Em Berlim com o Tiago Baptista

Um gajo escolhe não ter família. Um gajo escolhe não ter mulher nem filhos nem pais, que já morreram e foram enterrados em sítios que não recordo, não volto lá, nunca voltei lá, mas pago para que limpem as campas todos os meses e coloquem flores frescas em dias festivos, escolho não ter amigos nem amantes, só sexo bruto e furtivo de vez em quando, quando a necessidade grita as suas vontades, e depois tem de levar com as famílias dos outros? Com os filhos mal-educados dos outros, as mulheres histéricas dos outros, os maridos carrancudos das outras?
Tudo começou quando quis sair de casa. Eu já sabia que não devia sair de casa. Sair de casa é sempre um problema. Coloco-me nas mãos dos outros. Em convivência com os outros. Uma chatice. Um problema. Vários problemas. As pessoas carregam problemas para cima dos outros. Para cima de mim.
Estou a chegar ao Festival de Banda-Desenhada da Amadora. Há um tipo que se lança passadeira fora, de auscultadores nos ouvidos, a mexer no telemóvel e nem olha para a estrada. Aquele conselho Olhar para a Esquerda, Olhar para a Direita, está em desuso. O tipo não olhou para lado nenhum. Mas eu vinha a andar na estrada, devagar mas fluído, numa estrada que estava livre e a passadeira não era entrave e tive de travar a fundo para não passar por cima dele. Chamei-lhe Cabrão do caralho! mas ele não me ouviu. Não era para ouvir. Era mais para me libertar da raiva que me subia do estômago à boca e depositava um sabor ácido na língua. Ia a carregar no acelerador, a primeira metida, quando se lança uma moça, com carrinho de bebé, à passadeira, o carrinho à frente para lançar o medo e voltei a travar. O carro foi abaixo. Bati com as mãos no volante. Espumei. Gritei impropérios mas em silêncio. Não saltaram da boca para fora. Ficaram lá. Na cabeça. As pessoas têm a mania. Acham que a passadeira as defende da chapa dos carros em aceleração. Talvez um dia tenham azar.
Estaciono. Entro na exposição. Começo lento. Com calma. A absorver os desenhos. As pranchas originais. Descubro a exposição Berlim – Cidade sem Sombras de Tiago Baptista e fico contente. Gosto muito dos desenhos do Tiago. Gosto muito das pinturas do Tiago mas, as banda-desenhadas, são simplesmente geniais na sua simplicidade aparente de traço simples e estórias banais, mas que refletem a vida dele, a minha, a de todos nós, tomando posições políticas, tendo opinião, mostrando como a vida pode ser espectacular e uma grande merda. Tudo ao mesmo tempo. Yin e Yang. O dia e a noite. O belo e o feio. O frio e o quente. O génio e o burro. A vida é dual. Foda-se! O Tiago é grande. Obrigado pelo que me dás.
E estava eu nesta oração de agradecimento à magia de Tiago Baptista, quando chegaram as famílias. Criancinhas a correr por cima de tudo e de todos. Aos berros em altos decibéis e os papás idiotas, que tudo deixam e permitem, porque as crianças são filhos preferidos de Deus, a sorrirem perante a petulância infantil.
Mais à frente vejo umas crianças mexer nos cenários. Em elementos dos cenários. Perante a passividade dos papás. Benevolentes. Há uma exposição com dinossáurios. Uns ovos gigantes. Ovos de dinossáurios. As criancinhas pegam nos ovos e partem-nos. Olham para os pais. Que sorriem perante as brincadeiras dos rebentos, olham para mim e fazem um sorriso amarelo. Elas são assim, parecem dizer. Que podemos fazer? Eu viro costas e vou-me embora.
As pessoas são mesmo uma merda.
Ainda tento ver mais umas exposições. Mas não consigo. As famílias tiraram o dia para me azucrinar a vida. Estão aos magotes em todo o lado. Gritam. Tiram fotografias. Jogam a apanhada. Às escondidas. Berram. Choram. Comem batatas-fritas. Comem algodão doce. Comem pipocas javardamente. Deixam cair pipocas no chão. Sinto os pés a pisarem as pipocas e a fazer barulho crac-crac. Estou irritado. Não me consigo concentrar. Não consigo apreciar. Não consigo olhar.
Vou-me embora. Regresso a casa.
Em casa pego no livro Berlim do Tiago e viajo. Viajo com ele. Sem que me chateiem. Gosto do Tiago. Tem um traço maravilhoso e conta estórias de uma simplicidade desarmante. E apaixonada. E deixo-me ir com ele.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

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