mas o cigarro, ninguém via. Estava dentro da mão. E eu levava a mão à boca e fumava. Às vezes a incandescência do cigarro queimava-me a mão, mas eu tinha de aguentar.
Estava sentado no muro da rua a fumar um cigarro quando a vi passar. Era a miúda nova. Fiquei preso na teia que emanava. Prendi-lhe o olhar e não a larguei. Quando passou por mim percebeu o olhar e sorriu. Um sorriso para dentro, mas que eu percebi. Acho que foi feito para eu perceber.
Não falámos. Não falámos durante quase duas semanas. Eu era tímido. Ainda sou. Mas todos os dias eu estava lá. No muro. A fumar um cigarro escondido. E todos os dias eu a olhava. Cada dia mais ostensivo. E ela já não só sorria como respondia, insolente, com um olhar igual ao meu. Quando passava por mim, mesmo próximo de mim, quase-quase a tocar-me que lhe percebia o cheiro adocicado da água de colónia frutada que usava ou a transpiração em dias de ginástica, oh como gostava de a olhar em fato-de-treino, o corpo solto, liberto, o cabelo um pouco molhado tombado sobre os olhos, os olhos que não tirava de mim e que me diziam Então, pá! é hoje que me dizes Olá?
Demorou. Demorou a dizer olá.
Quando lhe disse Olá! pela primeira vez, ela parou ao pé de mim. Olhou-me descarada de cima abaixo. Parou o olhar na minha mão dobrada e fumegante e perguntou Estás a fumar? Eu acenei a cabeça. Ela pediu Dás-me um? E eu, trapalhão, tirei o maço do bolso das calças e deixei-o cair no chão, os cigarros espalharam-se e tive de andar de cu para o ar a apanhá-los. Depois estendi-lhe um. Ela agarrou-me na mão com o cigarro escondido e puxou-a para si. Os olhos em mim. Pôs o cigarro na boca e acendeu o cigarro dela no meu. Encostou-se ao muro onde eu estava e ficou ali ao meu lado a fumar. Ela agarrava o cigarro entre dois dedos da mão direita. Sem medos. E levava a mão com elegância à boca e puxava uma passa. Eu continuava a esconder o meu cigarro. Depois esticou-se para mim, deu-me um beijo na cara e disse-me o nome.
Eu corei.
Disse o meu nome sem olhar para ela.
A partir desse dia passamos a estar juntos todos os dias. Mas não foi tudo nem fácil nem rápido. Passaram dois dias até que conseguisse agarrar-lhe a mão pela primeira vez e passear, com ela, de mãos-dadas, pela rua.
Depois passaram mais dias, semanas, e o nosso à-vontade cresceu. Éramos namorados. Já nos beijávamos. Já nos tocávamos. Estávamos muito próximos de termos a nossa primeira relação sexual.
Quando tudo se precipitou.
Um dia, já andávamos há cerca de um mês, ela chegou de camisa castanha vestida. Bastou uma vez. Bastou vê-la uma vez de camisa castanha.
Tudo morreu ali, naquela camisa castanha. Nunca mais a quis ver.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/29]

