O Meu Pai Nunca Teve Qualquer Relação com a Arte

O meu pai nunca teve qualquer relação com a arte. A vida dos meus pais, um como o outro, neste sentido, foi bem diferente da minha. A forma de arte da qual o meu pai esteve alguma vez mais perto foi através de uma finta do Eusébio e do Victor Baptista ou de uma defesa do Costa Pereira e do Bento. Vagamente num fado da Amália e, sobretudo, numa qualquer canção romântica do Tony de Matos. Sim, pelo que a minha mãe me contava, o meu pai era um romântico. À luz da época dele. Deles. Do meu pai e da minha mãe. O meu pai gostava de dançar. E acho que gostava de dançar as músicas do Tony de Matos. Sempre que ouço O Destino Marca a Hora lembro-me do meu pai. Do meu pai com a minha mãe. Em dupla. Pelo que a minha mãe me contava.
Também ela nunca teve nenhuma relação próxima com a arte. A minha mãe era uma excelente cozinheira. Não uma chef. Não. Uma cozinheira. Uma cozinheira daquelas que se fala quando falamos, com saudade, da comida da mãe ou da avô. Comidas que muitos de nós tentamos reencontrar nas mulheres que vamos tendo ao longo da vida. E alguns de nós, como eu, acabamos por sermos os próprios, na impossibilidade de reencontrar as mães na cozinha, os recriadores das comidas de casa. Não me dou mal entre os tachos, as frigideiras e o forno. Mas não sou como a minha mãe. A minha mãe sabia fazer os pratos clássicos que as mães e as avós sabiam fazer e, às vezes, punha-se a inventar com o que tinha em casa e descobria-nos maravilhas de agradar ao palato. Nunca houve um livro em casa dos meus pais. Nunca houve um livro até eu começar a comprá-los. Nem a minha mãe tinha um qualquer livro de cozinha. Nem assentava nada do que inventava. Tinha tudo na cabeça. E as medidas eram à medida da mão, primeiro, e do gosto, depois.
Mesmo não tendo nenhuma relação com a arte, mesmo não havendo nenhum livro lá em casa, os meus pais sempre me incentivaram a ler e a gostar de arte. A ter predisposição para isso, pelo menos. Os primeiros livros que entraram em casa foram os que eu comprei. Os que eu comprei com o dinheiro que eles me davam para os poder comprar.
Lembro-me de ver jornais, especialmente A Bola, a Crónica Feminina, a Simplesmente Maria e as Selecções do Reader’s Digest lá por casa. Perdidos em gavetas. Largados em cima do sofá. Mas nada de muito importante. Uns números avulsos. Soltos. E espalhados pela casa, ao acaso.
Até que comecei a comprar as primeiras bandas-desenhadas. Os primeiros livros da Enid Blyton. O que originou a existência de uma primeira estante para os livros mandada fazer de propósito, para o meu quarto, pelo meu pai.
Mas mesmo não tendo qualquer relação com a arte, por vezes o meu pai surpreendia-me ao extravasar os pedidos que normalmente lhe fazia para o natal e para o aniversário. Livros.
Uma vez surgiu em casa com a adaptação para banda-desenhada de o Tubarão, o filme de Steven Spielberg que andava, na altura, a assustar toda a gente em todo o mundo. Em minha casa não foi excepção. E foi uma surpresa vê-lo chegar com uma banda-desenhada. Para mim. E sem ter de a pedir.
Outra vez, e não sei como, deve ter ouvido na rádio, visto na televisão, ouvido nalguma conversa entre gente amiga, conhecidos, não sei, apareceu em casa com o disco Anjo da Guarda de António Variações. Foi o primeiro disco que comprou. Não era para mim, embora eu o julgasse, erradamente. Era um disco para a casa. Porque, tanto ele como a minha mãe o queriam ouvir. Ouvir na aparelhagem que havia lá em casa e que o meu pai tinha comprado para mim. Pelo menos era o que eu julgava. Era eu que lhe dava uso, não? Era eu que comprava os discos. Os discos todos. Era eu que ouvia as músicas. As músicas dos discos que comprava. Em altos berros. Até tinha levado a aparelhagem para o meu quarto. O meu quarto era o meu mundo. Nesse dia, a aparelhagem voltou para a sala onde tinha estado originalmente. E ficou lá por algum tempo.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve a arte de bem me surpreender. Quando ia a Lisboa, e antigamente ir a Lisboa não é o mesmo que hoje, em que demoramos menos de uma hora a fazer estes poucos mais de cem quilómetros que nos separam, na época ir a Lisboa era uma aventura, toda uma viagem de horas, em carros mais fracos, menos confortáveis, cansativos, aparecia por casa com Pastéis de Belém, Queijadas de Sintra, frango frito de um restaurante da baixa, que já procurei e nunca encontrei, provavelmente fechou, restos de uma época morta e enterrada nas fundações desta modernidade que nos veio tornar iguais a toda a gente de todo o lado.
