O Primeiro Natal

Era o primeiro Natal depois da morte do meu pai. E toda a gente estava empenhada em ajudar a minha mãe a ultrapassar essa ausência da melhor maneira possível.
Família que eu nunca vira. Alguns amigos, não assim tão chegados. Vizinhos solitários. Toda esta gente resolveu passar a noite da consoada lá em casa.
E eu percebi que iria cair tudo em cima de mim. Previ a catarse geral. O choro compulsivo. O rasgar das vestes (havia algumas tias mais dadas a excentricidades). O tecer de elogios de quem nunca tinha privado com ele. A amizade de quem nunca o ajudou quando ele mais precisou. Enfim. Não são assim as pessoas? Distantes na miséria mas simpáticas e condoídas depois das desgraças fúnebres? Depois de morrer, toda a gente era a melhor gente do mundo.
Eu estava empenhado em que nada daquilo se passasse. Queria a minha mãe distante de tudo. Queria que a ausência não fosse mais que uma ausência.
Não me meti na organização da festa de Natal e deixei que as pessoas fizessem como bem entendessem. Deixei tudo nas mãos experientes das damas da família com muitos natais nas mãos. Escolheram a ementa. Fizeram divisão de tarefas. Arranjaram mealheiro colectivo e não me pediram dinheiro.
O meu único contributo para a noite da consoada foi pôr a mesa de Natal, sem lugar para o meu pai, assim decidi, para não aumentar o tamanho da ausência. Assumi a cabeceira. A minha mãe ao meu lado. O resto, distribuído por afinidades ou falta delas para não criar ansiedades nem desgostos. Há sempre quem aproveite o Natal para criar expectativas. Pelo menos nos meus natais tem sido assim.
E, depois, uma pequena surpresa. A confecção de uns pequenos e saborosos bolos. Uns pequenos e saborosos bolos de haxixe. E fiz umas miniaturas para as crianças, sem haxixe.
No início da noite andei a oferecer bolinhos a toda a gente. Ninguém se negou comê-los. E eu insistia em ficar por lá até os ver comer tudo, até à última migalha. E foi o que aconteceu. Não sobrou uma migalha. Até a minha mãe comeu. Fui elogiado. Eu e os bolinhos.
O jantar foi devorado.
Ninguém foi à Missa do Galo.
A noite foi passada a discutir a hipótese, plausível, de Jesus Cristo ser um extra-terrestre de Alfa-Centauro. Ainda se referiu a Atlântida e a Ilha de Mü. As estátuas gigantes da Ilha da Páscoa e os astronautas nas Linhas de Nazca.
Acabou toda a gente a dormir lá por casa. Qualquer canto era uma boa cama. Andei a distribuir cobertores e almofadas. Descalcei quase toda a gente. Havia quem tivesse as meias rotas. E logo os tios mais ricos. São sempre os mais miseráveis.
Na manhã seguinte saí cedo com a criançada toda até ao parque infantil no jardim da cidade. E deixei a casa, em silêncio, a curtir a ressaca do Natal.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/23]

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