Há Mais um Cão Cá em Casa

O cão apareceu por aí ao final do dia. Ou melhor, eu só dei por ele ao final dia. Tinha estado a chover durante toda a tarde. Ainda me aventurei pelo alpendre a fumar uns cigarros. Mas refugiei-me em casa. A chuva vinha tocada a vento e entrava pelo alpendre dentro e molhava tudo, a cadeira onde costumo sentar-me, a mesa onde amparo o copo de vinho, os tapetes onde os gatos costumam estar deitados na ronha. Ainda agarrei nos tapetes e levei-os para a cozinha para não se molharem mais.
Não sabia dos gatos. Nem do cão.
Passei a tarde na sala a acabar de ler Bem-Vinda a Casa, as memórias de Lucia Berlin (acho que me apaixonei por esta mulher fora do tempo, e não só pelas suas capacidades de escrita e criatividade, quando a olho na sua fotografia colorida que a Alfaguara publica nas badanas dos livros editados, percebo que era uma mulher lindíssima, muito bonita, de um olhar mágico e sedutor que o cigarro pendurado entre os dedos da mão esquerda ajuda a compor e a arrasta para dentro dos meus sonhos acordado) e esqueci-me que havia vida lá fora.
O luz do dia começou a cair. Ainda não era tarde mas a noite principiava a cair. A chuva continuava no seu embalo. Não chovia muito, mas era constante. Então lembrei-me dos gatos e do cão. Lembrei-me que precisava de lhes dar comida. Que tinha passado o dia todo sem lhes dar comida.
Saí para o alpendre e despejei ração para todos eles. Mas não aparecia ninguém, o que não era normal. O normal é os gatos e o cão virem logo, a correr, comer. Às vezes até arranham a porta para me lembrarem Então pá! Onde é que está a nossa paparoca? Normalmente o cão aspira tudo de uma vez, sôfrego. Os gatos comem às mijinhas. Vão lá várias vezes. Pequenas doses de cada vez. A guardar sempre para mais tarde. Mas não sabia deles.
Saí para a chuva. Dei uma volta pelo quintal. Vi que as laranjeiras estavam carregadas de laranjas. Apeteceu-me um sumo natural e fresco. Pensei em apanhar algumas. Mas lembrei-me que andava à procura do cão e dos gatos, que estava a chover, eu estava sem casaco e sem chapéu-de-chuva, nem sequer um cesto para apanhar as laranjas e decidi que ficava para o dia seguinte de manhã, de manhãzinha, para ainda conseguir espremer umas laranjas para o pequeno-almoço.
Dei a volta à casa e fui às traseiras. Vi os gatos empoleirados onde quer que fosse que estivessem no alto. Todos a olharem para o mesmo sítio. O cão estava mais à frente, em pose de guarda. Estático. Muito direito. Quase sem pestanejar. Ao fundo, junto à parede de fundo do telheiro, um cão, um outro cão, um cão pequeno, não percebi a raça, encolhido, acossado, tentava passar despercebido mas a sentir que era o centro das atenções.
Era um cão de caça. Daqueles cães pequeninos, mas muito afoitos. Devia ter sido abandonado por algum caçador. Raios os partam. Já tinha ouvido histórias destes cães abandonados pelos caçadores. Cães que já estão velhos. Cães que não são tão bons para perseguir as presas como os seus donos desejam. Ou simplesmente cães que já não são precisos e fica caro alimentar toda aquela canzoada. Esses cães abandonados costumam juntar-se e formar matilhas selvagens que sobrevivem matando as galinhas das redondezas.
O coitado do cão estava muito assustado. Estava magro. O pêlo, molhado, fazia-o parecer-se com um rato de esgoto. Por onde é que o cabrão do cão teria entrado?
Tive pena dele. Tenho sempre pena dos animais. Mais que das pessoas. Sim, eu sei, é estúpido. Mas os animais tocam-me mesmo cá dentro, no fundo do coração. Sou um emotivo.
Agarrei no cão que estava em pose. Fiz-lhe umas festas. Acalmei-o. Falei-lhe ao ouvido. Palavras meigas e suaves. Depois chamei-o para que viesse comigo. E ele veio. Os gatos ficaram lá a olhar para o cão.
Fui buscar uma tigela com ração. Pus a tigela ao pé do cãozinho, com o outro a olhar e eu a falar para os dois. O cãozinho olhava assustado para nós todos.
Entretanto parara de chover. Já era quase noite. Chamei o cão e os gatos para virem comer e deixei lá a comida para o outro.
Já estava há algum tempo no alpendre, com os gatos e o cão a comerem, eu a fumar um cigarro encostado ao pequeno muro, quando vi aparecer o cãozinho perdido. O cão olhou para ele, mas continuou a comer. Os gatos ignoraram-no. O cãozinhoo olhou para nós lá de baixo, deitou-se no chão do quintal e ficou a olhar para o alpendre.
Deitei fora o cigarro. E pensei que tinha mais um cão lá em casa. Ia ser um processo de aprendizagem com os outros todos. Vai ser aos poucos. E disse para mim próprio Eu não ganho é para os alimentar. E entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/30]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Chorar com Facilidade