A minha mãe era uma grande cozinheira. Recordo com muita saudade alguns pratos de uma simplicidade desarmante que ainda hoje me fazem água na boca, coisas tão estúpidas como arroz branco, quase em calda, não é malandrinho, é mesmo quase-calda, a acompanhar uns bifes de vaca panados, mas bem panados, bem fritos, coisa que nunca consegui encontrar fora de casa, mesmo quando ia às cinco da manhã comer uma sandes de panado à Sopa da Puta, o panado não era o mesmo nem tão bom, e hoje, então, nuns panados de porco, de peru, de frango, umas coisas desenxabidas, nunca há ecos dos panados da minha mãe, nem dos seus rissóis de peixe ou da mão-de-vaca com grão, que hoje parece asséptico nos restaurantes onde ainda se aventuram. Ela também fazia frango frito. Hoje já ninguém faz frango frito. Comem no KFC uma imitação americana. Mas mesmo o frango frito da minha mãe, cheio de limão e piri-piri, sendo tão bom, não era tão bom como o que o meu pai trazia naqueles dias em que chegava das suas idas a Lisboa e os trazia em pequenas caixas de cartão todas besuntadas de gordura dos fritos.
O meu pai nunca teve nenhuma relação com a arte. Mas sempre teve arte de me criar memórias vivas. Como arte.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/31]

Croquetes

De vez em quando há um estagiário mais afoito que vai ao fundo do baú recuperar listas perdidas com nomes improváveis. Nomes de gente que já morreu. Nomes de gente proscrita. Nomes de gente banida e esquecida. São os restos. Os que já não contam.
Hoje de manhã tocou o telemóvel. Era um convite. Um convite para uma apresentação ou inauguração ou qualquer coisa assim do género. Que não percebi bem. Que, por defeito, não me interessa. Faço parte dos esquecidos. Mas que acabou por interessar. Ponderei. Pensei que talvez houvesse croquetes. Talvez houvesse vinho tinto. Branco. Espumante. Cajus. Amendoins. Sabem o preço dos frutos secos? Aceitei.
Desliguei o telemóvel e olhei-me reflectido no vidro da janela da sala. A barba grande e compacta. O cabelo desgrenhado. Cheirei os sovacos. E pensei que tinha de tomar um banho.
Primeiro fiz a barba. Cortei a maior parte com uma tesoura. Depois usei a máquina para que não ficasse completamente rapada. Não queria não me reconhecer. Só queria parecer limpo. Apresentável. Social.
Depois tomei um duche de água quente. E deixei-me lá estar em baixo durante algum tempo. A marinar debaixo da água quente. Fervente.
Cortei as unhas dos pés. Cortei as unhas das mãos. Fiquei estafado. Preparei um gin tónico para descansar. Fumei um cigarro à janela. Bebi o gin. Na janela do prédio em frente, uma mulher sacudia tapetes e começou a rir a olhar para mim. Mandou-me um beijo à distância. Percebi que estava nu. À janela. A fumar e a beber. Nu. Sem frio. Para gozo alheio.
Vesti-me. Andei ali às voltas entre uma camisa, um polo, uma t-shirt. Umas calças de ganga azul ou pretas. Sapatilhas, sapatos ou botas? Sapatilhas, claro. E que sapatilhas? Ora, gaita!
Fui preparar outro gin tónico enquanto pensava nas sapatilhas. Pinguei o polo com pingos do limão. Merda! Acabei de beber o gin tónico de novo à janela. A fumar mais um cigarro. Já não estava nu. A mulher dos tapetes também não estava lá.
Depois tirei o polo e vesti uma camisa. Pensei melhor. Ainda era cedo. Tirei a camisa e voltei a vestir o polo sujo até sair de casa.
Voltei à janela. Fumei outro cigarro. Sentia-me nervoso. O sair de casa. O ir para o meio de gente. De muita gente. O ter de falar com pessoas. Estava nervoso com o que lá vinha.
