O Chocolate

Estávamos ali os dois. Um frente ao outro. Ela em frente de mim. Eu estava sentado no fundo do sofá. Sem possibilidade de fuga. Ela estava de pé. Braços cruzados. Acusadora.
Fazia perguntas. Já não sei que perguntas. Eram umas atrás das outras. Assim de rajada. Como uma metralhadora de perguntas. Eram disparadas à velocidade da luz. Eu não as via vir. Só me apercebia delas quando elas cá chegavam. Mas nem as ouvia. As respostas eram sempre as mesmas. Não sei. Não me lembro. Não me recordo. Não tenho memória disso. Não sei.
Ela estava a irritar-se com as minhas respostas. Sei disso porque percebi o tom de voz a levantar. Sei disso porque vi o pé direito a começar a bater no chão. Nervoso. Como a acompanhar o baixo de uma música punk. Três acordes mas muita raiva.
Tentei livrar o olhar de tudo isto. Ela estava entre mim e a televisão. Estiquei o pescoço para conseguir olhar a televisão. Eu não conseguia fugir, mas podia dispersar a atenção por outros lados.
Não sei se ela percebeu que eu desviei a minha atenção para a televisão. Ela continuou a falar. A perguntar. Eu já sabia que, cada vez que se impunha o silêncio era altura de dar uma resposta. E eu dava. Fosse qual fosse a pergunta. Não sei.
Na televisão estava um tipo com um monte de chocolates em cima de uma mesa. Tinha três chocolates na mão e abanava-os. Os chocolates. A mão abanava os chocolates. Gostava de perceber o que o homem estava a dizer, mas não conseguia ouvir. O som da televisão estava baixo e a voz dela impunha-se sobre tudo. Ainda tentei fugir ao tom dela e tentar apanhar o da televisão, mas não fui capaz. A voz dela mata tudo em redor. O melhor que conseguia fazer era ignorar o sentido do que dizia. Percebia que falava. Ouvia-a falar. Mas não percebia o que estava a dizer. Não importava. Importava só a resposta. Não sei.
Depois, alguém que parecia o presidente do Brasil, pegou num dos chocolates que o outro tipo tinha na mão, tirou-lhe o papel, não sem alguma dificuldade, diga-se, e comeu-o. Não podia ser o presidente brasileiro. Ele não ia para a televisão comer chocolates. Ou ia?
Levantei-me do sofá. E então, ouvi-a pela primeira vez. E ela perguntou Onde é que vais?
Eu não percebi logo, mas acabei por perceber. Ela estava a meio de uma comissão de inquérito sobre qualquer coisa que já não recordo. As minhas respostas não eram satisfatórias. Acho. E ela ficou irritada por eu me ter levantado do sofá com intenção de sair da sala. E perguntou Onde é que vais?
E eu disse que ia buscar um chocolate. De repente apetecia-me um bocado de chocolate. E ela disse Não há chocolate cá em casa. Nenhum de nós gosta de chocolate. O que é que te deu?
Sim, o que é que me deu? Porque é que queria chocolate? Ela tinha razão. Eu não gostava de chocolate. Nem ela.
E disse-lhe Vou buscar um copo de vinho. Queres? E ela disse Sim. Traz também os cigarros.
E ainda a vi sentar-se no sofá antes de sair da sala para ir buscar dois copos de vinho e o maço de cigarros. Não podia esquecer o cinzeiro que estava no lava-loiça a secar.
Hoje apetecia-me sexo. Apetecia-me ir para a cama com ela. Será que ela queria ir para a cama comigo? Era por isso que queria um copo de vinho? Queria libertar-se?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/10]

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