O Advogado

Ainda o autocarro não tinha saído de Sete Rios, já o tipo se anunciava ao mundo. Sim, era advogado, mas estava sem farda. Já era entradote e não estava de fato, o que complicou um pouco o imaginário. O meu imaginário. Sim, eu sei, as coisas já não são como eram. O mundo é outro. As pessoas evoluíram e os estereótipos são redutores, além de serem estúpidos e preconceituosos. Pronto, mas eu sou um tipo um bocado estúpido e cheio de estereótipos que me ajudam a balizar o mundo. Preciso de me manter em equilíbrio. O homem usava umas calças de sarja, salmão (quem é que usa umas calças salmão?). Calçava umas botas de pele, de meio-cano, com atacadores e fecho atrás, no calcanhar, umas botas daquelas com furinhos em forma de cornucópias na biqueira e de um castanho-amarelado quase-Camel. Na parte de cima, e por baixo de um anoraque cinzento, daqueles muito barulhentos que orquestram o ar a cada movimento, vestia um pulôver vermelho. Talvez tivesse uma camisa, não sei, mas não consegui ver por baixo do cachecol às riscas, em vários tons cinza, que tinha enrolado à volta do pescoço. Aquelas cores, muito próximas e, no entanto, tão diferentes, criavam assim uma espécie de ton-sur-ton bizarro e louco, demasiado colorido para alguém que se queria advogado, isto segundo as minhas leis pré-estabelecidas sobre a ordem do mundo, e antes de ser jogado para outra dimensão.
Então, ainda o autocarro estava em Sete Rios, o advogado dizia, num tom de voz jorrado do palco sobre a plateia, que estava a conduzir, tinha parado para uma mijinha (palavra dele), estava a ver o processo pelo WhatsApp enquanto bebia um cafezinho, mas que aquele tipo de assunto merecia ser visto num computador, com ecrã grande, que o deixasse pensar, o que iria fazer assim que chegasse ao escritório.
Eu estava zangado com a algazarra ao telemóvel, mas não deixei de sorrir à mentira gritada frente a tantas testemunhas. E pensei, É mesmo advogado?
O tipo estava sentado ao meu lado, no outro lado da coxia central. Cofiava a barba de três-dias, grisalha. Acenava com a cabeça como se o interlocutor o estivesse a ver. Mas aquela não era uma vídeo-chamada. Despediu-se com um Com certeza! e desligou a chamada.
À nossa volta, minha e dele, uma série de passageiros, quase todos com ar de estudantes universitários, todos agarrados a computadores e tablets e umas meninas, bastante coloridas nas roupas e na decoração, que falavam baixinho entre si e passaram o tempo todo a escrever nos telemóveis com dedos encimados com unhas-de-gel que faziam tec-tec-tec no ecrã, estavam em trânsito de uma cidade para outra.
Pensei no que esta gente fazia com os computadores e com os tablets porque não havia internet no autocarro. O wireless é uma miragem mais prometida que oferecida. Estava tudo morto. Só o telemóvel do advogado continuava a apitar.
Gritava para se fazer ouvir do outro lado. Está?, perguntava. Não era nenhum constituinte. Era a mulher. Sim, claro que a mulher sabia que ele ia de autocarro. E sim, sabia que tinha de o ir buscar. E sim, ainda tinha tempo para fazer o que precisava de fazer. Ele ainda estava em Lisboa, dizia quando se aproximava já de Loures, mas ainda não tinha passado a portagem. Eu não ouvia a mulher. Mas ouvia-o a ele e percebia-a a ela.
O autocarro não ia cheio. Qualquer coisa para cima de meio. Mas quem ouvisse o homem, julgaria que o autocarro estava vazio e que se tinha transformado em escritório de advogado que trabalhava por WhatsApp, embora o computador fosse melhor para analisar alguns casos.
E à mulher ainda disse Sim, querida, vamos jantar… O que tu quiseres… Pode ser uma sopinha. Ainda estou cheio do almoço, vê lá tu.
Depois uns beijinhos enviados em rapidez e, finalmente, desligou.
Fez-se um silêncio que me pareceu estranho. Já me tinha habituado.
Mas logo ouvi Oh, foda-se! quando o advogado percebeu que o wireless do autocarro não estava a funcionar. Olhou em volta para ver se alguém tinha internet, mas tal como eu não deve ter percebido nada. Toda a gente que se avistava estava a fazer coisas nos computadores, nos tablets ou nos telemóveis. Eu vi isto pelo canto do olho.
O silêncio não durou muito tempo. O telemóvel começou a tocar uma música clássica muito alto. O homem foi apanhado de surpresa. Vejo-lhe os dedos a tocarem no ecrã. Está aflito. Devia estar a fazer alguma coisa no WhatsApp, fora surpreendido com a música de chamada e não estava a conseguir responder à situação.
Finalmente consegue atender o telefone. Troca o barulho da música por um português que balança o samba. Percebo que fala com alguém brasileiro. O seu português ganha as curvas musicais adocicadas do hemisfério sul. E diz Não pude fazer a transferência porque o seu IBAN só tem 20 números e o nossos tem 21. O ATM não aceitou a transferência. Veja lá isso.
Sim, pensei eu, veja lá isso e dê-me tempo.
Depois desculpa-se e diz que tem outra chamada. Atende a outra chamada. Fica mais alegre. Ouço-o dizer O bom que há aqui é que não há ninguém no meio. Estou directamente com a empresa. Isto é cinquenta por cento para cada lado. Exactamente. Ok? Um abraço.
Quando era mais novo, não novo de adolescente, mas ainda jovem, conseguia dormir em qualquer lado e em quaisquer condições. Sentava-me sobre o cóccix, os joelhos presos nas costas do banco da frente, deixava-me embalar pelos solavancos do autocarro e passava pelas brasas. Recuperava forças. Dormitava um pouco e, quando chegava ao destino, estava pronto para o que o destino me quisesse aprontar. Agora era mais difícil. Estou maior. Mais gordo. O espaço entre os bancos encolheu, não encontro conforto e já não consigo dormir em andamento. Mesmo ler qualquer coisa provoca-me vómitos. Mas gosto de ir sossegado. A pensar com os meus botões sobre as vicissitudes da minha vida.
Mas aquele advogado ali ao lado, aquele advogado-actor que parecia estar em cima de um palco a falar para a última fila da plateia, estava a dar comigo em doido. E foi assim até ao destino.
Ao chegar ao destino, o advogado ansioso já em pé durante as manobras de estacionamento do autocarro, voltou a receber uma chamada telefónica do brasileiro do IBAN. Dizia que estava no ónibus e não podia tratar de nada. Agora não posso tratar de nada, dizia. Estou no ónibus. Amanhã, dizia. Mas tem de arranjar alguém com uma conta portuguesa com um IBAN de 21 espaços para 21 números. Veja lá. Amanhã… Amanhã…
E enquanto descia as escadas da porta traseira do autocarro, e eu atrás dele, o advogado continuava a dizer Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, como um final de peça, Amanhã… Amanhã… Cada vez mais baixo, quase até ao limite da audição. Amanhã… Amanhã…