Fui preparar outro gin. Apaguei o cigarro. Bebi o gin enquanto punha roupa suja dentro da máquina de lavar. Lembrei-me do polo. Tirei-o. Pu-lo na máquina. Programa de sessenta minutos. Devia chegar.
Sentei-me à mesa da cozinha com o computador ligado. Procurei as notícias do dia.
Donald Trump a condecorar um cão.
Jair Bolsonaro vociferar como um cão.
No Chile, pessoas a serem tratadas como cães.
Pensei que o mundo estava cão.
Descobri o copo de gin vazio. Olhei em volta. Atrás de mim. Quem o teria bebido?
Preparei outro gin. Olhei as horas no relógio de parede da cozinha. Não percebi imediatamente porque vira as horas. Depois lembrei-me. Tinha onde ir. Mas não consegui perceber se estava a tempo ou atrasado. Acabei de preparar o gin.
Voltei a sentar-me na mesa da cozinha. Frente ao computador. Queria ver as notícias do dia. Mas eram as mesmas em todo o lado e todas diziam o mesmo.
Sentia saudades dos jornais em papel. De outras notícias mais pequenas e só interessantes para mim. Acendi outro cigarro. Gostava de ler notícias em jornais de papel. Gostava de sujar os dedos. Gostava de sentir o cheiro a tinta. De ler aquelas pequenas notícias nas últimas páginas. As locais. Os artigos de opinião. A tira de banda-desenhada. Sentia-me analógico. É verdade que lia todos os dias as notícias online. Mas não era a mesma coisa. Não sentia diferença entre as diferentes origens. Mesmo na televisão, os alinhamentos eram muito parecidos. Havia notícias que só lá chegavam depois de serem mortas pelas redes sociais e, nessa altura, já não eram notícia nem interessavam a ninguém.
Ao puxar o cigarro da boca, ele ficou colado aos lábios. Os dedos escorregaram e queimaram-se na incandescência do cigarro. Depois caiu sobre mim e queimou-me o peito antes de tombar para o chão. Descobri que estava em tronco nu. Percebi que estava a ficar com frio.
Se calhar era tempo de ir embora. Olhei o relógio na parede. Não vi as horas. Esqueci-me de ver as horas. Mas também não me preocupei. Pensei em fazer um último gin antes de sair. Bebi o que tinha de um trago e fui fazer outro.
Enquanto o bebia, vesti a camisa. Vesti um casaco por cima da camisa. Pensei na possibilidade de haver mesmo croquetes lá onde eu ia e para onde tinha sido convidado. Pensei na possibilidade de haver vinho. Pensei que não ia poder fumar lá, onde quer que fosse e acendi um cigarro. Acabei o copo de gin. Larguei-o num sítio qualquer. Pensei na possibilidade de haver mulheres lá onde eu ia. Mulheres como eu. Disponíveis. Ou tão só cheias de vontade. De desejo.
O cigarro caiu-me das mãos. Olhei para baixo à procura dele mas não o encontrei. Levei a mão à boca mas estava vazia. Onde estava o copo de gin?
Abri a porta da rua. Olhei para o corredor que levava ao elevador e pensei Deve estar na hora de me ir embora. E decidi ir-me embora, Vou-me embora! E então o chão moveu-se. Eu tropecei em mim próprio. Desequilibrei-me. Caí. Devo ter caído. Caí entre a entrada de casa e o corredor que levava às portas do elevador. Caí no meio da porta da rua aberta.
Caí e fiquei lá caído. Senti o mundo a andar muito depressa. Como o carrossel da Feira de Maio. Tentei levantar um braço. Tentei agarrar-me a alguma coisa com a mão aberta como uma garra. Mas não agarrei em nada. Os olhos não queriam abrir. Senti um vómito e vomitei à entrada de casa. Não me consegui levantar. Estava tudo escuro. Eu sentia-me bem. Sentia-me confortável. Estava deitado. Apetecia-me um croquete. Sentia-me cansado. Com sono. E deixei-me ir. Sono fora. Senti uma escuridão a ir por mim abaixo e a desligar-me todo. Aos poucos. Até já não sobrar mais nada ligado.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/30]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Sim, Mãe

Faltam quatro dias. Faltam quatro dias para o dia Um de Novembro. O Dia das Bruxas, do Bolinho e de Todos os Santos. Especialmente o Dia de Todos os Santos. O dia em que se veneram os mortos. Os mortos queridos ao lado dos Santos. Não que os mortos sejam Santos. Ou tivessem sido. Que porra de conversa, a minha.
