No Vale Furado

Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.
Cá de cima olhei lá para baixo e suspirei. A praia é muito boa mas, o que tenho de descer e, mais tarde, subir, é um drama. A praia do Vale Furado fica lá em baixo, a meio caminho do Inferno. A descer pequenos degraus feitos na encosta. Alguns em cimento. Passamos por casas construídas, sabe-se lá como, naquelas encostas íngremes que o fogo já beijou há dois anos. Mas ainda por lá se vêm os restos do incêndio. Um verde que não regressou. Árvores carbonizadas nunca cortadas. Mas o que impressiona mais são mesmo as falésias. O Vale Furado fica lá em baixo. Espreito do pequeno e arcaico miradouro para a quantidade de gente que se espalha ao longo de uma praia que é pequena junto às arribas, junto ao caminho vencido ao penhasco para acesso, mas que depois ganha toda a dimensão até à Praia do Norte onde os surfistas arriscam a vida a desafiar Deus.
Suspirei fundo. Suspiro fundo sempre que desço ao Vale Furado ao pensar no que vou ter de subir no regresso. Dou uma olhada ao Mad e penso que, no regresso, irei lá beber uma cerveja, comer uns tremoços e recuperar as forças gastas a subir desde lá do fundo.
Desci. Estendi a toalha. Fui ao mar. Mergulhei. A água estava boa. Fria como sempre. A costa Atlântica nunca me deixa ficar mal. A água do mar está sempre fria. Sinto-a nos ossos, mas gosto. Gosto de a sentir a fustigar-me. Regressei à toalha. Estendi-me ao sol. Primeiro de costas. Depois de frente. E, cada vez que secava, repetia a operação. Mergulho. Duas ou três braçadas. Regresso ao bronze. Por vezes dormito. Ouço as vozes da praia muito ao longe, quase um embalo. Ali nunca há muita confusão. Mesmo quando está cheia, como hoje. Para ali vai gente que procura algum recato. Alguma calma. Alguma tranquilidade. Mas há famílias. Às vezes até cães. Mas não há música. Ali consegue-se ouvir o barulho das ondas a bater na areia. E sinto-as subir, lentamente, até me baterem nos pés e obrigarem-me a chegar um pouco mais para cima na areia.
Era já final de dia. Estava na hora de ir embora. A cerveja estava à minha espera no Mad. Deitado de costas, encolhi o corpo para despir os calções molhados, com que tinha ido ao banho, para vestir uns calções secos. E senti. Quando encolhi as pernas para despir os calções e ficar nu, ali no momento imediatamente antes de conseguir enfiar os calções secos, senti o estalo. Parecia uma pancada seca. Algo acontecera nas minhas costas. Uma dor horrível fez-me gritar Foda-se! em altos berros. Fiquei assim encolhido, nu, com os calções secos na mão, sem me conseguir mexer.
Fui esticando, devagar, as pernas até ficar estendido na toalha. Mas estava cheio de dores. Pedi ajuda, ao lado, para vestir os calções. Voltei a pedir ajuda para me levantar. Foi muito difícil, levantar-me da toalha. Não me consegui baixar para a apanhar e sacudir. Tive de voltar a pedir ajuda. Não conseguia apanhar a toalha nem os chinelos.
Comecei a caminhar devagar ao longo da areia para junto do sopé da encosta. Mas as dores eram imensas. Eu estava vergado sobre mim. Levava uma mão nos ombros dela. O meu peso sobre os ombros frágeis dela. E disse Não posso continuar. E deixei-me cair devagar na areia. Fiquei de joelhos. Dobrado. Não conseguia virar-me. Não conseguia sentar-me.
Ela foi pedir ajuda aos nadadores-salvadores da praia. Eles vieram, solícitos. Tentaram levantar-me. Um de cada lado. Mas eu não conseguia erguer o corpo. Voltaram a deixar-me no chão. De novo de joelhos. Dobrado sobre mim. Os nadadores-salvadores chamaram os bombeiros. Estavam numa praia ali perto e não demoraram a chegar. Mas não conseguiram melhor. Era impossível levarem-me de maca a subir aquele penhasco do Vale Furado. Demasiado íngreme. Demasiado longo. Demasiadas voltas e curvas e curvinhas. Troços muito estreitos.
Os bombeiros sugeriram um helicóptero.
A noite estava a chegar. Eu sentia-me nervoso. Cheio de dores. Queria fumar um cigarro. Queria beber uma cerveja no Mad. Queria ir para casa tomar um banho de água doce e quente. Queria sentar-me no sofá a ver o Trio de Ataque. Queria não estar ali.
A verdade é que não havia grandes soluções. Ainda pensaram fazer-me subir de maca por um guindaste. Um bombeiro sugeriu subir comigo às costas. Mas todas as soluções não eram de facto solução. Era impossível levarem-me lá para cima da maneira como eu estava. E como é que eu estava? Nem sei bem. Estava cheio de dores nas costas, mas ela passava as mãos nas minhas costas e eu não sentia nada. Não conseguia sentir onde é que me doía. Como se fosse uma dor interior. À qual não se conseguia ter acesso. Nem conseguia perceber se era uma dor nos ossos ou nos músculos. Era ali, naquela zona, e doía-me horrores. E eu continuava de joelhos na areia, dobrado sobre mim.
O sol já tinha morrido no horizonte, há já algum tempo, quando, finalmente, se arranjou um helicóptero disponível. Estavam todos a combater os incêndios na zona de Vila do Rei, mas um helicóptero teve de ir a Lisboa e fez um desvio para me acudir.
Fui levantado numa maca para dentro do helicóptero que ficou a pairar lá em cima, por cima da praia do Vale Furado.
Enquanto era puxado só pensava na dor de costas e nem aproveitei para apreciar a paisagem. Mais tarde, depois de tudo passado, iria com certeza ficar irritado comigo por não ter olhado o mar, o horizonte quase a desaparecer na escuridão da noite, o manto das estrelas, as poucas casas nas arribas do Vale Furado e o Mad visto do ar, naquela que seria uma ocasião única. Não, naquele momento só conseguia estar de olhos fechados a pensar no quanto me doíam as costas e que não tinha posição confortável. Até deitado estava desconfortável. E ia amarrado. Detesto sentir-me amarrado. Detesto sentir-me com dores e amarrado e não poder mexer-me e tentar descobrir uma posição mais confortável.
Dentro do helicóptero senti-o a deslocar-se no ar. Ouvi o barulho das hélices a girar com toda a força. Aquilo é uma máquina impressionante.
Fui trazido ao hospital de Santo André.
Lembro-me ainda de ter aterrado no heliporto do hospital de Leiria. Depois devo ter adormecido. Não sei o que se passou. Está tudo em branco.
Acordei horas mais tarde.
Estou deitado numa cama especial de barriga para baixo. Há um buraco onde tenho enfiada a cara. A cabeça está presa. Não me mexo. Ao fundo, à frente da minha cara, tenho o iPad. Falo com a SIRI. E começo a ditar-lhe uma história para publicar no Facebook e, mais tarde, no blog Estórias da Violência. E começo assim Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/21]

