No Silêncio de uma Tarde de Domingo em Agosto

Estou no quarto, sentado na cama, com o iPad nas mãos. Estou farto das mesmas notícias. Farto dos incêndios no Brasil e na Sibéria. Farto do degelo no Árctico e na Gronelândia. Farto das birras de um idiota. Farto da estupidez do outro idiota. Farto das palhaçadas de mais um idiota. Farto do autoritarismo do mesmo idiota de sempre. Farto de Hong Kong. Da greve. Do mar frio no Algarve e quente na Nazaré. Farto da derrota do Benfica. E das petições no Facebook. Fecho o iPad e saio do quarto.
Passo na casa-de-banho e desligo o rádio. A hi-fi na sala. A televisão na cozinha, que está a transmitir para o boneco. Abro a porta para a rua e deixo-me envolver por aquele bafo quente que vem lá de fora.
Respiro fundo e saio para o alpendre. Desço as escadas e vou à pereira. Apanho uma pêra da árvore. Está madura. Rija mas madura. Limpo-a à camisola. Trinco-a. Volto para o alpendre.
Sento-me na cadeira a olhar lá para longe, para as montanhas.
É Domingo.
A casa está agora no silêncio. Ou quase. Ainda ouço o barulho do frigorífico a trabalhar. Ouço a minha boca a triturar a pêra.
Apuro os ouvidos para os sons que me cercam.
Ouço as galinhas nas traseiras da casa. Anda o cocó a querer saltar-lhes para cima. Por isso é que as ouço. Estão a fugir dele. Toda a gente foge do cocó. Até eu. O cocó só quer foder as galinhas.
Ao fundo, vindo de uma quinta lá de baixo, o latido de um cão. Algum estranho que passa do outro lado da vedação.
As cigarras em coro.
Não ouço os gatos. Um deles está deitado aqui ao meu lado. Nem lhe ouço a respiração. Não vejo o cão. Não responde ao outro que ainda ouço a latir.
Agora, percebo o moinho de vento do vizinho. Tac-tac-tac-tac. O moinho de vento no alto da chaminé.
Acabo de comer a pêra. Lanço o caroço para o meio do jardim. Acendo um cigarro.
Hoje não há morteiros. Se calhar não há festas. Já acabaram as festas de Agosto?
Há uns anos eram os anos do Sasha Summer Fest. O que lhe terá acontecido?
Hoje também há umas festas de Verão, mas diferentes. São festas de fim-de-dia, do lusco-fusco, disto e daquilo. Felizmente, longe daqui. Aqui não ouço essas músicas lúdicas à procura de criar um ambiente zen.
Será que acabaram as festas de Agosto?
Passa um carro lá em baixo, na estrada. É o primeiro carro que ouço passar em muito tempo. Está calor. As pessoas devem estar na praia. Debaixo de alguma árvore a piquenicar. A dormir a sesta. A fumar uma ganza. Gosto de árvores. Gosto da minha pereira.
E, então, ela chega. Traz uma pequena bandeja com uma tigela de fisális, uma garrafa de Alvarinho e dois copos de vidro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/25]

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