Acordo ainda de noite. É quase de manhã mas ainda é de noite. Acordei antes da hora. Ando agitado. Aproxima-se o dia. E eu fico assim. Nervoso.
Já consigo distinguir algumas formas no quarto com a pouca luz que entra pelas janelas abertas.
Estou deitado na cama. O edredão tapa-me. Deixa-me a cabeça de fora. Os olhos circulam pelo quarto a tentar visualizá-lo através da pouca luz. Vejo uma massa escura sobre a cadeira ao fundo do quarto. Sei que são as calças que lá larguei mas, visto daqui, assim, com esta luz, parece uma massa disforme, talvez uma forma de vida alienígena. Um pouco de sugestão e parece-me que se mexe. Parece deslizar pelas costas da cadeira. Mas nunca chega ao chão.
A minha mãe vai telefonar-me hoje. Daqui a pouco. Quando estiver a sair do duche. Encharcado. Com frio. E o telemóvel a tocar. E eu vou atender e ela vai perguntar-me se eu vou ao cemitério. Se eu vou ao cemitério no dia Um de Novembro. E eu vou dizer que sim, que Vou sim, mãe. E ela vai perguntar se quero que vá comigo. E eu vou dizer que não. Que prefiro ir sozinho. Prefiro ir sozinho, mãe. E ela vai fingir que acredita. E eu vou fingir que ela não sabe que vou ficar na cama. Que vou ficar o dia e a noite, inteiros, na cama, a imaginar que ela não morreu, que está aqui, aqui ao pé de mim, a rir-se comigo de tudo isto. E vai telefonar amanhã com a mesma conversa. E todos os dias até ao dia Um para ver se consegue que eu saia de casa e vá ao cemitério levar-lhe umas flores e dizer-lhe adeus. A minha mãe acha que eu devo dizer-lhe adeus. Mas eu não consigo. Não consigo dizer-lhe adeus. Porque ela está aqui, aqui ao meu lado, na cama, quentinha, quentinha como ela estava sempre debaixo do edredão, e eu tinha de me chegar a ela para me aquecer, que tenho sempre os pés frios e ela gritava comigo quando eu lhe tocava com os pés frios, mas ficavam logo quentes mal lhe tocavam porque ela estava sempre quente, a ferver, e fervia-me a mim ao mínimo contacto com o seu corpo branco, limpo, cheiroso e quente. Um cheiro a conforto. Um cheiro de colo. E ainda baloiço no seu colo. No seu colo quente e acolhedor. Um colo-casa. Uma casa que não quero perder.
Não posso dizer adeus. Não quero dizer adeus.
E a minha mãe vai telefonar-me para saber e eu vou dizer-lhe que sim. E ambos sabemos que estarei a mentir mas que não posso fazer de outra maneira.
Apetece-me um cigarro.
Ponho a mão fora do edredão. Agarro num cigarro. Agarro no isqueiro. Acendo o cigarro. Sinto o fumo a encher-me os pulmões. Sinto a cabeça a andar à roda. Fico um pouco mal disposto. Olho o fumo a sair da minha boca, olho o fumo a sair do cigarro incandescente, e subir até ao tecto do quarto e depois espalhar-se em mil e um pedaços de fios e desaparecer da minha vista. Fica lá o cheiro. O cheiro enjoativo do tabaco fumado de manhã, antes de comer, antes de beber café, antes ainda de tomar banho e penso que ando parvo. Ando a fazer parvoíces. Nunca tinha fumado na cama. Não gosto de fumar na cama. E no entanto… Penso que esta solidão a que me forcei nestes últimos anos me está a deixar parvo.
E é então que sinto o cheiro das torradas e do café acabado de fazer, que se sobrepõem ao cheiro acre do tabaco, e vejo-a entrar radiante, um sol de Inverno que entra pelo quarto dentro, deposita uma pequena bandeja como o café, umas torradas já barradas com manteiga e um solitário com uma rosa escura roubada já hoje de manhã no jardim da vizinha. Depois dá-me um beijo na face e volta a desaparecer de novo. Levando o brilhante sol de Inverno com ela. E regressa o cheiro do tabaco.
