Deixa-me Entrar

Eu já estava deitado na cama. Os olhos fechados. Quase a entrar no sono. Quando ouvi bater à porta do quarto, baixinho, suavemente, como para não incomodar. E depois ouvi uma voz pedinchar Deixa-me entrar. Deixa-me entrar no quarto.
Virei-me para o outro lado. Puxei o edredão sobre a cabeça. Mas continuei a ouvir a vozinha dela, suplicante Por favor! Deixa-me entrar.
Ela era chata. Insistente.
Eu já estava à espera que ela entrasse quarto dentro e se deitasse na cama comigo, e se agarrasse a mim, nua, nua agarrada a mim, a dizer-me ao ouvido que tinha saudades. E depois iria querer que fizesse sexo com ela. Claro que ela chamar-lhe-ia amor. Faz amor comigo!, diria. E depois iria fazer-me juras de amor eterno e iria querer ouvir o mesmo.
Por isso fechei a porta.
Só lhe cedi o sofá. Não o quarto. Não a cama. Não a minha cama comigo lá.
Era tarde para regressar a casa, tinha dito. Já não arranjo Táxis na rua, insistiu. Eu disse-lhe Chamo-te um Uber!, mas ela disse que não valia a pena, que ficava bem na sala, no sofá. Nem te incomodo, disse-me num sorriso rasgado.
Mas eu percebi.
Percebi porque foi lá a casa. Porque me levou jantar. E vinho. Duas garrafas. Duas garrafas que bebemos num instante. E num instante as coisas começaram a descontrolar-se. Ela beijou-me. Eu beijei-a. Mas depois afastei-a. E disse-lhe Não!
Não! Fica tranquilo! Não se passa nada!… disse-me. Afagou-me a cara com as mãos enquanto se afastava de mim e se foi sentar no sofá. Mandou-me um beijo à distância. Ligou a televisão. Disparou nas notícias. SICN. RTP3. TVI24. CMTV. Todas no mesmo. Nas mesmas notícias.
Fui à varanda fumar um cigarro. Senti o frio da noite no corpo. Fez-me bem. Entrei em casa. Fui buscar-lhe um cobertor, dois lençóis, uma almofada. Deixei tudo na poltrona. Ela pediu-me um Lexotan. Fui buscar-lhe um. Trouxe-lhe um copo com água. Deixei o copo e o comprimido na mesa de apoio da sala. Afaguei-lhe a cabeça com a mão enquanto me ia embora e disse-lhe Até amanhã.
Não me lembro se ela me respondeu. Acho que não disse nada. Pode ter falado baixinho. Posso não ter ouvido. Mas não dei muita importância. Fui para o quarto. Fechei a porta à chave. Deitei-me.
Estava quase a adormecer quando ouvi bater, suavemente, à porta do quarto. E ouvi Deixa-me entrar. Deixa-me entrar no quarto.
E só me lembro de ter pensado Chata do caralho!
Virei-me para o outro lado. Puxei o edredão sobre a cabeça. Mas continuei a ouvir a vozinha dela, suplicante Por favor! Deixa-me entrar.
Ela era mesmo chata. Insistente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/25]

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