O Cheiro a Terra Molhada

Gosto do cheiro da terra molhada. Especialmente no Verão. A terra no Verão está mais seca e quando chove liberta um cheiro peculiar que eu gosto bastante.
Hoje de manhã acordei com a chuva a bater nas janelas. Abri-as e deixei o cheiro da terra molhada entrar casa dentro.
Fiz café. Agarrei num cigarro e vim para o alpendre beber o café e fumar um cigarro.
Já não chove. Já saiu o sol detrás das nuvens que se dissipam. Os seus raios reflectem no verde das plantas e disparam rajadas para todo o lado. O jardim brilha. A casa brilha. Eu brilho. Está uma manhã mágica, cheia de lantejoulas.
O gato também está no alpendre. Está a lamber o cu. Eu não consigo chegar ao meu. Agora, até fazer lá chegar as mãos é um problema, com estas dores de costas que não me largam. Os gatos são uns privilegiados. Mas não deixa de ser nojento. A língua ali assim, a lamber o cu.
Lá de baixo no portão vejo uma tipa a fazer-me sinais com os braços, para me chamar a atenção. Oh, vizinho! grita, Quer dar alguma coisa para o andor? Não! respondo curto e grosso.
Continuo a fumar o cigarro. Para o andor? repito para mim. A tipa levanta o braço, num misto de agradecimento por nada e de adeus, e vai-se embora.
E eu pergunto-me se serei um gajo maldisposto? Às vezes não tenho paciência. Às vezes só quero estar descansado, só, sozinho comigo. Acho que às vezes irrito-me quando me obrigam a ter de interagir com outras pessoas. Mas não é isso que as pessoas fazem umas com as outras? Interagir? Socializar? Se calhar não sou do tipo social.
Apago o resto do cigarro. O gato foi embora não sei para onde. Mas deixou um vomitado. Vomitou uma bola de pêlo. E eu nem vi o gato a vomitar. Tenho de ir limpar aquela porcaria. Os gatos são muito limpos mas estão sempre a fazer merda.
Olhe, se faz favor!, mais uma mulher a chamar-me lá de baixo do portão. Por alguma coisa não há campainha à entrada. Mas nem assim. Sim?, pergunto alto para se ouvir bem lá em baixo. Não quer contribuir para a festa? pergunta-me. E eu digo Não gosto de festas! E a mulher vai-se embora. Esta nem levanta a mão. Esta nem responde. Deve achar que eu sou parvo. E eu sou parvo? Se calhar sou parvo!
Houve uma altura em que me sentava ao fundo de um bar, eu e um amigo meu, de pernas cruzadas, os dois, um copo de aguardente à frente, um cigarro nos dedos, a comentar quem entrava no bar. Parecíamos os velhos dos Marretas, a dizer mal de tudo e de todos. Seria ainda assim? Seria eu hoje um tipo assim? Maldisposto? Rezingão? Chato? Azedo?
Com isto tudo já nem sinto o cheiro a terra molhada. Deixei arrefecer o café. Acendo outro cigarro para me acalmar. E digo baixinho Eu não sou um gajo maldisposto! E descubro o gato, que está de regresso, e está a roçar-se nas minhas pernas enquanto mia com ar dengoso.
Ouço bater palmas. Está um jipe da GNR, parado, lá em baixo na estrada. Um guarda bate palmas frente ao portão para me chamar a atenção. Eu olho para ele. E ele diz Precisamos de falar consigo! E eu pergunto-me O que é que foi agora?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/27]

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