Cai um pouco de tabaco incandescente na cama e fura o edredão. Eu olho para o buraco. Não tenho reacção. Podia dizer Foda-se! podia dizer Que merda! mas não digo nada. Limito-me a olhar para o edredão queimado e ver o buraco a alastrar. Até parar. Estou indiferente.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o. Levanto-me da cama. Abro a janela. Está frio na rua. E deixo o frio entrar no quarto. E vou para a casa-de-banho tomar o duche e preparar-me para o telefonema da minha mãe. E exercito a voz. Sim, mãe. Estou acordado, sim. Sim, vou ao cemitério. Não, mãe. Prefiro ir sozinho. Sim, mãe.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/28]

As Broas de Batata Doce da Minha Vizinha de Cima

Estava em casa a curtir a depressão do noticiário televisivo. Era Hong Kong. A Catalunha. O Chile. O Líbano. Explosões sociais por todo o lado. Os lúmpen fartos de o serem. As massas sociais na mó de baixo, em maioria, em extrema maioria, estavam a revoltar-se contra os poucos que se mantinham por cima. Os poucos que se mantinham por cima e os seus cães de guarda. Eu estava a ver as imagens editadas pela televisão. Imagens assustadoras. O caos nas ruas. Os governos em colapso. Descobria mais uns sítios. Agora também no Equador e na Bolívia. Até ao fim do dia ainda aparecem mais, pensei. E na net encontro as imagens em bruto, voltei a pensar. E, então, tocou a campainha da porta da rua.
Levantei-me a custo do sofá. Estes dias deixam-me sem força. Sem reacção. Com vontade de sair para a rua a gritar a minha indignação, dar o meu apoio à revolução social, mas sem conseguir levantar o rabo do sofá. Acho que andava descrente. Ou tão só cansado. A vida como a estava a viver estava a deixar-me gasto. Inerte. Corria o risco de desaparecer. Puf. Fosse afundado no sofá, com um copo de vinho na mão ou um comprimido colorido no bucho, fosse caído e esborrachado no chão da rua ao fundo da minha varanda. Fiz o corredor à velocidade possível. Espreitei pelo óculo da porta e vi a minha vizinha de cima. Trazia um prato na mão. Um prato tapado com papel de alumínio.
Abri a porta.
Ficámos em frente um do outro. Ela esticou o braço e ofereceu-me o prato, com um sorriso na cara. Agarrei o prato. Levantei a folha de alumínio e vi umas broas, ainda quentinhas, a fumegar. Ela disse São de duas qualidades. Estas, e apontou com o dedo, têm batata doce. As outras não, mas têm passas e nozes.
Eu olhei para ela. Puxei-a para mim, apertei-a nos meus braços e beijei-a. Ela beijou-me. Beijámos-nos. Ali, à entrada da porta. Eu com um prato numa mão e a outra a agarrar a mão dela que dobrei para trás das suas costas, para a envolver e apertá-la contra mim. Ela tocou-me no peito, com a mão, suavemente. Parámos o beijo e senti-a ofegante. Os olhos nos olhos. As bocas abertas, próximas, a respirarem o hálito uma da outra. Ela cheirava bem. Um hálito fresco. Talvez da pasta dentífrica. Eu não tomava banho desde a véspera. Altura em que também tinha lavado os dentes pela última vez. Ela pareceu não se importar. E depois, com o calcanhar da perna levantada, fechou a porta de minha casa e deixou-nos lá dentro.
Tirou-me o prato da mão e colocou-o na mesa de entrada, ao lado do cinzeiro onde estavam as chaves do carro. Agarrou-me na mão e puxou-me para o interior de casa. Entrou no meu quarto. Puxou-me para dentro do meu quarto, para junto dela. E fechou a porta. Fechou-me a porta na cara.
Eu estava lá dentro com ela e não estava. Eu estava lá dentro do quarto com ela e no corredor com a porta do quarto fechada na minha cara.
Experienciei os avanços dela e não assisti a nada. Rebolei com ela na cama e não conseguia contar nada do que nada via.
Senti-me excitado e frustrado.
Voltei a sentar-me no sofá enquanto continuava no quarto com ela. De porta fechada. Com alguns sons ouvidos na surdina.