O Tornado

Estou sentado na esplanada da Batel, na marginal da Nazaré, a beber um café. Estou na marginal virado para o mar e tento vê-lo. Espreito por uma nesga de espaço livre entre os insufláveis da Minnie, da Patrulha Pata e do Faísca McQueen, de um lado, e de uma pista de carrinhos de choque infantil e uns discos voadores que rolam em pista no chão, do outro. Mais afastado está uma barraca de hambúrgueres McDaniel’s.
As pessoas vêm à praia para se deitarem na areia, mergulhar no mar, beber uma imperial, comer uma bola de Berlim, lamber um gelado mas, antes de o conseguirem, têm de sobreviver a toda a panóplia de actividades que servem de chamariz às criancinhas que azucrinam a cabeça aos pais Papá eu quero! Papá eu quero! Papá eu quero pular no insuflável!…
A Nazaré tornou-se uma feira durante os meses de Verão. Hoje já não é possível ir para a praia descansar. Agora, as férias são o martírio maior das famílias. Já nem é só pelo dinheiro que se gasta em ninharias, mas o barulho, a confusão, o apelo, os berros, o futebol de praia, a música, há sempre música, há sempre um festival em qualquer canto, em qualquer baiuca, como se o Homem não conseguisse viver sem a confusão e o engano da companhia.
No fundo continuamos todos sozinhos.
Atrás de mim na esplanada, uma mulher dos seus cinquenta anos, de cigarro na mão, pigarreia. Puxa muco do nariz e engole-o. Eu percebo todos estes sons característicos enquanto tento ver o mar lá ao fundo, por entre a nesga de espaço livre.
Ao meu lado um casal de brasileiros, jovens, com três filhas ainda muito novas, bebem uma imperial enquanto as miúdas comem um Magnum cada uma. Os pais comentam o azar pelo mau tempo nas férias. E têm razão. O tempo está encoberto. O horizonte termina logo ali, numa neblina carregada, sobre o mar. E levanta-se vento.
A mulher atrás de mim puxa, agora, expectoração do peito e agarra-a na boca. Ouço-a cuspir para o chão e sinto-me enojado. Tenho vómitos. Mas aguento.
O vento aumenta agora bastante de intensidade. A família brasileira sai da esplanada e foge para o interior da pastelaria.
Vejo aquilo que deve ser um pequeno tornado a vir, rápido, do mar. O vento é muito forte. Cai água. Não sei se é chuva se é água do mar a viajar no vento. Recuo para a beira da esplanada, para debaixo do arco do prédio.
A mulher que pigarreia, chega-se à frente para ver melhor o que está a acontecer. A esplanada voa. A mulher está mesmo à minha frente. E eu estico o pé. Dou-lhe um empurrão no rabo e vejo-a tombar. Mas não cai. É agarrada pelo tornado que a leva na sua espiral de vento junto com as mesas e cadeiras da esplanada.
A mulher desaparece no ar. O vento acalma. A neblina dissipa-se. Volta o sol. Reparo que os insufláveis desapareceram. As pistas também. O McDaniel’s resistiu, mas sem telhado que foi não sei para onde.
As cadeiras e as mesas da esplanada também voaram para parte incerta. Os pais brasileiros avançam até à esplanada com as mesmas imperiais na mão. As miúdas ficaram no interior a comerem os gelados.
Eu acendo um cigarro enquanto reparo que agora já vejo o mar.
Volta o sol. As pessoas começam a levantar-se na praia e andam de um lado para o outro à procura das suas coisas e das pessoas que perderam naquela confusão.
Encontro uma cadeira virada no chão, que não era desta esplanada, e sento-me nela. Tenho muito para observar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/20]