Agora desato a chorar por tudo e por nada. Acho que nem preciso de motivo para começar a chorar.
Estava a ver um episódio da série This Is Us, mas sem grande convicção, tinha lá parado no decurso do zapping e, cinco minutos depois, comecei a chorar, solidário com as dores de uma das personagens. Pior que isso, achei que era eu que estava em causa. Que as dores eram minhas. Que aquela história encaixava verdadeiramente na minha história. Que era um eco da minha vida. Que aquela história era a minha história. Bolas. E era mesmo assim. Triste. Emotiva. Dolorosa. E comecei a chorar. Mas a chorar compulsivamente.
Peguei, ao acaso, nos Poemas Quotidianos do António Reis, estiquei o braço para a estante e foi o livro que veio preso nos dedos, abri à sorte e li

Sei que choras
muitas vezes
sozinha

e que lavas
o rosto

(ah onde
ando eu)

para a tua dor
não ser minha

e rompi a chorar. O livro nas mãos. As páginas molhadas das lágrimas. O papel a enfolar. A dor. A dor é minha. Abro a boca. Em silêncio. Mas choro. Choro muito.
Aconteceu-me também ao ver as notícias na televisão. O pivot contava que a Argentina tinha recusado a última tranche da ajuda financeira do FMI ao país por causa dos enormes encargos que acarretava e comecei a chorar. A pensar que ainda havia gente como eu. Gente que pensava como eu. Que achava que havia sempre mais alternativa que a alternativa que diziam ser única.
Também com a morte de José Mário Branco, acontecido nestes últimos dias, chorei. Mas não foi a morte dele que me fez chorar. Foi o ouvir, pela enésima vez, a catarse que é o FMI. Estava sentado no sofá e senti-me desfazer. Deixei de ser eu, de ter corpo e misturei-me ao sofá. Eu era uma massa amorfa e disforme que se tinha moldado ao mais banal dos elementos: o sofá de sala onde se assiste aos filmes de Domingo à tarde; onde se passa pelas brasas debaixo de uma mantinha quente e aconchegante; e, afinal, onde estava sentado, sozinho, enquanto ouvia o FMI na voz dolorosamente bela de José Mário Branco.
Acendi um cigarro e, enquanto fumava, enquanto via o fumo subir ao tecto da sala, comecei, outra vez a chorar. Por nada. Comecei a chorar. Acabei por molhar o cigarro. Apagou-se. Entristeceu-me ainda mais. E acendi outro.
Mas cada vez que choro sinto um enorme alívio e pareço renascer.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/27]