Voltei à depressão destes dias. Sentei-me no fundo do sofá. A olhar para a televisão. E vi os Mossos de Esquadra a carregarem a torto-e-a-direito sobre tudo o que se mexia. Vi chineses com máscaras hospitalares a partirem montras, furiosos. Vi chilenos frustrados a deitarem abaixo estátuas das praças, largos e rotundas de Santiago. Vi gente na rua de punho no ar. A gritar palavras de ordem. Vi crianças. Velhos. Mulheres. Índios. Caucasianos. Asiáticos.
Tentei imaginar o que se passava no quarto comigo e a vizinha de cima mas não consegui ver, ouvir, imaginar nada. Um vazio. Um nada, era tudo a que conseguia ter acesso.
Então, ouvi a porta do quarto a abrir. E ouvi. Ouvi a voz dela a chamar-me. Anda. Anda cá. Eu levantei-me e imaginei-me numa ménage com ela e eu em duplicado. E então ela disse o meu nome. Ela disse o meu nome.
E eu, apático, respondi Hum?!
E ela estava à entrada da porta de minha casa e chamava-me pelo meu nome para me despertar do torpor em que tinha caído, com o prato coberto por uma folha de alumínio na mão.
Senti-me envergonhado. Por ter pensado o que pensei dela. Por ter feito o que fiz dela. Pelo que ela possa ter percebido do que eu tinha imaginado fazer com ela.
E respondi-lhe Obrigado!, e fechei a porta da rua devagar sobre a cara dela. Uma cara admirada com a minha falta de educação.
Regressei ao sofá. Deixei-me afundar no sofá. Tirei uma broa e dei uma deitada. Soube-me bem.
E disse Gosto destas broas de batata doce. Obrigado, vizinha! E continuei a comer o resto da broa, enquanto, na televisão, uns polícias com ar de Exterminadores Implacáveis corriam toda a gente à bastonada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/27]

O Brinco

Todos os dias era a mesma coisa. Antes de entrar, tirava o brinco da orelha. Depois, mais tarde, ao final do dia, quando saía, voltava a colocá-lo.
Era estranho. Eu não contactava com o público. Aliás, eu não contactava com ninguém. Mas tinha de tirar o brinco. Não podia entrar na empresa de brinco na orelha. Brinco na orelha era coisa de bicha, paneleiro, pirata ou marginal. Nenhum destes poderia trabalhar ali onde eu trabalhava.
Para além de mim só havia mais outro como eu, com o qual me cruzava por duas ou três horas por dia, que eram as horas em que os nossos turnos se sobrepunham. Depois havia um velhote, o chefe, que já estava por ali quando a empresa começou, e que nos dava algumas ordens, o que é que poderíamos fazer quando aquilo para o qual tínhamos sido contratados estava feito. Era um velhote simpático com o qual almocei algumas vezes e com quem acabei por ter algumas conversas interessantes. Não tinha muitos estudos, mas compensava com uma vida cheia.
Passava a maior parte do meu horário de trabalho fechado numa cave a contabilizar senhas de refeição. Era impressionante a quantidade de senhas que entravam diariamente. Nunca teria imaginado que circulava tanta senha de refeição pelo país. Todos os dias havia sempre uma quantidade de senhas suficientes para me dar trabalho a mim e ao meu colega, trabalho que fazíamos em turnos diferentes e alternados. Havia uma máquina que contabilizava as senhas e o valor que elas tinham. Nós só tínhamos de organizar pequenos grupos, bem alinhados, sem dobras, nem agrafos, e metê-los na passadeira da máquina que os ia ler electronicamente.
Aquilo tinha sido um trabalho arranjado. Alguém conhecia alguém que conhecia alguém que conhecia a minha mãe. E foi assim que fui contratado. Não foi por causa das minhas competências, boas, nem por causa dos meus estudos, superiores. Foi um trabalho que arranjei porque conhecia alguém e alguém precisou de fazer um favor a alguém e eu fui o favor. Mas era um trabalho de cão. Não era necessário grandes competências.