Água Tónica com Gelo e Limão Espremido

Saí de casa de manhã e estava frio. Aquele frio que vem com a neblina matinal que estava habituado a enfrentar em São Pedro de Moel mas não noutro lado qualquer. Saí com um casaco de algodão vestido.
Depois de almoço chegou o calor. Um calor abafado. Húmido.
Não gosto de andar com coisas nas mãos e então, mantenho-me com o casaco vestido. Estou a transpirar que nem um porco. Transpiro em bica. Tenho o cabelo encharcado e a pingar pela cara abaixo, pelo pescoço abaixo, pelo peito abaixo. Sinto manchas de humidade debaixo dos sovacos. Nem quero olhar para não me enojar. E uso desodorizante. Mas o calor está demais, agora. Cruzei a cidade. Não havia árvores por onde escapar. Vim debaixo da torreira de sol. A destilar.
Encontro uma esplanada. Uma esplanada fechada. É o que há, penso. Entro. Peço uma água tónica com limão espremido.
Agarro num Correio da Manhã e leio as gordas do país profundo. Sinto-me agoniado com as manchetes, com as caixas. Largo o jornal. Agarro n’A Bola. Milhões. Milhões, milhões, milhões. N’A Bola só se fala de milhões. O novo normal. Errei o amor, a paixão e o desejo profissional. Devia ter continuado aos chutos na bola e cagado para os livros. Às vezes sinto-me zangado. Zangado comigo próprio. Pelas escolhas erradas que fui fazendo ao longo da vida. Gostar de ler, gastar dinheiro em livros, deixá-los perdidos ao acaso. Devia ter continuado aos chutos na bola. Ter escolhido estudar economia. Ou direito. Ter-me tornado um filho-da-puta que poderia dizer, com um sorriso cínico nos lábios É a economia, estúpido! E gozar com os falhados desta vida que ainda acreditam no Pai Natal, na Europa e na bondade do homem.
O rapaz chega com um copo quente, acabado de sair da máquina de lavar louça, duas gotas de limão que mal consigo ver no fundo do copo e duas pedras de gelo, que o gelo está pela hora-da-morte, nem uma rodela de limão! e a garrafa de água tónica, Schweppes, vá lá!, a temperatura ambiente.
Peço ao rapaz para espremerem mais um pouco de limão. Mas para não cuspirem no copo. Mais uma rodela. Mais gelo. E a garrafa fria. Ah!, e uma colher para mexer o limão, se faz favor. O rapaz pede desculpa e volta para trás.
Largo também A Bola. Olho em volta. Na televisão passam vídeo-clips de grupos musicais que desconheço, mas não ouço o som que o som da televisão está desligado. Ali, na esplanada fechada, dá-se primazia ao barulho das gralhas que vomitam opinião sobre a vida dos outros. Os outros são os primos, vizinhos e demais conhecidos. Elas são, invariavelmente, vadias, eles uns calões, toda a gente cheia de defeitos mas elas, elas não! Elas são poços de virtude e lugar cativo na missa das nove na Sé Catedral.
O rapaz traz o copo à temperatura ambiente, com um dedo de limão espremido e cheio de cubos de gelo. A garrafa de água tónica, Schweppes, está gelada. Verto a água tónica no copo e mexo com a colher.
Vou bebericando enquanto olho, na televisão gigante ao fundo da sala, um grupo de raparigas com fatos de látex a dançar em grupo, os mesmos passos, os mesmos gestos com os braços, as mesmas voltas retorcidas com os corpos. E penso que todos tendemos para aquilo. Para sermos iguais. Para ficarmos iguais. E penso que, na verdade, é o melhor a fazer. Ser igual. Mas não consigo afastar de mim aquela sensação de calor debaixo do casaco de algodão que não ouso despir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/19]

