Deitado no Chão do Corredor

Abro-lhe a porta da rua. Ela entra em casa. Estica o pescoço para o beijo da praxe. Eu agarro nela e encosto-a à parede do corredor. Ela deixa-se prender. A porta da rua aberta. Beijo-a nos lábios e deixo a minha língua percorrer-lhe o pescoço. Sinto-a ficar arrepiada. Mando-a ao chão. Puxo-lhe as calças para baixo. Ponho-me em cima dela. Estou ofegante. Ela também. Há um respirar roufenho. É tudo muito rápido. Tudo muito intenso. E como começa, acaba.
Eu ainda estou dentro dela quando ela diz A miúda precisa de dinheiro para uma visita de estudo. Eu saio de dentro dela e deixo-me escorregar para o lado, para o chão.
Ela levanta-se. Está sobre mim. Puxa as calças para cima e continua A mensalidade do carro não foi paga. Eu olho-a de baixo e vejo-a grande, gigante. Ela vai fechar a porta da rua. Faz o corredor até ao fim e entra na cozinha.
Eu fico ali deitado a pensar na vida de merda que temos. Salários baixos. Ela com trabalho certo mas um salário pouco mais que o salário mínimo e eu, eu recebo um pouco mais, com os trabalhos avulso que faço, mas nem sempre tenho trabalho. Muita ginástica para chegarmos ao fim do mês.
Ela aparece ao fundo do corredor. Vem a fumar um cigarro. Senta-se em cima do meu peito. Coloca-me o cigarro na boca, olha-me nos olhos, séria, e diz Precisamos de dinheiro para a miúda. Não lhe vou dizer que não vai. Dá-me um beijo na face, levanta-se e diz Puxa as calças para cima! e desaparece de novo ao fundo do corredor. Talvez de novo na cozinha. Talvez na casa-de-banho. Não vi para onde entrou.
Onde vou arranjar dinheiro para a miúda?
Levanto o corpo em arco e puxo as calças para cima. Mas deixo-me lá ficar deitado, no chão. Fumo o cigarro. E penso onde posso ir arranjar dinheiro.
Acabo de fumar o cigarro. Coloco a beata em pé no soalho de madeira até morrer. Tomo cuidado para não a deitar abaixo. Posso sempre vender a câmara. Sempre é uma Canon 7D. Mas quem é que vai dar o que ela vale? O que ela vale para mim?
Ela aparece outra vez do fundo do corredor com um telemóvel a tocar. É o meu. Ela passa-mo para a mão. Eu atendo. Ela vê a beata caída no chão. Faz-me má cara. Baixa-se e apanha a beata que já estava a queimar a madeira do soalho. Eu respondo Sim, está bem! para o telemóvel. Ela levanta-se e dá-me um pontapé nas pernas. Um pontapé fraco. Só para me chatear. E eu volto a dizer Sim, está bem! para o telemóvel. E desligo.
Digo-lhe Já tenho dinheiro para a miúda. E para a mensalidade do carro. E para uma garrafa de vinho. E sorrio-lhe. E ela responde Boa!, mas sem grande alegria. E eu continuo Um texto. Dois, três dias. Ela acena a cabeça ali, sobre mim.
Eu continuo deitado no chão do corredor a olhar para ela e digo-lhe Merecia um copo e vinho tinto. Ela sorri. Vai corredor fora com a beata na mão e diz Vem buscar.
Eu olho para o tecto e penso Tenho uma vida de merda mas é a minha! Levanto-me e vou atrás dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/13]

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