[escrito directamente no facebook em 2020/01/28]

Setenta e Cinco Anos

E então?
É noite, embora fosse ainda dia. Fumo um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Continuamos a cuspir-nos ao espelho.
Espelho meu, espelho meu, existe alguém melhor que eu?
O trabalho liberta.
Soares é fixe.
O partido é sexy.
Diferentes mas iguais.
#MeToo.
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas. Para o trabalho. Para casa. Fazer o jantar. Lavar a roupa. Passar a ferro. Fazer os TPC. Aspirar o pó. Cerzir as meias. Mudar a roupa da cama. Apanhar as batatas. Plantar milho. Cozer as couves. Assar um frango. Amanhar o peixe. Pintar as unhas. Cortar o cabelo. Lavar o carro. Ver o jogo. Corrigir as provas. Coçar um olho. Coçar os dois. Abrir a boca num bocejo. Que horas são?
Fumo o cigarro cá em cima, à janela. Lá em baixo passam as pessoas apressadas.
Uma voz grita Bebes um copo? As cabeças abanam. Todas as cabeças abanam. As pessoas estão atrasadas. Estão sempre atrasadas para irem fazer o que têm de fazer.
O trabalho liberta. Liberta quem?
Continuo a fumar o cigarro à janela enquanto ouço a telefonia na cozinha.
A mulher mais rica de África, ouço.
A mulher é uma ladra, ouço,
As provas não têm legalidade no país, ouço.
O trabalho liberta, lembram-me.
Não. O dinheiro liberta.
Setenta e cinco anos da libertação de Auschwitz. Não aprendemos nada.
Continuamos no ódio. Ao judeu. Ao árabe. Ao cristão. Ao preto. Ao amarelo. Ao vermelho. Ao comunista. Ao fascista. À mulher. Ao homem. Ao velho. Ao novo. Ao careca. Ao cabeludo. Ao albino. Ao cigano. Ao transmontano. Ao alentejano. Ao vizinho. A ti. A mim.
E então?
Está escuro e é já quase noite. Acabo de fumar um cigarro à janela e ouço a telefonia na cozinha.
Hoje é dia de memórias. Passam setenta e cinco anos da libertação do campo de Auschwitz. Mas parece que ninguém aprendeu nada.
Mando fora a beata do cigarro. Fecho a janela. Desligo a telefonia.
Silêncio.
Não estou.
Não estou para ninguém.
Tenho o jantar por fazer. A roupa por lavar. As camisas por passar. Os TPC por fazer. O pó por aspirar. As meias por cerzir. A roupa da cama por mudar. As batatas por apanhar. O milho por plantar. As couves por cozer. O frango por assar. O peixe por amanhar. As unhas por pintar. O cabelo por cortar. O carro por lavar. O jogo para ver. As provas por corrigir.
Foda-se!
Visto o casaco. Apanho o maço de cigarros, o telemóvel e a carteira. Saio de casa. Preciso de rua. De ar fresco. De gente. De conversar. Beber um copo. Rir. Dançar.