O Hotel

Não o conhecia de lado nenhum. Mas, aparentemente, o homem conhecia-me. Pelo menos conhecia as coisas que eu escrevo. E tanto conhecia que me convidou para passar uma semana no seu hotel, à conta da minha escrita, para depois, ou durante a estadia, escrever uma pequena estória que lá se passasse.
Ele era dono de um hotel à beira-mar. Um bom hotel, diga-se. Hotel sobre o Atlântico, zona centro, a subir para norte. Mar agitado, portanto. O convite era para uma semana, dormida, comida, bebida, mini-bar cheio e utilização de todos os espaços do hotel (que ainda tem piscina, ginásio e SPA) à borla e, no fim, só tinha de escrever uma pequena estória localizada no hotel. Nem pensei muito. Claro que aceitei.
Mudei-me logo no dia seguinte ao convite. Um quarto grande, espaçoso. Num dos últimos andares. Uma vista deslumbrante sobre o mar. A casa-de-banho, enorme, com banheira de hidromassagem, chinelos e roupão de turco.
Os primeiros dois dias deixei-os ir ao sabor da maré, a apreciar os luxos que me tinham destinado. Refeições à la carte como se fosse buffet livre. Massagens com final feliz. Cocktails de todas as cores do arco-íris. Braçadas na piscina. Corridas na passadeira.
Experimentei de tudo o que havia para experimentar.
Observei os clientes. Os homens. As mulheres. Os filhos de algumas destas pessoas. Alguns solitários. Dois casais homossexuais. Quase todos com bastante dinheiro. Alguns, aparentemente, bastante felizes. Gente sem dramas. E, ao contrário do que estava à espera, não descortinava por ali nenhuma estória suculenta. Nem um caso de amantes a arrastar a sua traição palas salas do SPA. Nem uma filha adolescente, rebelde, ávida de atrair o desejo sexual dos velhotes agarrados à bengala mas de mente perversa. Ninguém fugido e procurado pela Interpol. Nenhum mercenário em semana de descanso. Nem um único caso de utilização de drogas pesadas ou de excesso de álcool.
Nada.
Ainda tentei aproximar-me do grupo de trabalhadores para tentar vislumbrar algo pérfido. Queixas. Lutas. Mas nada.
Aquele hotel era a coisa mais tranquila do mundo, cheio de clientes calmos e empregados satisfeitos com o seu trabalho e os seus honorários.
Se estava contente pelo convite para usufruto do hotel por uma semana e pelo convite para a escrita de uma estória, por outro lado sentia-me desiludido pela vida demasiado tranquila que observava e pela minha incapacidade de sugar, dali, alguma coisa de útil.
Ao quinto dia de estadia decidi ter de tomar algumas providências. Algo teria de acontecer. Algo de estranho e bizarro teria de acontecer naquele hotel para que eu pudesse executar a segunda parte do acordo: escrever uma estória.
No dia seguinte, uma das camareiras, de origem brasileira, foi encontrada morta na sala de conferências do hotel. Estava sem roupa, tombada no chão, mesmo em frente ao quadro do Power Point. Tinha uma faca espetada na barriga, uma morte horrível, mas não havia sangue na sala. Nem a roupa da camareira. Fora morta noutro local e levada para ali.
A minha estadia foi prolongada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/18]

