O Grito

Acordei com um grito. Um lamento de dor. Acordei com uma queixa. Abri os olhos. A escuridão. Tudo o que via era a escuridão.
Estava quieto na minha posição na cama. Deitado direito. Debaixo do edredão. A cabeça na almofada. A olhar para o tecto. Mas não o via. O tecto. Só escuridão.
Parei a respiração. Apurei os ouvidos. Tentei perceber os barulhos. Mas não ouvia nada. Nem o vento se anunciava lá fora. Nem os passos do gato. Nem os do cão. Dormiam, provavelmente.
Mas alguém gritou. Fui acordado por um grito. Um grito de dor.
Posso ter sonhado. Posso ter sonhado com um grito a pensar que era verdade. Posso ter imaginado que acordava com um grito real. Mas não costumo sonhar.
Não consegui perceber nenhum som.
Virei-me de lado. Os olhos fechados. Uma escuridão por outra. Tentei adormecer. E então, outra vez, um grito. Um grito de medo. Agora ouvi. Estou acordado e ouvi.
Levanto-me da cama. Abro as cortinas da janela do quarto. Olho lá para fora. Não há luar. A escuridão sai do quarto para a rua. Não vejo nada. Percebo uns contornos. As árvores. A casota do cão. O baloiço.
Dou a volta à casa. Espreito por todas as janelas. E em todas elas a mesma paisagem. Uma escuridão a deixar adivinhar algum contorno que decifro por conhecer a casa. Sei o que está e onde está. Mas não vejo nada. Quase nada.
E no instante da renúncia, no momento de regressar à cama, no espreitar já sem esperança de ver o que quer que fosse que conseguisse ver naquela escuridão, vejo, através da janela da cozinha, uma mulher em camisa de dormir no jardim. Está parada. De costas para mim. Virada para o fundo. Os braços esticados. Os punhos fechados. Como se estivesse a fazer força. A gerir a raiva. Saio pela porta da rua e percebo que estou nu. Corro ao quarto. Visto uns boxers. Regresso à cozinha. Olho de novo pela janela a confirmar. A mulher continua lá. De costas para mim. E eu saio da cozinha e aproximo-me dela. Agarro-a pelo braço e faço-a virar-se. Faço-a virar-se para mim. A mulher está a chorar. Parece uma mulher velha. Mas percebo que tem a cara enrugada pelo choro. Parece mais velha do que realmente é. Não a conheço. Não sei quem é. Não a posso deixar ali. Não a posso deixar na rua. Puxo-a pelo braço e trago-a para dentro de casa. Quem será?
Entro em casa, mas entro sozinho. Entro em casa e ela fica na rua. Agarro-a pelo braço e puxo-a. Puxo-a para dentro de casa. Mas ela não entra. Não consegue entrar. Não a consigo fazer entrar em casa. Sempre que transponho a entrada de casa a minha mão larga-a e ela fica lá, do lado de fora. Não consegue entrar. Não a consigo fazer entrar. Olho a cara dela. Está assustada. Eu também estou assustado. Porque é que não consigo fazê-la entrar em casa?
E então começa a chover. Começa a chover na rua. Começa a chover sobre ela. E ela começa a dissolver-se na chuva. Começa a desaparecer. A desintegrar-se. Eu corro para fora de casa. Tento agarrá-la. O pouco dela que ainda resta. E acordo aos pulos na cama. Sozinho. Na escuridão.
Eu não sonho. Nunca sonho. Terei mesmo ouvido um grito?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/06]

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