A Criança

O velho apontou para uma pequena tenda rasgada. Uma pequena tenda rasgada ao pé de outras pequenas tendas rasgadas, montadas umas ao pé das outras mas cada uma à sua maneira e virada para seu sítio. Juntas mas separadas. E depois disse É aquela, e eu vi a boca do homem sem dentes. A língua a chicotear suavemente o céu da boca à procura da fonética para que eu entendesse o que dizia à falta dos dentes a ajudar. É que nem um para amostra. E questionei-me como é que o homem comia. Como é que rasgava a comida? Como é que a mastigava? E percebi que aquele homem, aqueles homens ali, aqueles homens e mulheres que viviam ali naquelas pequenas tendas já não deviam comer há muito tempo. Talvez uns goles de vinho, que escorre garganta abaixo e ajuda a esquecer a miséria onde vivem, e uns bocados de pão duro amolecido com água da chuva. Não são precisos dentes para engolir pão amolecido pela água da chuva. É uma sorte ter chovido, mesmo assim. E depois vi os rasgos nas tendas onde este homem e os outros vivem e arrependi-me de ter pensado o que pensei. Há gente que não precisa de chuva.
Acenei um agradecimento ao velho e avancei até à tenda que ele indicou. Olhei para a tenda. E pensei E agora? O que é que se faz frente a uma tenda? Não se pode bater à porta. Bato palmas? Chamo por alguém? Olhe, se faz favor! Não. Não sei.
Agachei-me frente à entrada da tenda. Estava aberta. Não tinha fecho. Mas o tecido de nylon da porta estava caído sobre a entrada. Aproximei-me. Estiquei a mão e levantei-o. Olhei lá para dentro. Senti o odor azedo que saía de lá. Vi um corpo deitado, enrolado em folhas de papel de jornal. Vi uma mancha a meio. Uma mancha que saía debaixo do corpo. Uma mancha escura. Ao sentir-me, o corpo mexeu-se. Vi uns olhos escondidos em buracos profundos olharem para mim sem grande interesse. Era uma mulher. Talvez uma rapariga. Era difícil de dizer a idade. A cara estava suja. Cheia de rugas. O corpo estava escondido debaixo das folhas de jornal. E perguntei-me Como é que alguém pode viver assim?
Os meus olhos cruzaram-se, num dado momento, com aqueles olhos mortos. Aquela mulher estava morta. Não morta de corpo frio e sem respirar. Morta no coração. Morta na alma. Morta nas esperanças de vida que qualquer pessoa devia poder ter. Aqueles olhos não tinham esperança. Não tinham vida. Aqueles olhos eram os olhos de alguém que a vida já matou.
Como é que chegámos aqui? Como é que podemos lutar pela vida, combater o aborto, proibir a eutanásia, prevenir o suicídio, se depois não damos condições de vida digna a estas pessoas? É muito simples cuspir É a economia! e depois? O que é que dizemos a estas pessoas? O que é que dizemos a nós próprios quando nos vamos deitar numa cama quentinha de lençóis esticados e sem vincos e um edredão confortável?
Não me apetecia estar ali. Gostava que o caso tivesse sido atribuído a outra pessoa. Convivo mal com esta miséria. A vida torna-se triste. A minha vida torna-se triste. Choro. Não consigo superar a dor que me consome.
Antes de vir, antes de me ser atribuído este caso, ao olhar as redes sociais, li coisas horríveis sobre esta mulher. Não esta mulher que está aqui à minha frente, mas esta mulher que fez o que fez. As pessoas são cruéis. As pessoas são más. As pessoas são carrascos sempre prontas a baixar o machado da degola.
Respirei fundo.
O olhar morto deixou o meu, perdeu o interesse que nunca teve, e o corpo voltou a ficar quieto debaixo das folhas de jornal. E então eu disse Encontrámos a sua criança no caixote do lixo. Preciso que venha comigo. E custou-me ouvir dizer o que disse.
Silêncio. Depois ouvi um pequeno choro. A mulher chorava baixinho. Quase em silêncio. E eu sabia que não era por ela, por ter sido encontrada, a criminosa. Era pela criança. Por ter sido salva. No fundo era o que ela queria. Mas não sabia como havia de fazer. Onde é que nós falhámos? Nós todos?
O corpo começou a levantar-se. As folhas de jornal caíram para os lados. Vi que a mancha era uma mancha de sangue. Uma mancha de sangue que a mulher, que acho que era uma rapariga, talvez uma miúda, uma criança com certeza, estava também com uma mancha de sangue na calças de fato de treino que envergava. Ela ergueu-se com os braços juntos e os pulsos oferecidos a mim. Oferecia-se às algemas. Eu levantei-me e afastei-me para trás. Dei-lhe espaço para sair da pequena tenda.
Ela saiu. Senti o cheiro que saiu com ela. Um cheiro a podre. Um cheiro a morte. Vi duas cabeças à entrada de duas tendas vizinhas. A dar fé do que estava a acontecer.
Senti vontade de vomitar. Mas aguentei.
Quando ela se ergueu, na rua, fora da tenda, vi-a. Pela primeira vez vi-lhe a cara. A cara de uma criança. E saiu-me O que é que nós te fizemos?

[escrito directamente no facebook em 2019/11/08]

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