O Candidato

Teimam em fechar as esplanadas da cidade. A cidade deixa então de ter esplanadas para ter marquises. Estou em Leiria, no século XXI, e sinto-me no Cacém nos anos ‘80 do século passado.
Está um tempo muito citadino. Não tão bom que canalize gente para as praias, nem tão mau que as faça ficar em casa. Mas antes fosse. Ainda aprendiam alguma coisa a apreciar a celulite uns-dos-outros ou aprendiam a confeccionar bolos com o Marco do Big Brother num qualquer programa vespertino de televisão que eu descobri no outro dia. Assim, as pessoas aglutinam-se em esplanadas fechadas, a transpirar que nem uns porcos da Boavista em transporte suíno para o matadouro, a cheirar as transpirações uns-dos-outros, porque desconhecem os desodorizantes, enquanto ouço, na mesa do lado, que o presidente da Câmara da cidade vai candidatar-se à Assembleia da República. Claro que cada um faz o que pode pela vida. Eu também tentei assaltar o Banco Santander, ali no início da Avenida Heróis de Angola, ex-ex-libris da cidade, tornada moribunda à espera de uma reanimação boca-a-boca mas já não há quem lhe chegue que o mau aspecto já se instalou e parece mais morta que viva, sem que lhe dêem a extrema-unção ou um choque de adrenalina, quando descobri que afinal já não havia outra vez mais nenhum banco ali, na principal artéria da cidade, e o único multibanco de rua está nos CTT que já não o são e são outra coisa qualquer que ainda está por se descobrir. Sim, eu sei, eu não tenho engenho.
Levantei-me da mesa onde estava. Deixei a bica queimada a arrefecer na chávena e fui à rua fumar um cigarro. Não sei o que seria da minha vida sem um cigarro fumegante, preso nos dedos amarelos das mãos trémulas, enquanto tento pensar no próximo passo.
Aproxima-se o fim-de-semana. O fim-de-semana de Feira Medieval. Aquela febre que ataca todos os municípios de norte a sul do país e todos os munícipes ficam assim com o pito aos saltos a pensar que é tão bom poder brincar de facínora sem ser repreendido pela comunidade nem julgado pela lei.
Isto é só uma brincadeira, dizem-me enquanto passam por mim na rua da rua, ou seja, fora da esplanada tapada para poder fumar um cigarro e não intoxicar estes servos da gleba que não se importam de serem escravos porque é tudo a brincar.
Decido sair da cidade. Decido deixar o café queimado por beber e por pagar na esplanada coberta, que a cidade é polar, e fugir para uma qualquer terriola dos arredores por que é preferível voltar a ouvir o Zé Café & Guida, todos os fins-de-semana seguidos até ao início do Inverno, que ser cúmplice de uma leitura enviesada da história que me é enfiada pela goela abaixo sem uso de anestesia nem vaselina.
Arranco de carro para fora da cidade e volto a descobrir um cartaz do CDS junto ao Mosteiro da Batalha. Sinto um déjà vu. Agora já não tem a efígie da Assunção e do Nuno. Agora só transmite uma frase A Preparar o Futuro, e então percebo a ausência, nos últimos tempos, da sempre-presente-e-nunca-calada Assunção. Está a preparar o futuro. O seu futuro. E sei que nada é por acaso. O presidente da Câmara também começou ali, na Batalha, a preparar o seu futuro. E enquanto vejo o cartaz a ficar lá para trás, esqueço o futuro da Assunção, penso que devia estar contente por um candidato à Assembleia da República pela minha cidade ser de facto de cá. Quer dizer, não é bem de cá, ele nasceu em Abrantes mas, pronto, foi presidente da Câmara durante três mandatos, é quase como se fosse de cá. Mas já vi este filme. E não terminou bem.
Acendo outro cigarro enquanto abro o vidro do carro e coloco o braço de fora, à malandro, e penso Gostava de conseguir ser um malandro. Mas um malandro dos bons.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/17]