Aquele era um trabalho quase solitário. Ninguém me via e eu não via ninguém. Um dia o chefe, o velho, mandou-me ao escritório, dois andares acima, para ajudar uma secretária a fazer não-sei-o-quê. Subi dois andares de escadas. Abri a porta e entrei num escritório. Eram só mulheres. Novas e velhas. Todas giras. As mulheres são sempre todas giras. Também gostava de ser mulher para ser gira. Bom, mas fui lá para ajudar uma das secretárias a levar uma grande quantidade de folhas para um outro escritório, três andares mais acima, este já com janelas panorâmicas sobre a cidade, e que era ocupada por um homem. E foi nessa altura que pensei porque é que não podia usar brinco. Para poder subir todos estes andares da empresa e não chocar ninguém com as minhas modernices. Os tempos eram outros. Os homens não usavam saias. As mulheres ganhavam menos que os homens. Os meninos usavam bibe azul e as meninas usavam bibe rosa. E depois lembrei-me do colégio católico onde estudei, um colégio de freiras, colégio misto, em que todos os alunos usavam batas brancos e não havia distinção entre meninos e meninas. E foi então que pensei que fui um miúdo com sorte. Na verdade, a minha vida era uma merda, mas não me podia queixar de ter tido uma má vida. Antes pelo contrário. Sempre tive uma boa vida que foi olhando por mim e teve o cuidado de me manter sempre no lado correcto. Da vida, percebem? Não da morte. Não do ódio. Não da competição. Não do ter de ser melhor que os outro. Da vida! Fui um filho da vida. Da boa vida.
Habituei-me a tirar o brinco da orelha que já fazia em andamento, metros antes de entrar pela porta da empresa. Não era um grande brinco. Era uma simples argola de prata. Uma argola nem muito pequena, nem muito grande. Uma argola que eu já nem veria se não tivesse de a tirar da orelha todos os dias.
No último dia em que trabalhei naquela empresa fui de brinco. Subi ao andar das secretárias. E fui muito elogiado pelo brinco. Especialmente pelas mais velhas. Algumas convidaram-me para almoçar. Lanchar. Jantar. Na tasca lá ao lado. Numa pastelaria da baixa da cidade. Em casa delas. Eu sorri. Agradeci. Mas declinei todos os convites. Disse que tinha namorada, que ela era muito ciumenta e que elas eram todas demasiado bonitas para que a minha namorada não fizesse uma cena de ciúmes. Passaram a gostar ainda mais de mim. Eu ouvi os suspiros que foram largados.
Quando me fui embora, e eu estava no turno da manhã, por isso todas elas estavam ainda a trabalhar, vieram despedir-se de mim. Fizeram um corredor e fui obrigado a beijá-las a todas antes de sair. A maior parte delas nunca me tinha visto antes daquele dia. Mas isso não serviu de nada. Todas quiseram o seu beijo. E eu beijei-as todas.
Nunca mais na minha vida tive de tirar o brinco. Nem sei se ainda o consigo tirar da orelha.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/26]

A Caixa

Encontrei-a quando fazia a mudança da minha mãe. Ao levar todas as tralhas dela de uma casa para a outra, encontrei uma tralha minha. Uma caixa. Uma caixa, guardada, guardada e perdida em casa da minha mãe há já muitos anos. Uma caixa que já não recordava. Salto de cama para sofá-cama, entre casas de amigos e conhecidos, entre camas de namoradas e restos de uma noite sem história, sem pouso certo, vou largando restos do que acumulo por aí, por onde calha, em casa deste e daquele, desta e daquela, em casa da minha mãe, afinal, a casa mais próxima do que alguma vez poderia chamar minha. E descobri-a.
Sentei-me no chão sujo (a quantidade de lixo que se vai largando enquanto se fazem mudanças! onde estava todo este pó? todo este lixo?). Esperei. Tentei refrear a ansiedade. O que estaria ali, dentro daquela caixa? O que estaria ali, debaixo daquela tampa que iria levantar?
E levantei.
A primeira coisa que vi foi a minha câmara Sony PC4, com a qual fiz o meu primeiro filme. Onde está esse filme? Onde param todas as cópias? E a montagem original? E as cassetes miniDV onde foram captadas todas as imagens e sons do filme?
Ao lado da câmara estava um action figure do Batman. Lembro-me que veio em cima de um bolo de aniversário. O bolo foi-se, o aniversário também, mas o Batman, cinzento e preto, ficou.
Há também um discman que guardei aqui quando comprei o primeiro MP3, da Creative, que, afinal, era apenas uma pen com auscultadores. Mas funcional. E era muito fácil passar música para este leitor de MP3. Não sei onde é que ele pára. Provavelmente nalguma outra caixa para onde foi remetido depois de aparecer o iPod Nano que ainda hoje tenho e funciona.
