A Importância das Coisas

Ia a correr para casa quando o vi. O formigueiro. Parecia um furúnculo da terra. Saía assim, do chão, como um espigão, para cima.
Baixei-me ao pé do formigueiro e vi as formigas a sair e a entrar. Parecia caótico, mas não se atropelavam umas às outras. Desviavam-se mesmo no limite.
Aproximei-me. Coloquei o dedo indicador da mão direita no caminho de um grupo de formigas. Elas desviaram, contornaram o dedo e continuaram o caminho. Ignoraram-me.
Soprei. Algumas delas voaram um bocadinho. Foram empurradas pelo sopro. Outras perderam momentaneamente o caminho. Deram umas voltas tontas e recuperaram-no. As restantes continuaram em frente, imperturbáveis.
Larguei uma bola de cuspo em cima de um grupo de formigas num carreiro. Algumas foram apanhadas pelo cuspo e lutaram para sair. Conseguiram. As outras limitaram-se a desviar, fazendo uma curva à volta da bolha de cuspo. E indiferentes às alterações climáticas que eu lhes estava a criar.
Procurei um pau fininho. Encontrei uma palhinha. Enfiei a palhinha dentro do formigueiro. Enfiei o mais dentro que consegui e depois puxei para fora. Devagar. A palhinha veio cheia de formigas. Aproximei-as da cara. Abri muito os olhos para as apreciar melhor. Vi-as a espernear. Pareciam chateadas. Cheguei o dedo à palhinha. Algumas das formigas passaram para o dedo. Olhei-o. Meti-o na boca. Senti umas ligeiras cócegas na língua. Engoli.
Passei com dois dedos ao longo da palhinha e puxei as formigas todas para o chão. Estavam tontas. A fugirem cada uma para seu lado. Eu fui pondo o dedo em cima delas. Em cima de cada uma delas. Algumas ficavam coladas ao meu dedo. Outras ficavam simplesmente esmagadas no chão.
Comecei a puxar cuspo para a boca para deixar cair uma bolha de cuspo pela abertura do formigueiro quando ouvi chamar por mim em diminutivo. Era a minha mãe. A minha mãe chamava-me sempre em diminutivo.
Levantei-me e corri para casa.
Entrei em casa. Pela porta da cozinha. Vinha ofegante. A minha mãe estendeu-me um copo de sumo de laranja fresco, acabado de espremer. Tinha outro copo na mão.
E perguntou-me O teu primo?
E eu respondi Caiu ao rio.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/23]

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