Águas-Furtadas

Estou a meio das escadinhas. Dobro o corpo sobre mim. Tento recuperar a respiração. É cansativo subir estas escadas da cidade. Olho para cima e não lhes vejo o fim. Imagino os velhos que foram envelhecendo a subir e a descer estas escadas. Imagino os velhos mortos antes de tempo. Mortos aqui nestes degraus. A transpirar nos dias de calor. A escorregar nos dias de chuva. A mão agarrado ao peito. Aqui, assim, onde está o coração. Porra!, que canseira subir estas escadas.
Agarro-me ao corrimão central. Recupero o fôlego. Ergo o corpo. Viro-me para trás para contemplar a minha conquista e vejo um mar de telhados que se prolonga pela cidade fora até ao rio.
Esta é outra cidade. Uma cidade feita de telhas, telhados, varandas, quintais com pequenos jardins aéreos, piscinas e agora, os famosos roof tops, bares com vista sobre a careca do povo que não ousa ascender.
Vejo muitas janelas. Janelas que se erguem dos telhados. Como furúnculos. Claraboias. Telhas de vidro. De acrílico. A cidade a pôr-se na ponta dos pés. Aproveitar a casa até ao limite. Como um osso.
Gosto muito de águas-furtadas. Já vivi em águas-furtadas. Por duas ou três vezes vivi em águas-furtadas. Guardo boas memórias dessas casas. Dos locais onde estavam erguidas. Dos bairros castiços. Da arquitectura dos seus espaços. A volumetria. Os desenhos interiores. Até das paredes tortas. E as telhas quebradas.
Uma dessas casas tinha um pé-direito de várias alturas. Algumas delas obrigavam-me a dobrar as costas. Mas tinha uma vista fabulosa sobre a ponte. Sobre o Tejo. Sobre o Cristo-Rei. Era uma casa de legos. As divisões sucediam-se umas às outras, ordenadas. Casa-de-banho. Cozinha. Sala. Quarto. Escritório que também era biblioteca, arrumação, quarto-de-vestir, de visitas e de tudo o mais que se pudesse imaginar. Era quase metade da casa. Um corredor comprido cozia todas as divisões. Mas era muito fria no Inverno. Era muito quente no Verão. E foi este o motivo de a deixar. Custou-me bastante deixar a casa.
Há poucos anos passei por lá. Ergui a cabeça até lá cima. Ao último andar do prédio. A janela do antigo escritório estava aberta. E saíram inúmeras memórias do tempo em que lá vivi. As memórias boas, claro. Das más não me reza a história. Acabei a ler a placa que me informa que ali viveu o Alfredo Marceneiro, e sinto uma pontinha de saudade. Podia informar que eu também lá vivi.
A outra casa era uma espécie de refúgio de um homem casado. A casa para onde levava as amantes. Mas o tipo envelheceu. A pila deixou de lhe dar ordens. Deixou de se agitar com as jovens beldades que lhe passavam à frente. Entretanto, cansada, a mulher ameaçou-o com o divórcio e em ficar-lhe com tudo o que tão avaramente amealhou ao longo da vida. Arrendou-me a casa. Também lá levei mulheres. Mas as minhas eram namoradas. Também eram amantes. Mas não era proibido. Não estava a cometer nenhuma infidelidade. Só a dar azo a todo o amor que tinha para dar na minha furiosa juventude, oh! raio onde é que ela já vai!
Esta casa tinha a particularidade de ter uma pequena janelinha, no cubículo do duche, aberta sobre a baixa da cidade. E que bonita era a cidade vista dali e o que me deliciava quando eram duas caras, coladas lado a lado, em êxtase, a apreciar a beleza do nascer do dia depois de uma noite sem pregar olho.
Sorrio enquanto recordo esta última casa e algumas das mulheres que por lá passaram. Lembro-me perfeitamente de algumas delas. Outras, já nem sei quem foram. Já foram perdidas. Mas as que me lembro, as que teimam em regressar, de tempos-em-tempos em forma de memória, essas deixam-me satisfeito e em paz com a vida que vivi.
Já tenho a respiração normalizada. Dou uma última olhadela ao mar de telhados laranja da cidade. E viro costas. Preparo-me para atacar o resto das escadinhas. E maldizer a cidade pelas suas sete colinas.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/29]