Miss You

Acordo.
Acordo com o telefone a tocar aqui mesmo ao lado.
São três e meia da manhã.
Acordo com o telefone a tocar e não quero ver quem é.
Coloco as mãos nos ouvidos e começo a cantar para não ouvir o telefone a tocar aqui mesmo ao lado às três e meia da manhã.
La la la la la lara
La la la la la lara
And I miss you…
Well, I’ve been haunted in my sleep
You’ve been starring in my dreams
Lord, I miss you…
Não quero ouvir o telefone a tocar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/17]

As Congressistas

A miúda, mulher, preta, somali, congressista, defendia-se dos ataques torpes do presidente norte-americano atacando-o pela sua misoginia, racismo, sexismo, falsidade e mentira.
Eu estava a comer umas sardinhas em lata, picantes, com umas fatias de pão de Mafra, e umas azeitonas mistas, pretas e castanhas, e empurrava tudo com um copo de Courelas de Pias (o resto de uma garrafa já aberta), que se transformou em dois copos para terminar a garrafa e deitá-la fora para o depósito verde para o qual tenho de andar dois quilómetros a subir (no regresso é a descer), enquanto me ia escandalizando com a liberdade boçal de tal personagem, o presidente, na reprodução do discurso nojento de ataque à dignidade das congressistas representantes dos eleitores norte-americanos.
Tinha o televisor a preto e branco da cozinha a debitar o Telejornal. Aquilo irritava-me. Aquela personagem andava a dar-me cabo dos nervos e não consegui perceber, nem consigo ainda hoje perceber, que continue a passar incólume às mentiras que propaga e à sua presidência errática feita através da rede social Twitter, massacrando pessoas a torto-e-a-direito e gritando queixinhas quando atacado.
Acabei as sardinhas. Duas fatias de pão. Uma mão cheia de azeitonas. Os dois copos de vinho tinto e a garrafa vazia no lixo verde com o qual teria de subir dois quilómetros (mais dois a descer no regresso). Acendi um cigarro. Fiz um tacho de café de chicória e continuei a ouvir o discurso das outras congressista atacadas. Achei uns belos e potentes discursos de gente sem-medo. Mas achei que os americanos eram uns tontos que correm atrás de um fanfarrão que grita que é bom, espectacular e excelente negociador, tudo coisas por provar, quando a única coisa certa e provada é a gravação da sua auto-glorificação por colocar as mãos nas vaginas das mulheres, independentemente de elas o desejarem ou não.
O Telejornal voltou a mostrar outro discurso do presidente em que volta a atacar as quatro congressistas norte-americanas dizendo-lhes que regressem aos países falhados de onde provêm.
Apaguei o cigarro no prato com as espinhas das sardinhas em lata, picantes, e fui ao quarto, ao armário do quarto, buscar a caçadeira que fora do meu pai, e que nunca utilizei. Enfiei-lhe dois cartuchos e disparei sobre a televisão a preto e branco da cozinha onde estava a imagem do presidente a espumar o seu ódio. A televisão explodiu.
E eu disse, alto, alto como se fosse para ele ouvir Este é o mesmo tipo que exigiu o comprovativo de nacionalidade ao presidente anterior. Este é o mesmo tipo que separa pais e filhos e coloca crianças em jaulas como se fossem animais. E voltei a disparar. O que restava do televisor desintegrou-se.
Larguei a caçadeira. Acendi outro cigarro e pensei Disparei os tiros porque estava a defender a minha casa. A minha sanidade na minha casa. E tenho o direito de a defender. De me defender.
Fui até ao alpendre e olhei para as montanhas lá à frente, ao fundo, e deixei que o frio deste final de dia de Julho me entrasse pelos pulmões e me lavasse a alma.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/16]

