Um Beijo e o Chá de Hibisco

Ela baixou-se e deu-me um beijo. Baixou-se ao pé de mim. Eu senti-a chegar antes de a ver. Senti-lhe o cheiro. Uma mistura de várias especiarias que tinha estado a utilizar na preparação do jantar, mas por cima, por cima de tudo isso, o perfume, o perfume floral que costuma utilizar e que já conheço. Cheirei-a e percebi que ela vinha lá. Depois baixou-se e deu-me um beijo.
Deixou-me um chávena de chá juntamente com o beijo. Uma chávena com chá de hibisco a fumegar. Deu-me primeiro o beijo. Os lábios dela nos meus. Ainda senti a língua atrevida a sair por momentos da sua boca e tocar, levemente, nos meus lábios. Depois largou a chávena com o chá na mesa. Ao lado do computador. Sorriu-me e voltou para os seus afazeres. Eu estava nos meus.
Eu estava na cozinha. Sentado à mesa da cozinha. Via-a a cirandar em volta do fogão. Ia à despensa. Voltava com coisas. E eu sei lá que coisas! Coisas! Caixas de plástico. Saquinhos. Embrulhos. Depois continuava de costas para mim. Em volta do fogão. Às vezes ficava uns tempos na bancada ao lado do fogão. A fazer coisas. Sentia os gestos. Os braços a mexer. Sempre de costas para mim. Abria uma gaveta. Outra. Uma porta do armário. Abriu o forno e vi sair de lá uma nuvem de fumo. E pensei Está tudo estragado! Deixou queimar! Mas, estranhamente, ela continuava na sua normalidade de um lado para o outro. Calma. Não sentia cheiro de queimado. Afinal, não se passava nada. Eu é que me precipitei. É claro que ela tinha tudo sobre controle. Sabia o que fazer. Ela era mesmo um mestre na cozinha. Mesmo quando era eu a cozinhar, nunca se afastava muito. A dada altura sabia que eu ia pedir isto. Ou aquilo. Perguntar se não tinha. Se ainda tinha. Se por acaso. Ou então. E uma sugestão? E ela estava sempre pronta para ajudar. Cobrir as necessidades. Completar. E sabia sempre como.
Olhava-a nessa azáfama e não conseguia fazer o que tinha de fazer. Eu.
Os dedos estavam em cima do teclado do computador. Procuravam letras. Queriam escrever palavras. Formar raciocínios. Mas os dedos não se mexiam. Não havia letras nem palavras nem raciocínios que me fizessem mover. E ia olhando para ela. Ela não tinha os mesmo bloqueios que eu. Estava sempre à frente das suas necessidades. Nunca ficava um minuto parada a pensar E agora?! O que faço agora?! Não! Ela antecipava sempre as suas necessidades. E também as dos outros. As minhas.
Foi assim que eu a cheirei a aproximar-se de mim quando estava entretido a olhar o site de A Bola à procura de inspiração. Ela chegou e deu-me um beijo. E depois largou-me uma chávena de chá de hibisco em cima da mesa, ao lado do computador. E eu fiquei a apreciá-la a afastar-se, de regresso à bancada onde terminava de fazer o jantar, mas onde ainda tinha tido tempo para me fazer um chá. E eu vi-a ir. E apreciei-a. O corpo. Olhei-lhe as ancas a ondular enquanto se distanciava. O rabo. Ela tinha um belo rabo! E dava gosto olhá-lo. Olhá-la.
Bebi um pouco de chá de hibisco. Soprei a fumarada da água a ferver e bebi um pouco do chá.
Depois estalei os dedos das mãos e comecei a escrever por ali fora. Sem parar.
Não dei pelo tempo passar.
Só dei por mim quando a ouvi dizer Anda jantar. E fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/06]

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