Dias Loucos, os de Chuva

Em dias como este, entrávamos no carro e íamos andar à doida para a Estrada Nacional.
Mesmo com duas auto-estradas, uma de cada lado da cidade, a A8 mais junto ao litoral, a A1 mais pelo interior, mas as duas muito próximas de Leiria, os grandes camiões TIR continuavam a circular pela EN1 para pouparem nas portagens, extremamente caras.
Então, em dias assim como o de hoje, dias de muita chuva, pegávamos no carro e íamos para a EN1 acelerar entre os grandes camiões que por ali passavam sempre com muita pressa. Ultrapassávamos os camiões no limite. Prego a fundo. O pé quase a furar o chassis.
E riamos. Riamos os dois que nem perdidos.
Dávamos um beijo à porta de casa, com as montanhas a servir de fundo, eu tirava o carro debaixo do telheiro onde estava resguardado, conduzia com cuidado enquanto ela fazia um charro e, antes de chegarmos ao IC2, que se fundia na EN1, já o tínhamos fumado e já eu estava a fumar um cigarro.
Os vidros do carro fechados por causa da chuva e o fumo a acumular-se no interior, criando uma nuvem tão espessa e escura que, por vezes, nos impedia de ver o que se passava à nossa volta na estrada.
Foram tempos loucos esses. Bebíamos muito. Fumávamos muito. Fodíamos muito. Sempre nos limites. Às vezes ela levava a PC4 e gravava as nossas aventuras na estrada. Quando estávamos mais calmos, de ressaca por casa, a arrastar o cu pelos sofás, víamos as gravações e eu perguntava-me o que é que andávamos a fazer. Ela ria. Acabávamos os dois a rir. Voltávamos à estrada. À EN1. Passávamos junto às raparigas sentadas, em cadeiras de praia, de pernas abertas e olhar alheado, à beira da estrada. Acelerávamos na estrada que passava pela Benedita, pela Venda das Raparigas e seguia para Rio Maior ou para Aveiras. Sempre que víamos um traço descontinuo, lá íamos nós à aventura, a ultrapassar enormes camiões, alguns com dois eixos, a espremer o motor, a rezar para que não surgisse outro carro, e muito menos outro camião, na faixa contrária.
Uma vez, ia de camioneta para Lisboa, e nessa época as camionetas faziam também aquela estrada porque a auto-estrada só começava em Aveiras, vi um carro, um carro pequenino, um Renault 5 GTI, cravejado com tubos de cimento que deviam ter saído disparados de algum camião e entraram, como flechas, pelo pára-brisas do pequeno Renault. Lembro-me de ver, através da janela da camioneta, um corpo tombado no asfalto. Um corpo desfigurado. Um corpo em sangue. Inerte.
Várias foram as vezes em que me lembrei desse corpo enquanto me punha a ultrapassar os camiões debaixo de fortes quedas de água, com ela ao meu lado a gritar Vai! Vai! Vai! Vai, meu caralho! e eu ia. Prego a fundo. Cheio de adrenalina. A ultrapassar camiões na EN1, uma estrada cheia de buracos e bermas baixas, e eu de cigarro ao canto da boca com o fumo a entrar-me pelos olhos e a fazer-me chorar.
Um dia, foi o último dia, saímos de casa assim, debaixo de uma chuvada como a de hoje. Demos um beijo sem as montanhas como pano de fundo que o nevoeiro não as deixava ver. Ela fez um charro enquanto eu chegava à EN1. E entrámos. E disparámos por ali fora. Como loucos.
Só eu é que voltei.
Arrisquei passar um camião TIR que estava a respingar água para os lados e, quando ia a meio da ultrapassagem, deixei de ver a estrada com toda aquela água a tombar-me no pára-brisas e ela, ela tinha-se agarrado a mim, estava a dar-me um beijo no pescoço, em êxtase, o corpo sobre o travão de mão, e eu guinei um pouco o volante, aproximei-me demasiado do camião, levei um toque que me projectou para o outro lado da estrada, bati nos rails de protecção laterais, o carro virou-se, capotou e andou a derrapar pela faixa de rodagem até ser atingido por um outro camião, que vinha em sentido contrário. Eu tive sorte e fui cuspido do carro. Ele ficou entalada na chapa e, segundo os peritos, deve ter tido morte instantânea. O funeral dela foi de caixão fechado, tal o estado do corpo. Eu não fui ao funeral. Estive hospitalizado durante alguns meses. Alguns meses para voltar a andar.
Nunca a visitei no cemitério. Não ouso.
Voltei a conduzir, dois anos após o acidente. Agora já conduzo sozinho. Mantenho-me dentro dos limites de velocidade. Opto, sempre que possível, por andar em auto-estradas. Não tenho medo de conduzir mas, vou sempre muito atento.
Às vezes, quando chove assim, como está a chover hoje, penso nela. Penso nela e nas loucuras que vivemos. Penso em como a matei. Eu sei que não devo pensar assim. A minha psicóloga está sempre a dizer-me isso. Que a culpa não tinha sido minha. Eu digo que sim com a cabeça, aceno, para cima e para baixo, mecânico, às vezes até me ouço dizer sonoramente Sim, mas é só para a sossegar.
Eu sei que a culpa foi minha. É uma dívida que, um dia, vou ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/26]