Ericeira

A última vez que fui à Ericeira, a vila ainda existia. Estávamos em dois mil e dezanove. Fui de passagem. Ia de Lisboa até à Figueira da Foz, em trabalho, e resolvi subir o país pelo Litoral Oeste de carro. Primeiro pensei em ir de comboio, mas depressa percebi que a Linha do Oeste não existia. Era uma linha-de-comboio fantasma. A linha estava lá, passavam por lá comboios, mas não serviam a ninguém. Nem às populações nem à própria CP. A quem serviria aquele montículo ferroviário de estações abandonadas, horários perdidos e viagens eternas? Ainda me lembrava de uma viagem de Lisboa a Leiria que me tinha levado cinco horas. Mas naquela altura andava apaixonado e a viagem serviu para o namoro. Entretanto acabou-se a paixão e cinco horas de comboio por cento e vinte quilómetros é demasiado.
Adiante.
Cheguei cedo. Fui à Praia do Sul. Estive deitado ao sol. Mergulhei nas águas calmas e frias da praia. Bebi uma cerveja no Quiosque da Praia do Sul. Passeei pelos Foles. Ouvi o mar a gritar. Senti aquele cheiro a iodo, a maresia. Almocei na Marisqueira das Furnas. A entidade patronal patrocinou o almoço e soube-me bem.
Depois de almoço dei uma volta higiénica e subi até à Praça da República para beber um café e comer um Ouriço no Pão da Vila. Escolhi precisamente o único café que não tinha o doce típico da terra. Acabei por não comer doces. Fumei um cigarro. Acabei por fumar outro cigarro enquanto bebia um segundo café e reparava nas moças de prancha de surf debaixo do braço com o buço aloirado, penugem mal aparada nas pernas e rastas no cabelo. Eram giras as miúdas, estavam queimadas do sol e do sal, mas um pouco peludas demais para os meus gostos.
Retomei viagem. Antes ainda comprei uma lata com Ouriços e outra com Areias. Para oferecer. Pequenas lembranças de um país cheio de pequenas particularidades.
Nunca mais lá voltei.
Entretanto, aconteceu o tsunami.
A Ericeira foi varrida do mapa.
Lembro-me das notícias. Lembro-me de ver algumas imagens do tsunami a atingir a Ericeira. Não houve uma destruição imediata. A enorme onda que atingiu a vila destruiu algumas casas, mas o facto de uma grande parte estar muito acima do nível do mar, só sofreu com a queda de água da explosão da onda contra as arribas. Uma espécie de chuva que, não vinda do céu, vinha do mar. De baixo para cima. E depois, em furiosa queda. O problema foram mesmo as arribas. O mar entrou pelos foles. Forçou o interior das rochas. Bateu nas arribas e provocou ondas de choque que fizeram tremer a terra e provocou sismos superficiais que levaram ao deslizamento das arribas e ao arrastamento da vila da Ericeira e das outras terras que já lhes viviam coladas como se fosse já só uma.
A Ericeira desapareceu do mapa. Ficaram uma dúzia de casas para contar a história. Com os anos essas mesmas casas foram preservadas e tornadas uma espécie de museus da memória do que tinha existido ali, desde o tempo dos fenícios, e deixado de existir devido à acção terrorista da natureza.
É a primeira vez que aqui regresso depois da minha viagem em dois mil e dezanove. Como isto era e como isto é. Agora, o que era a Ericeira é um penhasco vazio e deserto sobre o mar agitado do Atlântico. O que era a Reserva Mundial de Surf é hoje só uma placa numa das novas arribas onde grassam placas alusivas à história da vila, ao lado de outras que avisam para a possível queda dessas mesmas arribas.
Ainda me lembro das imagens que vi na televisão. Uma onda gigantesca que se deslocava em câmara lenta no mar e se aproximava ameaçadora de terra. O confronto da onda com as arribas. O choque. A explosão de água como uma nuvem líquida que termina em chuveiro sobre o alto das arribas. O silêncio. A calma. As pessoas surpresas a saírem das suas casas. E depois o barulho ensurdecedor, vindo das tripas da terra. E as arribas a deslizarem para o mar, como um pequeno monte de areia no estaleiro de uma casa em obras, e a vila inteira a ser arrastada pelas arribas abaixo. E as pessoas. As pessoas que se viam no meio da enxurrada. O pó que se levantou. E depois, o nada. As águas acalmaram e a terra tinha recuado. A Ericeira já não existia. E tudo tinha sido gravado. E eu tinha visto. E nunca mais cá tinha voltado.
Até hoje.
E depois de tantos anos, ainda parece que ouço os gritos das pessoas que foram arrastadas pelo deslizamento das arribas para dentro dos foles. E ainda as imagino vivas, a viverem em bolhas de ar, a comerem os moluscos agarrados às rochas, à espera de um outro tsunami que os traga de volta à terra e reerga a antiga vila da Ericeira. Mas isto é só um sonho desesperado. Na verdade, a Ericeira foi-se e nunca mais irá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/15]

