Uma Concentração de Taxistas

Parecia uma concentração de taxistas. A rotunda estava cheia de carros pretos com o tejadilho verde. Estavam todos parados. Parados à volta da rotunda. Mas cada vez mais entravam carros novos. Táxis. Não sei para onde é que se enfiavam. Não via os carros no interior da rotunda mexer. Mas estavam sempre a entrar carros novos. Talvez se encolhessem. Talvez entrassem numa outra dimensão. Talvez fosse uma ilusão de óptica e não entrasse nenhum carro novo. Ou entrava e os carros na rotunda circulavam e eu é que tinha a sensação que não. Não sei. Talvez. É estranho.
Eu entrei na rotunda vindo de cima. Da rua de cima. Queria cruzar a rotunda. Ir para o outro lado. E voltar a subir na rua em frente.
Comecei a caminhar pelo passeio. A circundar a rotunda. Passei pela pastelaria. Pelo quiosque. Pelo carro da polícia estacionado no passeio com as sirenes luminosas ligadas. Passei pelo cinema fechado num edifício degradado. Pelo cabeleireiro africano. Faziam tererés, anunciavam em folhas A4 escritas à mão e coladas à montra virada para a rua.
Eu caminhava ao redor da rotunda mas não conseguia chegar ao outro lado. Era uma linha de horizonte que se afastava ao mesmo tempo que me tentava aproximar.
Ouvi uma primeira buzinadela. Depois outras. Não tardou a que a rotunda começasse numa sinfonia insuportável de buzinas de táxis a soprar alto a sua frustração.
Parei a olhar a rotunda. Os táxis. Os taxistas de mão na buzina. Dedo no nariz. Cigarros entre os dedos. Escarro soprado fora. Para fora do carro através do vidro da janela aberto. Todos em conjunto. Ao mesmo tempo.
Só tive tempo de saltar em frente e entrar dentro de um táxi livre com luz verde. Entrei e gritei É para subir em frente. Ele encolheu os ombros e disse Estamos parados. Há greve dos semáforos. Estão todos vermelhos. Zangado, abri a porta e disse Então fico aqui. Ele desligou o taxímetro e pediu Cinco euros, se faz favor.
Fiquei admirado. Cinco euros porquê? Não tinha andado. O táxi não estava funcional. Abri a porta e saí, irritado.
Nesse momento passou uma motoreta de entrega de pizzas e atropelou-me. Navegando aos esses entre os táxis parados, a motoreta levava umas pizzas para clientes quando me bateu. Fiquei com uma Pizza Bacana (as pizzas eram da Telepizza) tombada na cabeça. O motorista levantou a motoreta e arrancou pela rotunda fora. O taxista saiu do carro, agarrou-me e exigiu-me a pizza como pagamento da corrida. E eu perguntei Que corrida?
O taxista fez-me má cara enquanto trincava uma fatia de pizza. E eu pensei estou a ficar com fome. Estou a ficar com fome, os carros não se mexem e eu não consigo chegar a lado nenhum. Maldita greve.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/08]

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