O Mês de Agosto em Casa da Minha Avó na Aldeia

Eu devia ter uns dez, onze anos. Não mais. Se calhar, um pouco menos. Era ainda um miúdo. Uma criança.
Estávamos em Agosto. Nesse ano fui passar o mês de Agosto a casa da minha avó, numa aldeia não muito longe da cidade. Mas no campo.
Nessas férias andei aos pássaros. Fiz uma funda e ainda apanhei alguns passarinhos que a minha avó fritou. Roubei uns morangos. E uvas. E a minha avó disse-me que não devia fazer isso mas, já que estava feito, era melhor não desperdiçar. Era pecado desperdiçar. Andei a chapinhar do ribeiro que passava lá perto. E foi precisamente quando fui ao ribeiro que a vi.
Havia um telheiro com tanques públicos, para lavar a roupa, ao lado do ribeiro. E foi aí que a vi.
Eu estava no ribeiro, a construir um forte, quando ela chegou. Chegou com uma bacia de roupa à cabeça. Ela não me viu. Eu fiquei a olhar para ela.
Ela era mais velha que eu. Talvez quinze, dezasseis anos. Tirou a roupa da bacia e colocou-a num tanque. Enxaguou-a. Agarrou num bocado de sabão e começou a esfregar a roupa. Eu aproximei-me do telheiro. Fiquei atrás do muro. A olhar. A olhar para ela.
E vi-a esfregar a roupa. E ela esfregava, esfregava. Com a mão ensaboada afastava farripas de cabelo da cara e acabava por ficar com bocados de espuma no cabelo, na cara.
Mudou a roupa para outro tanque e passou-a por água até tirar o sabão.
Agarrou na roupa toda e voltou a colocá-la na bacia.
Depois enfiou a mão por baixo da bata que vestia, e eu vi a bata a subir pelas pernas, e vi as pernas, e tirou as cuecas. Lavou-as.
Puxou a bata para cima, baixou-se e começou a fazer chichi no rego de cimento por onde passava a água suja que saía do tanque.
Eu fiquei hipnotizado a olhar para ela. Para ela a fazer chichi.
Depois levantou-se e vestiu as cuecas molhadas. Molhadas mas lavadas.
E eu vi a humidade das cuecas molhadas a repassarem pela bata e a formarem o desenho das cuecas.
Pôs a bacia à cabeça e foi-se embora.
Eu fiquei ali um bocado quietinho. Sentado no chão. Encostado ao muro. Não sabia muito bem o que tinha visto.
Durante o resto do mês de Agosto que fiquei em casa da minha avó, regressei todos os dias à mesma hora ao telheiro. Voltei a ver a rapariga. Ela não ia todos os dias, mas foi bastantes vezes. Sempre à mesma hora. E de todas as vezes que ia, lavava as cuecas e fazia chichi. E eu tinha a sensação de estar a ver algo de proibido mas que gostava muito de ver.
Nesse primeiro dia, voltei para casa da minha avó e, pela primeira vez desde que ali estava, peguei n’Os Três Mosqueteiros e, finalmente, comecei a lê-lo. Li-o todo até ao final do mês de Agosto.
Depois daquele mês de Agosto, nunca mais voltei a ver aquela rapariga.
Depois daquele mês de Agosto, nunca mais voltei a casa da minha avó.
Depois daquele mês de Agosto, percebi que a minha vida tinha mudado. E nunca mais fui aos passarinhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/21]

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