A Feira de Maio e o Futuro Tecnológico

Há uns anos fui ver um filme pornográfico ao Animatógrafo do Rossio. A alegria espontânea de quem se divertia com as façanhas sexuais alheias que via expostas no ecrã só era comparável à inveja com que se ouvia ranger a porta da casa-de-banho, a abrir e fechar, de cada vez que alguém, já excitado com a estória projectada no ecrã cumpria a sua função de aliviar o desejo acumulado. Havia também quem não precisasse. Havia também quem não conseguisse. Havia/Há sempre gente para tudo. É como na farmácia, dizia-se. É como nas feiras, diz-se.
Cá por Leiria também temos uma feira. Chama-se Feira de Maio e, para algumas pessoas, também é uma montra onde alguns tentam vender e outros tentam comprar o que querem, gostam e precisam. O presidente da câmara, ou algum representante seu (se calhar algum vereador) também abre a feira e profere algumas palavras de circunstância. Não consta que alguma vez tenha tido de pedir desculpas. Aliás, desculpa não é algo que abunde nas edilidades.
Não nego o valor e a importância de uma montra/feira como a Web Summit. Mas gostava de conhecer o real valor desta feira para o país e para os núcleos portugueses que se dedicam à tecnologia. O que é que sobra deste evento? O que é que fica cá? O que é que a própria feira motiva no país durante o resto do ano que medeia duas feiras?
A notícia mais falada foi a venda da camisola igual à do promotor a 700€ a unidade. E que esgotou.
Neste país o Salário Mínimo, que é auferido por 1/4 da população activa, fica à distância de 100€ dessa camisola. Obviamente, a questão não está no valor da camisola.
Poderiam pensar, os tantos empreendedores deste país, que maiores salários talvez equivalesse a um maior consumo. Quantas mais camisolas poderiam então ter sido vendidas? Parece-me que o capitalismo tem uma ideia muito limitada de produtividade e de lucro. Talvez essa ambição do capitalismo, o crescimento infinito, pudesse passar a ser um objectivo menos utópico. Mais pessoas com mais dinheiro nos bolsos dá um maior consumo. (o que fazer depois a todo o lixo aumentado é uma história para outra análise) Mas a verdade é que uma grande parte do patronato é um miserável ganancioso capaz de matar a galinha dos ovos de ouro. Não é por acaso que tem de haver um Salário Mínimo que sirva de base aos salários praticados no país porque uma grande parte do patronato continua a querer pagar o mínimo que puder para poder capitalizar o máximo. Claro que há desvios. Claro que há patrões que pagam acima do Mínimo e até do Médio. Seja porque podem, seja porque dão, à força de trabalho, um outro valor, mais próximo do real.
Mas é de reparar: se o Salário Mínimo se aproxima do Salário Médio, o que é que diz deste país em termos salariais?
Já há professores a desistir de colocações em escolas onde não podem pagar uma renda de casa. Há queixas da indústria hoteleira, principalmente em zonas como o Algarve, por não conseguirem trabalhadores. Porque é impossível pagar casa, e todas as despesas inerentes, com os salários oferecidos. Mas o estúpido é o trabalhador que não quer trabalhar!
Regresso à Web Summit. Parece que a grande ambição do capitalista é conseguir não precisar de trabalhadores e automatizar tudo. Esquece-se, o capitalista, que quando não houver trabalhadores e, portanto, não houver salários, também não haverá consumidores. E sem consumidores não haverá capitalismo.
Não me interpretem mal. Eu sou a favor do capitalismo. Acho, no entanto, que o Estado tem de ser um regulador interventivo. Porque o Homem é ganancioso. Faz parte dele. De nós. Não de todos. Mas de alguns. E na maior parte dos casos, o capitalista, não pensa no amanhã nem nas consequências dos seus actos hoje.
Claro que, economistas encartados poderão vir justificar determinados comportamentos devido a… e a… e que eu não sei que… por causa de… e o investimento… e o custo da produtividade é…
Mas nessas justificações falta sempre a variável da dignidade humana. Um homem devia poder viver em dignidade. Ter um tecto para se abrigar. Comida para saciar a sua fome. Cultura para apaziguar os seus fantasmas.
Afinal, quando morremos, e esse é, para já, o nosso destino, vamos todos da mesma maneira. Sem nada. Parece que nem as memórias nos restam. Já as lembranças que deixamos por cá, podem atormentar, aí sim, aquilo que poderia ser o nosso legado.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/07]

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