Cabra-Cega

Desço as escadas. Desço as escadas às escuras. Arrisco partir a cana do nariz. A cabeça. Uma perna. Mas continuo.
Desço as escadas às escuras. Confio que conheço as escadas do prédio onde vivo. Mas espero, secretamente, cair.
Desço as escadas às escuras e desejo cair. Mas não o faço. Conheço demasiado bem estas escadas. Podia descer de olhos tapados. É mais ou menos como vou a descer agora. São escadas interiores. Não há sensores de movimento para as luzes. É preciso tocar em botões que não estão iluminados. É preciso adivinhar onde é que eles estão. Eu sei onde é que estão. Mas não lhes toco. Não acendo a luz. Vou às escuras.
Desço as escadas desde lá de cima onde vivo. Já nem sei em que andar é. Sei que é perto das estrelas porque há dias em que quase as toco. Fica lá em cima. Fica muito lá em cima. Quando olho as pessoas da minha janela, parecem formigas, não pessoas. As pessoas não são pessoas. São formigas. Umas-atrás-das-outras. Encarreiradas. Encarreiradas na vida. Nos amores. Na carreira profissional. O que é que fazes? Em que é que trabalhas? Como é que ganhas dinheiro? Não me queres escrever uma história? Não me queres fazer um filme? Não me queres fazer uma música? Não tenho é dinheiro para te pagar! Só há dinheiro para mim! Para te perguntar! Não! Mas isso nem é trabalho! Estás a fazer o que gostas!
Desequilibro-me. Mas não caio. Tropeço nas minhas pequenas loucuras existenciais. Mas não caio. Aguento-me. Digo não. Apoio-me à parede e continuo para baixo. Desço as escadas. Às escuras. A provocar-me. A mim e a Deus. Queres que eu caia? Passa-me uma rasteira! Mais uma! Só mais uma! Queres ver?
Nada acontece. Vejo os primeiros clarões da luz da rua a subir as escadas ao meu encontro. Já vejo onde coloco os pés. Já vejo os degraus. Era mau cair agora. Irónico, talvez.
Rés-do-chão. Aproximo-me da porta da rua. Agarro no manipulo. Respiro fundo. Uma vez. Duas vezes. E abro a porta. Saio.
Está a chover. A chover aquela chuva dos tolos. Pingos demasiado leves e pequenos para caírem a direito. Vêm a voar. São borrifos. Olho para cima. Para o céu. Sinto-os tombar sobre a minha cara. Não me molham. Refrescam-me.
Acendo um cigarro. Inspiro fundo uma baforada. Inspiro fundo duas baforadas. Coloco as mãos nos bolsos das calças. O cigarro no canto da boca. Fecho os olhos. Caminho ao longo da passeio. Ouço os carros a correrem ao meu lado. Vão com pressa. Vão sempre com muita pressa. Eu conheço o caminho até à livraria. Vou lá todos os dias comprar um livro de poemas. Um livro de poemas de algum poeta desconhecido que escreve como vive. Que escarra frases. Que cospe vida. Com a fralda na mão. Que corta, à faca, os laços da paixão. E sigo pela calçada fora. De olhos fechados. À espera de não tropeçar. De não cair. De não ir para a estrada. De não ser atropelado. E, ao mesmo tempo, com essa secreta esperança.
Mas hoje não quero poetas. Hoje não quero poemas. Hoje quero uma mulher. E sinto o pé direito sair do passeio para a estrada. Ouço o som do carro. Um chiar. Uma buzina. Um orgasmo. Já é vinte e cinco de Abril?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/04]

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