Na Cama Até ao Meio-Dia

Estamos os dois na cama. Na preguiça. É Domingo. Manhãzinha. Quer dizer, ainda não era meio-dia, hora a partir da qual já não é de bom tom estar na cama. Um homem fez-se para trabalhar, dizem. Não para estar na cama até ao meio-dia, continuam a dizer. Enfim, gente chata que não sabe apreciar as coisas boas da vida.
Há lá melhor que estar no quente da cama, num Domingo de manhã, a ouvir a chuva a cair lá fora, na rua, e sentir uns dedos suaves de uma mão quente, que não é nossa, a percorrer o nosso corpo nu que começa a ficar arrepiado?
Mas já divago.
Na verdade não há nada dessas coisas quase-sexuais a acontecer. As mãos dela estão cruzadas em cima do peito, como as minhas, aliás, enquanto olha para o tecto, como eu, a pensar no que fazer para o almoço se conseguir levantar-se. Eu sei isso porque ela perguntou-me O que é que queres almoçar? e eu respondi-lhe Não sei! O que tu quiseres! que tem sempre o condão de irritar o outro, o que faz a pergunta.
Ela não se irritou. Porque não se irrita com as minhas merdas. Ainda estamos na magia da segunda semana. Ainda não damos puns à frente um do outro. Ainda acreditamos em unicórnios e a vida em conjunto é bela e cheia de lantejoulas e purpurinas. As coisas talvez mudem um pouco passado mais um mês. Comigo costuma ser por volta de um / dois meses. Esse é o tempo suficiente para começarem a querer que eu lave os dentes antes de nos beijarmos e começarem a irritarem-se com os Hum!… que eu dou como resposta que, de início, é algo que as faz rir, sou um tipo com muita piada, um puto, dizem, que depois se transforma em criancinha mal-educada com quem não se consegue ter uma conversa.
Não, ainda não tínhamos chegado a essa altura. E por isso ela estava a pensar no que fazer para o almoço.
Ainda estamos no domínio do sonho, da vida é bela, da paixão. Do que fazer para agradar ao outro e o estômago é sempre um bom caminho.
Gosto tanto de ti. Eu também. Vamos para debaixo do edredão? Vamos, vamos! Que se foda o almoço!
Mas não vamos. O telemóvel dela toca. Alguém que não sabe que é Domingo e ainda de madrugada. Alguém que, obviamente, não está apaixonado nem sabe que há gente no mundo que está.
Quem será? pergunta ela antes de agarrar o telemóvel.
Quem será? penso eu.
Ela atende. Responde com monossílabos. Vejo a cara a ficar séria. Talvez um pouco branca para quem, como ela, não há muito tempo, estava rosadinha.
Vou já para aí! ouço-a dizer. Desliga o telemóvel. Afasta o edredão para o fundo da cama e salta para fora.
Percebo que se acabou o irmos para debaixo do edredão. Ela começa a vestir-se. Nem toma banho. Diz-me A minha mãe foi internada na UCI. Egoísta, sai-me assim, rápido, sem ter tempo de pensar E a tua irmã? E eu já sabia que a irmã não estava cá. Não estava na cidade. Se calhar nem estava no país. E mesmo que estivesse! penso.
Ela olha-me de lado, como quem diz Então?! É a minha mãe, pá! e acaba de vestir-se enquanto o Diabo esfrega um olho. Dá-me um beijo rápido e diz Depois digo alguma coisa.
Vejo-a sair do quarto. Ouço-lhe os passos rápidos a percorrerem a casa. A porta da rua a abrir e a fechar. E o silêncio.
Puxo o edredão para cima. Viro-me para o outro lado. Ouço a chuva a cair lá fora. Sinto-me bem no quentinho da cama, mesmo que sozinho. E sinto o sono a chegar. Não o contesto. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/10]

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