Depois

Depois do divórcio, depois de ter saído de casa e porque estava desempregado (o divórcio tinha sido também uma consequência do ter sido despedido), passei um período bastante complicado.
Durante alguns dias andei a dormir na rua. Não custou muito, era Verão. Depois consegui trabalho por uns tempos no McDonalds e arrendei um quarto. Um quarto numas águas-furtadas que não tinha janela, tinha uma clarabóia por onde eu podia enfiar a cabeça e ver os telhados das casas adjacentes. Estas águas-furtadas tinha vários quartos, e estavam todos alugados a homens. A senhoria, que vivia no apartamento por baixo, deixava-nos alguma privacidade, mas não nos deixava levar para lá mulheres. Era a única objecção. Não queria lá mulheres, fossem elas as nossas mães ou irmãs, companhias ou meras amigas. Não há amizade entre homens e mulheres, dizia, só interesse.
Havia uma pequena cozinha que podíamos utilizar e que ninguém utilizava. Normalmente quase toda a gente comia frango assado e pizza ou ia à carrinha da Igreja Evangélica que passava uma vez por semana na avenida lá perto de casa.
Também havia uma casa-de-banho que tinha de servir para toda a gente e que, de manhã, em certos dias, eu utilizava ainda de noite para evitar o congestionamento matinal. Toda a gente queria a casa-de-banho à mesma hora. Eu evitava isso.
Cheguei a dever dois e três meses de renda do quarto, mas a senhoria era compreensiva. Sabia que, mais dia menos dia haveríamos de encontrar trabalho e aí regularizávamos as contas. E eu assim fazia. Quando tinha trabalho, regularizava as contas da casa. Mesmo que me obrigasse a passar fome. Mas precisava de um quarto. O Inverno na rua devia ser terrível e não queria passar pela prova. Já me chegara aqueles dias iniciais, no Verão, quando a minha mulher, a minha ex-mulher, me pediu para sair de casa, da vida dela, da vida de toda a gente que conhecíamos que os amigos eram dos dois e passaram a ser só dela. E eu saí.
Depois do McDonalds passei por vários outros sítios. Sítios assim, de salário curto. Já fui jardineiro. Andei a varrer as ruas da cidade. Também andei nos camiões de recolha do lixo, mas não aguentei por muito tempo aquele cheiro. Não sou um tipo esquisito, mas aquele cheiro deixava-me com umas terríveis dores-de-cabeça que me levaram várias vezes ao médico de família no Centro de Saúde. Também andei ao dia, a dar serventia a pedreiros, mas não aguentei. A minha bronquite limitava-me os esforços físicos. Ao fim de uma semana desisti.
No McDonalds tive sempre como colegas miúdos do Politécnico. Alguns também do Secundário. Fui uma espécie de pai deles todos. No fim do dia eles iam para as suas casas aquecidas, ter com os pais, com os namorados, para casas partilhadas, e eu regressava ao meu quarto, abria a clarabóia e fumava um cigarro com a cabeça de fora. Por vezes eles olhavam para mim e tinham medo de se verem a eles próprios. Eu era licenciado. Pré-Bolonha. Cinco anos de Licenciatura. E estava ali, com eles.