Há uma pilha de cadernos e sebentas e agendas da Moleskine cheias de palavras, textos, estórias, poemas medíocres, desenhos e outras coisas que me descrevem ao longo dos anos. É melhor queimar tudo isto. Há para aqui coisas que não são para os olhos de ninguém, algumas delas já nem sequer para os meus. Às vezes o passado envergonha-nos. Mas nem tudo é mau. Há aqui alguns textos que subscrevia. Rescrevia. Assinava. Hoje.
Há também uma caixa de Rebuçados de Ovo de Portalegre da Fábrica de Rebuçados de Santa-Clara que abro e descubro uma série infindável de canetas e lápis, lápis de várias cores e números, e todos afiados, e canetas de vários feitios. No fundo da caixa uma borracha da Rotring e uma afiadeira de metal, em forma de cunha.
Há também uma outra caixa, esta de cartão, preta, sóbria. Lá dentro tem uma caneta Mont Blanc pequena, de tinta permanente, que quis preservar. Nunca a usei. Nunca a tirei da caixa. Foi uma prenda de aniversário. Sempre tive boas prendas de aniversário. Acho que tive uma boa vida. Bons amigos. Boas memórias.
Há uma bola de neve com dois esquimós a beijarem-se. Daquelas bolas que se agitam e aparece neve a flutuar.
Uma outra caixa, de chocolate belga, alberga várias chaves, muitas chaves, quase todas com porta-chaves. São as chaves das casas por onde passei. E foram tantas. Ainda abrirão as mesmas portas? ou as fechaduras foram mudadas? Ainda estarão à minha espera? ou já me esqueceram? Acho que poderia fazer uma exposição com tanta chave, de tanta forma e feitio. Há uma delas que acusa ferrugem. Não sei o que é que esta chave abria. Uma parte do passado fugiu, outra escondeu-se. A memória é um mundo por descobrir. Poderia passar o resto da minha vida a lembrar as vidas que já vivi.
Há também uma ventoinha manual, pequenina, de agarrar numa mão, apertar uma mola e disparar a ventoinha de três pás que manda ar frio para onde quiser. As pás da ventoinha estão numa espécie de maçã com uma dentada, como se fosse o símbolo da Apple. Deve ser coisa de chineses. Sei perfeitamente quem me deu esta ventoinha. Gente que não vejo desde o princípio dos tempos.
Há ainda uma lanterna a dínamo da Quechua cuja borracha está toda peganhenta, desfaz-se nas minhas mãos e tenho de as ir lavar antes de voltar ao teclado do computador. Guardei muita merda. Muitas destas coisas são lixo.
Um maço de papéis revela as primeiras facturas de água e luz que vieram com o meu nome. As primeiras facturas que eu paguei, numa casa que era minha, cuja renda era eu que pagava, e do qual recebia um recibo com o meu nome. Há coisas que nunca mais voltam.
Por baixo das facturas, uma pequena caixa com uma pen da Kanguru para ligação à internet numa altura em que quase não havia wireless, em que éramos todos muito info-excluídos, mas nem mais felizes nem mais infelizes. Éramos só outros, numas vidas como estas mas diferentes. Será que isto ainda funciona?
Há também uma série de DVDs graváveis. Devem ter filmes e fotografias minhas. Será que descubro aqui fotografias de ex-namoradas? Fotografias de nus? Filmes de sexo? Eu a ter sexo com… Já nem me lembro. Já não recordo se as guardei aqui ou não. Tenho de descobrir uma maneira de ver isto. O meu computador já não tem leitor de DVDs.
No fundo da caixa descubro uma pequena pilha de cartas. Agarro nelas. Leio os endereços. Nomes diferentes. Moradas diferentes. Nomes de mulher. Nomes de homem. Acendo um cigarro. Encosto-me à parede. Abro uma carta. Uma qualquer. Não leio o nome de quem a envia. Não importa. Só quero ler o que já li. Só quero recuperar um tempo. E leio:
Olá meu querido, Como é que estás? É com muita saudade que olho para trás e vejo já tão distante o Verão em que nos conhecemos e passámos juntos na praia. Depois olho em frente e reparo como falta pouco para nos reencontrarmos. Voltamos ao mesmo sítio? Voltas ao mesmo sítio?
Sorrio. Escrevíamos cartas assim? Escrevi cartas assim?
Deixo cair a carta e abro outra. Sinto o coração aos saltos. Está vivo. Estou vivo. A história não é sobre os mortos. É sobre os vivos. Uma história que se perpetua nos tempos, assim a lembremos, assim nos lembremos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/25]