O Campeonato de Girão

Vi, por acaso, a meia-final do Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins entre Portugal e Espanha, e vi a seleçcão portuguesa agigantar-se perante os crónicos vencedores do mundo.
Decidi ver a final. Era hoje. Portugal contra a Argentina.
Comprei uns amendoins com casca. Uma garrafa de Encostas de Pias, tinto. Dois maços de cigarros. O Zippo com gasolina. Fechei as cortinas da sala. Liguei a RTP1. Aguentei os programas da tarde até à hora do jogo.
Quando o jogo começou já estava bêbado. E a garrafa vazia.
Os nervos não costumam atacar-me. Não era o caso de hoje. Hoje estava nervoso. Se calhar por estar bêbado.
Deixei passar a primeira parte do jogo sem me ter apercebido que estava a acontecer. Quando despertei, percebi que o guarda-redes português, Girão, estava a defender a sua quinta grande penalidade e, à semelhança das anteriores, defendeu a baliza nacional com brio, fechando a entrada às bolas argentinas.
Foi então que me apercebi que podíamos estar à beira de sermos campeões do mundo. Sim, que eu aproprio-me destas grandes conquistas. Estava zero-a-zero. O tempo corria para o final. Os nervos caíam-me em cima e comecei a devorar os amendoins. Desfazia as cascas e mandava os amendoins a voar para dentro da boca. Triturava-os rapidamente. Repetia a acção. Voltava a repetir. E de novo. E outra vez. E novamente. E fiquei cheio de sede e enquanto Girão se dispunha a defender outra grande penalidade, fui à procura de algo para matar a sede. Encontrei uma garrafa de Brandymel que nem sabia que havia cá em casa. Uma bebida de que não gostava. Mas levei o gargalo à boca e ajudei a empurrar os amendoins pela garganta abaixo.
O jogo continuava. A Argentina mais acutilante. Portugal mais suave. Falhava muito na finalização. Mas nós tínhamos o Girão. A Argentina não. Girão era português e estava na baliza portuguesa para a defender dos adversários. E manteve-a inviolável até ao final do jogo.
Veio o prolongamento. O comentador do jogo na RTP1 não se calava com a décima falta argentina. A décima falta que permitiria à selecção portuguesa usufruir de uma grande penalidade que ainda não tinha usufruído, ao contrário dos argentinos que já levavam mais de uma mão-cheia delas a que Girão se opôs com galhardia. Mas nunca chegou esta décima falta. E o tempo foi passando. Umas vezes mais depressa. Outras vezes mais devagar. Por vezes parecia que a Argentina se posicionava para o golo. Por vezes era Portugal que falhava golos feitos, o que me levava a gritar asneiras a plenos pulmões, acender cigarros uns nos outros e a beber o Brandymel directamente da garrafa.
Há muito tempo que não me sentia tão nervoso.
Mas o prolongamento chegou ao fim.
Vieram as grandes penalidades.
E eu percebi que íamos ganhar o Mundial. Ter o Girão na baliza era quase como ter Deus a rezar a si próprio por nós.
E eles começaram por falhar. E nós também. Depois marcaram. E nós também. E depois eles falharam. E nós não. E quando falhámos a grande penalidade que nos daria a vitória, foi só para que Girão defendesse a grande penalidade argentina que nos garantiria a vitória no Campeonato do Mundo de Hóquei em Patins em Barcelona 2019. E foi o que aconteceu.
Girão defendeu a última grande penalidade argentina. Portugal nem precisou de marcar a sua. Girão ganhou o campeonato para Portugal.
Mandei os amendoins ao ar. Os amendoins e as cascas. Despejei a garrafa de Brandymel, o que me deixou enjoado. Acendi mais um cigarro. Agarrei na minha bandeira de Portugal com pagodes no lugar dos castelos e vim para a rua onde estou agora para comemorar com os meus compatriotas mais este grande triunfo lusitano na alta-roda do desporto mundial.
Já estou aqui há mais de meia-hora e continuo a ser o único a correr à volta da rotunda com uma bandeira de Portugal. Já fumei os meus cigarros todos.
Se não aparecer mais ninguém nos próximos cinco minutos, vou-me embora.
No próximo quarto-de-hora.
Não. Na próxima meia-hora. É preciso dar tempo aos portugueses para levantarem a peida do sofá.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/14]

Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]