Após alguns trabalhos temporários, quase sempre para poder comer e pagar o quarto, estou, finalmente, há cerca de seis meses, no mesmo trabalho, numa quinta de eventos onde me dedico à limpeza das pequenas casas para alugar, uma espécie de bangalós. Faço as limpezas maiores. Aspiro. Lavo. Limpo o pó. Uma miúda passa depois de mim e faz as camas de lavado, muda as toalhas, enche a fruteira, uma garrafa de água no pequeno frigorífico e deixa tudo preparado para receber os hóspedes seguintes. Também faço pequenos arranjos. Um parafuso solto. Um vaso tombado que se partiu. Um estrado que se quebrou.
Como sou a primeira pessoa a passar pelas casas depois da partida dos hóspedes, para recolher a roupa suja e a levar à lavandaria, também deparo com alguns restos que ficam nas casas. Alguns esquecidos. Outros perdidos. Outros ainda simplesmente para serem deitados fora. Se bem que a quinta tenha regras bem definidas para tudo o que seja encontrado nas casas, tudo é guardado numa espécie de Perdidos & Achados durante um ano, ao fim do qual as peças são distribuídas pelos empregados, se as quiserem, senão, são oferecidos a centros de dia da zona, eu costumo ficar com as comidas e bebidas. Primeiro eram os chocolates e os pacotes de batatas fritas ainda por encetar. Mas depressa comecei a guardar as garrafas de vinho, mesmo que só tivesse um pequeno resto. Os restos de comida. Se no início eram só as coisas que me parecessem intactas, agora já levava tudo. Restos de hambúrgueres. De frango assado. Fatias de pizza. Queijos. Alguns com bolor mas que bastava raspar e ficavam bons. Rodelas de enchidos perdidas no pequeno frigorífico. Garrafas de cerveja. Normalmente minis. Aprendi a aproveitar tudo. A dar valor a coisas insignificantes. A nunca desperdiçar nada.
A minha vida nunca mais se endireitou, no sentido de retomar um trajecto que já tive e que parecia levar-me para algum lado. Que não levou. Mas nestes últimos tempos pareço ter ganho algumas raízes aqui onde já estou há seis meses. Ganho o salário mínimo, o que não me dá para economizar ou sonhar com o futuro nem ter grandes ideias sobre o que hei-de fazer à minha vida. Mas vou tendo que comer. Deito-me numa cama quente e seca. Consigo tomar banho de água quente todos os dias. Lavo o cabelo duas vezes por semana. Sinto falta de uma mulher. Não uma mulher para ir para a cama. Às vezes vou ali ao Marachão e dou dez euros a uma rapariga. Mas uma mulher com quem partilhar o dia-a-dia. Com quem falar. Perguntar Como foi o teu dia? Alguém a quem me queixar das dores-de-cabeça. Alguém que se preocupasse comigo, alguém que me perguntasse Queres uma canja de galinha? Um Brufen? Um Antigripine? Mas não tenho vida suficiente para ter vida nela. Só consigo ganhar o suficiente para a minha solidão. E assim vou seguindo em frente. A ver até onde consigo chegar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/25]