Natureza-Morta

É Domingo. Acordo e já é meio-dia. Levanto-me da cama, sinto o frio do quarto e visto uma camisola sobre a pele arrepiada dos braços. Ponho os pés nuns chinelos e vou à cozinha. Olho à entrada e vejo. Vejo a natureza-morta da minha cozinha.
A mesa, um pouco deslocada para a direita, centra o que poderia ser uma pequena sala de jantar anexada à cozinha. Atrás, junto à parede onde estou parado à porta a olhar, a antiga lareira que foi adaptada à modernidade e se transformou numa salamandra enfiada no plateau da antiga lareira, demasiado grande para os tempos de míngua e solitários que vivo. Já não preciso de ter a panela ao lume com a água quente pronta a aquecer umas couves que acompanham um bocado de toucinho cortado à navalha, depois de desembrulhado do papel almaço que o envolve. Mas os enchidos ainda lá estão pendurados. O chouriço, a morcela, o bucho, a farinheira, tudo aqui das redondezas, tudo oferecido pela vizinhança. Há umas tranças com cebolas. Uns ramos feitos de folhas de louro. Gosto do cheiro que tudo isto me deixa na cozinha.
Sobre a antiga lareira onde jaz uma nova salamandra, a caçadeira do meu avô. Não sei se está em condições de disparar. Nunca a limpei. Para mim não é mais que um adereço. Um adereço de caça que foi do meu avô. Uma herança que, para mim, não é mais que um objecto decorativo.
Sobre a mesa, uma pequena fruteira com dióspiros, algumas tangerinas e uma maçã já pisada, com uma mancha castanha que começa a alastrar. Não a devia mandar para o lixo?
Caída da fruteira sobre a mesa, uma banana. Talvez seja uma banana da Madeira, mas não tenho a certeza. Não me recordo de a ter comprado. Talvez tenha sido a rapariga que vem cá a casa uma manhã todas as semanas que a tenha deixado. Talvez seja uma prenda do operariado ao patronato. E dou comigo a pensar que também eu posso ser patrão. Largo uma pequena gargalhada que transforma esta leitura da minha natureza-morta numa natureza-morta com banda-sonora na figura de uma gargalhada tímida e surpresa. Afinal, até eu posso ser patronato? Quem diria!
Na parte esquerda da cozinha, o lava-loiças vazio. Não tenho cozinhado. Não tenho sujado louça. Quanto muito, a tábua para cortar o pão, a faca de serrilha e a faca para barrar a manteiga nas carcaças que engulo com prazer ao lembrar o papo-seco da minha infância. Agora utilizo manteiga Milhafre, dos Açores, e esta manteiga faz-me lembrar a manteiga Primor da minha infância mais que a Primor dos dias de hoje. Gosto muito de pão com manteiga.
O frigorífico ao canto. Já lá teve preso vários postais. Hoje está limpo de informação e imagens. Por cima do frigorífico, um antigo galheteiro que já não uso. Entre o frigorífico e a parede, um caixote do lixo com pedal para não sujar as mãos. Não se vê, mas o pedal está partido. Afinal, sempre tenho de sujar as mãos. Ao lado, uma vassoura e uma pá caída no chão. Depois, a seguir ao frigorífico, um bocado de bancada antes do fogão incrustado. Um micro-ondas sobre a bancada. Uma chaleira. Um máquina de café com café. É de quando, este café? Quando foi a última vez que fiz café? Há também um rolo de papel-de-cozinha enfiado numa geringonça de plástico. Depois o fogão. Uma tampa de madeira sobre o fogão. Uma tampa que arranjei à beira da estrada e que funciona como protecção. Por cima da tampa um cesto de pão. Lá dentro um saco-de-pano, de chita, talvez com pão. Carcaças, talvez. É o que gosto de comer. Depois continua a bancada. Há uma torradeira sobre a bancada. Utilizo muito a torradeira. Ao lado um frasco grande com azeitonas. Azeitonas do produtor. Um vizinho que as ofereceu. Ainda não estão em condições de serem comidas. As azeitonas ainda estão muito salgadas. Preciso de ir mudando a água com alguma regularidade.
O lava-loiças. Por cima, uma janela. A janela por onde olho enquanto lavo a loiça. A janela por onde vejo as montanhas lá ao fundo, as montanhas de eterno cume branco, onde subo durante o Verão, quando está mais quente e mais facilmente aguento os caminhos íngremes que me levam lá acima.
Depois o resto da bancada, onde está uma tomada que utilizo para pôr o telemóvel à carga. Às vezes está lá uma garrafa de vinho tinto. Às vezes, um cesto com fruta acabada de apanhar e que me vêm trazer cá a casa. Figos. Nêsperas. Maçãs. Às vezes um bolo da festa. Uns tremoços. No Verão, um melão encetado. Ou uma melancia que retiro do frigorífico algum tempo antes de comer por causa dos dentes.
A seguir a porta da rua. A porta que abro para o alpendre onde fumo os meus cigarros a olhar as montanhas.
Regresso à mesa. A mesa um pouco deslocada para a direita. A mesa onde não está um coelho guisado em tacho de barro mas onde podia estar. Faz parte da minha natureza-morta. O coelho guisado em tacho de barro que a minha mãe fazia para o meu pai e que mais tarde começou a fazer para mim. Eu também sei fazer esse coelho. Mas estou sem paciência para cozinhar. Para cozinhar só para mim. Gosto de cozinhar para mais gente, para mais pessoas..
A minha cozinha só tem espaço para a natureza-morta.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/26]

