Três Cartazes à Beira da Estrada

Vinha a descer a estrada de S. Jorge para a Batalha, ali na antiga EN1, estrada que prometia ser protegida para proteger o Mosteiro, estrada que seria protegida desviando o grosso do trânsito, em especial os camiões que vêm de Pataias, Chão Pardo, Cruz da Légua, Cumeira e Albergaria, para a A19, quando decidiram que a A19 era a pagar e, afinal, o trânsito que era para ser desviado continuou a fluir pelas mesmas vias de comunicação de sempre, passando por ali, junto ao Mosteiro, quando vi a cabeça do Nuno Melo, sim, esse que estão a pensar, a cabeça dele a berrar-me à vista Portugal. A Europa é aqui., e assustei-me com o berro visual, a cabeça do Nuno Melo e com o que ele queria dizer com aquilo, que me ia enfaixando no próprio cartaz, ali plantado à entrada da Batalha, na curva que a EN1 faz à esquerda para continuar para Leiria e em frente vai-se para a terra onde D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, tem estátua equestre em clara afronta aos espanhóis. Que Europa?
Evitei, in extremis, o choque com o rapaz do CDS e segui em frente, para Leiria, a pensar se a Europa era ali a Batalha (porquê a Batalha?) ou o rapaz Nuno Melo, o da melena capilar (porquê o Nuno Melo?), quando pensei que, afinal, podia ser um cartaz para as eleições europeias mas a mensagem era errada ou então eu já não percebia nada disto: não foi a Batalha, como S. Jorge e Aljubarrota, símbolos da portugalidade contra Castela? Espanha? Europa?
Na verdade não queria muito saber disso. Só me irritei por o ver aos berros para mim que vinha descansado, a pensar, junto com os meus botões, na morte da bezerra, a descer a estrada para ir à minha vida.
Mais à frente, em Santo Antão (há muitos santos nesta zona, mas poucos milagres!), reparei que a Aldeia, um famoso restaurante onde antigamente os Leões de Alvalade faziam a sua festa já não era a Aldeia, mas um restaurante chinês do qual não decorei o nome mas reparei que era Buffet com grande variedade de Sushi e fui levado a concordar com as pessoas que clamam que Leiria é a capital mundial do Sushi, que basta chutar uma pedra do calçada e lá está uma peça de peixe cru, porque na verdade é mais fácil encontrar Sushi que Morcela de Arroz em Leiria. De qualquer forma admirei-me porque o novo restaurante chinês de Buffet com grande variedade de Sushi está já para trespasse, assim dizia o enorme cartaz colocado no parque à frente do restaurante para bem se ver da estrada de velocidade controlada porque dantes havia por lá muito acidente.
Fiquei a pensar que a culpa disto tudo era do Nuno Melo que anda lá fora a ganhar a vida e, de repente, apeteceu-me uma Aldeia Velha e pensei que a televisão cria vícios.
Parei o carro. Já não sabia para onde é que ia. Nem sabia de onde é que vinha. E que raio estava eu ali a fazer? Em Santo Antão? Quem é que vai a Santo Antão? O que é que se pode fazer em Santo Antão? E então, vi. Vi o enorme cartaz (outro) com seta a indicar-me a porta para que não passasse despercebida: Baila Comigo “como se baila na tribo”. Danceteria. E um parque repleto de camiões. Há lá melhor que uma discoteca vespertina para gente com idade avançada? Lembrei-me ao que ia. Tentar dançar com uma velhota que ainda tivesse dentes e a anca inteira.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/02]

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