O Conformista

Levanto-me tarde. Levanto-me tarde porque não tenho porque me levantar cedo. E levanto-me tarde porque já não conseguia mais estar na cama. Se não, continuava em directa até amanhã de manhã, hora de me levantar, aí sim, para cumprir prazos, obrigações e promessas. Hoje não. Hoje levanto-me porque estou farto de estar deitado.
Visto qualquer coisa que está ali à mão. Ali, caído sobre a pequena poltrona que tenho no quarto e onde nunca me sentei. Umas calças de fato-de-treino, umas meias, um t-shirt. Vou até à cozinha. Fico ali em pé, no meio da cozinha, a tentar perceber o que é que fui ali fazer. Sinto-me um pouco perdido no dia e na casa. Parte de mim continuou na cama. Não sei que dia é. Coço a cabeça. Penso que tenho de voltar a comprar champô para a caspa. Talvez Linic. Como o Ronaldo. O CR7. Coço o rabo e percebo que estou sem cuecas.
Chego-me à janela. A luz está baixa. Mas não deve ser muito tarde. Ligo a televisão da cozinha. Jorge Jesus e a equipa do Flamengo está em todo o lado. Em todos os canais. Até parece que é o Benfica. Que me importa a mim o Flamengo? O Jorge Jesus, fico contente por ele. Acho que ele nunca ficou contente por mim. Eu também nunca fiz nada merecedor de tal honraria. A minha vida é miserável. Não tenho história. Onde está a minha Taça dos Libertadores?
Faço café. Vejo que passa um pouco das duas da tarde. Costumo ver o Leste Oeste, com o Nuno Rogeiro, a esta hora na SIC Notícias. Já percebi que não vou ver. O futebol é poderoso. Come tudo o resto. Já vi o Pedro Santana Lopes a abandonar um estúdio de televisão, por ter uma entrevista interrompida, por causa da chegada de José Mourinho ao aeroporto. Na altura achei que o Santana Lopes tinha razão. Continuo a achar. O futebol mexe com muito dinheiro e é importante. Sim, é certo. Mas é só futebol. É só a porra do futebol. Nada mais que isso. Um jogo. E quanto mais penso nisso mais entendo que a televisão, os programas de televisão, as ideias transmitidas pela televisão, os programas que os programadores decidem que é o que o povo quer ver na televisão, é a grande responsável pelo nivelamento, por baixo, da exigência social e política do país. Dos países.
Enquanto espero pelo café olho para a rua. A luz baixa e cinzenta deprime-me. Vejo a cidade deprimida. A cidade está vazia. Não há ninguém na rua. As pessoas devem estar por casa. Solitárias nas suas casas. Cada um agarrado ao seu computador, ao seu tablet, ao seu smartphone. Filhos e pais de costas voltadas. Amantes desencontrados. Gente sozinha, mesmo que na companhia de corpos presentes, mas tão distantes quanto o alcance da rede.
Acendo um cigarro. Eu preciso sempre de um cigarro. Algumas amigas chateiam-me com o facto de fumar. Que me faz mal. Que é um erro social. Que é um compromisso que não devia ter. Não lhes ligo. Estou em casa. Estou sozinho em casa. Não incomodo ninguém. É estranho que sejam só raparigas a chatearem-me por causa do tabaco. Talvez porque gostem mais de mim. Talvez porque sejam mais controladoras.
Encho uma caneca com café. Sento-me na mesa da cozinha. Vou olhando para a loucura instalada no Rio de Janeiro enquanto se aguarda a volta de honra dos vencedores pela cidade. Tanta gente nas ruas. Tanta gente a aplaudir. Tanta gente a partilhar a glória da vitória. E pergunto-me onde estava esta gente quando Jair Bolsonaro ganhou as eleições deste país-continente? Um presidente que glorifica a ditadura e a tortura da ditadura.
Desligo a televisão. Acabo de beber o café. Vou à sala procurar um livro para ler. Apetece-me ler. Cai-me nas mãos O Conformista do Alberto Moravia. Nem de propósito. É o que somos. O que queremos ser. E por momentos penso que, afinal, Alberto Moravia escrevia sobre o futuro e não sobre o presente. Andamos ainda, e sempre, a aprender.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/24]