Em Alcobaça Há Maçãs, Mercedes, Turistas e um Rei do Toys R Us

Alcobaça. Praça 25 de Abril. Frente ao Mosteiro. Estou na esplanada. Numa das esplanadas viradas para a fachada do Mosteiro. Nas escadas de acesso à entrada, Dom Pedro V, rei de coroa de plástico falsa, espada do Toys R Us e capa de cetim vermelha, estende a mão ao grupo de turistas asiáticos (devem ser de um só país, mas não sei qual) que o fotografam em inúmeras fotografias todas iguais.
É fim-de-dia. Ainda está sol. Está frio. Estou numa esplanada em frente à fachada a beber um café e quando levo a chávena aos lábios, o café está frio. Frio e queimado.
Na Praça 25 de Abril, na praça onde em certos fins-de-semana se vendem velharias como antiguidades, está uma mãe com uma criança pequena. A mãe agarra a pila da criança na mão e aponta para uma árvore. A criança mija como os cães, contra a árvore raquítica e despida como são todas, ou quase, neste Inverno onde começou realmente, agora, a fazer frio.
O sol começa a baixar rápido. As sombras começam a invadir a fachada do Mosteiro. O rei continua de mão estendida. Dois autocarro param no parque de estacionamento ao lado e os asiáticos enfiam-se, rápidos, lá dentro. Vão-se embora. O rei bate com os pés no chão de pedra das escadas. Tem frio, provavelmente. O rei não é um cão. O rei tem frio.
Um Mercedes pára na berma da estrada frente à esplanada. Estaciona onde não pode estacionar. Mas é um Mercedes. Os velhos, que perderam a vista para o Mosteiro, refilam. Mas refilam em voz baixa. Nunca se sabe quem sai de dentro de um Mercedes. E quando a porta se abre, sai lá de dentro o filho do dono do Mercedes. Os filhos são sempre mais desligados destas coisas que os pais. Os filhos já nasceram assim, donos da vida. Da vida deles e da vida dos outros. Que importa que não se possa estacionar ali onde se quer estacionar? Que importa que se tape a vista aos velhos? Não deviam estar no lar? No cemitério?
Estava no meu solilóquio quando estaciona outro Mercedes atrás do primeiro. Agora é uma carrinha. Duas senhoras. Meia-idade. Bem vestidas. Cabelo de cabeleireira. Casacos quentinhos. Carros elegantes. Há muitos Mercedes em Alcobaça.
Alcobaça também é uma zona de muita fruta. A Maçã de Alcobaça é bastante conhecida e apreciada em todo o lado. Mas é impossível de encontrar no Pingo Doce. Santos da casa não fazem milagres.
Já não há sol. O céu ainda está azul, mas já não há sol. Fecho o casaco. O frio está mais forte. O rei foi embora e nem dei por isso. Os asiáticos também. Nem vi os autocarros a partirem. A mãe e o filho que mijava nas árvores do 25 de Abril também desapareceram. Já não há ninguém na praça frente ao Mosteiro de Alcobaça. Há algumas pessoas nas esplanadas, senhoras de casacos-de-pele e homens de sobretudo. Alguns jovens de fato-de-treino e banho por tomar.
Olho à volta e espero que alguém me convide para uma Cornucópia no Alcoa. Não há ninguém. Onde estão todas as pessoas da minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/25]