Em Viagem Pelo Metropolitano

Desço às entranhas da cidade. Desço as escadas do Metro. Já não sei qual é a estação. Mas não importa. Gosto das estações do Metro de Lisboa. Acho mesmo que foi a última grande beleza que tombou nesta cidade. Gosto das estações construídas para a Expo ‘98. Gosto das novas estações que já surgiram depois disso. Também gosto das estações mais velhas. Não, velhas não. Vintage. Que porra de palavra bonita. Gosto desta apropriação. Vintage. Gosto das estações do Metro de Lisboa. Mas acho que a viagem, comprada à unidade está cara. Lisboa é em Portugal. Não em Inglaterra. Não na Alemanha. Aqui, o salário mínimo é mesmo mínimo. As experiências subterrâneas são caras.
Desço às entranhas da cidade. Entro no Metro. Não espero muito tempo. Surge um comboio. Entro na carruagem. Não sei para onde me leva. Mas vou. Escolho, à sorte, percorrer cinco estações. Saio na quinta.
Fecho os olhos. Vou contando as paragens. Na quinta vez que sinto o comboio parar levanto-me da cadeira e aproximo-me da porta. Encosto a mão à porta e volto a fechar os olhos. Quero sair sem saber onde. Mas de repente ouço. Ouço uma voz digitalizada de mulher que me informa do nome da estação. Fico irritado. Tenho o jogo estragado. Percebo que a voz sempre esteve lá e eu é que não a ouvia. Porque raio tinha de a ouvir agora? Logo agora que ia sair?
Abro os olhos. Perdi o interesse neste jogo.
A porta abre e eu saio. Subo escadas. Subo escadas a pé. Não há escadas-rolantes. Há, mas não há. Não estão a funcionar. Estão desligadas. Avariadas. Em poupança. Lisboa-modelo mas em poupança sempre que possível. Pelo menos onde não se paga. O preço com ou sem escadas-rolantes é sempre o mesmo. Um tipo paga. Paga e não bufa.
O telemóvel toca. Olho o visor. Não reconheço o número. Atendo. Alguém. Alguém que quer um texto. Um texto sobre qualquer coisa. Já nem sei sobre o quê. Mas não há pagamento. Nunca há pagamento. Escrever não é trabalho. Não dá trabalho. Escrever é um prazer do ego. Há sempre alguém disposto. Não tenho tempo, digo.
Desligo o telemóvel.
Estou irritado.
Foda-se. Acabo de subir as escadas. Estou sem fôlego.
Estou na rua. Olho em volta. Estou no meio de enormes prédios. Tem ar de cidade dormitório. Onde raio é que eu estou? Que parte de Lisboa é esta? Os prédios têm um ar mais-ou-menos novo. Não é feio nem bonito. É! São! Casas. Apartamentos. Torres gigantes como um pé de feijão.
Apetece-me voltar às entranhas da cidade. Mas ainda estou zangado com o Metro por me ter estragado o jogo.
Arranco a pé pelo labirinto daqueles prédios gigantescos que me roubam a vista do belo céu azul.
Foda-se para mim que nunca estou satisfeito com nada! Tudo é um problema. Uma chatice. Sou um chato do caralho. Preciso de um cigarro. Um cigarro e um copo de vinho tinto alentejano. Preciso de beber. Tenho sede. Porra! Nunca estou bem. É preciso paciência para eu me aturar.
Mais tarde…
Mais tarde subo o Chiado. Cruzo-me com um homem, um rapaz, deitado no chão, deitado em cima de um cartão de uma caixa desfeita, sobre o chão. Tem um copo de plástico, daqueles de cerveja, na mão. Não sei se está a pedir esmola se lhe acabou a bebida. Olho para ele. Descubro-lhe uma pulseira electrónica no tornozelo. Tem escrito Meo em letras garrafais. São as letras que me chamam a atenção para a pulseira electrónica. Sigo em frente. As outras pessoas também. O rapaz continua deitado sobre o cartão. Acho que está desacordado. Pode não ser nada. Pode estar só a dormir. Pode ser só isso. Pode estar a dormir na cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/28]

De Regresso a Lisboa

Há muito que não descia a Lisboa. Desci. Sinto-me perdido. Onde está a cidade?
Descubro-me num parque de diversões em jeito do Mundo Disney. Papás e mamãs de calções e sapatilhas leves, super-leves, de rede respiratória para aguentar sem chulé todos os quilómetros acima e abaixo à procura da nova sensação-oferta criada por mais um destes empreendedores que transformam a cidade, carregam as mochilas com garrafas de água e sanduíches feitas nas kitchenettes porque a cidade está cara mesmo para quem a visita vindo de países mais ricos que este, enquanto empurram carrinhos-de-bebé e se passeiam de mãos dadas com crianças pequenas. Lisboa é uma cidade familiar. Uma feira. Uma diversão.
Pareço-me velho e rezingão. A culpa é minha por não acompanhar os tempos? Ou tenho de aceitar tudo o que é novo?
Não tenho direito a gostar do que gostava? Ou do que gosto? Não tenho direito a ter opinião negativa sobre o sucesso turístico de uma cidade que também era, foi, minha?
Ora porra!
Passo no Martim Moniz. Não reconheço a Praça. Ainda lá estão os indestrutíveis centros comerciais multi-étnicos. Mas não é isso que chama a minha atenção. O que me chama a atenção é a fila, filas?, tenho dificuldade em distinguir, enorme de gente para apanhar o 28, o Eléctrico dos carteiristas. De repente Lisboa parece Madrid, o Martim Moniz parece o Paseo do Prado e o 28 o Museu do dito com a exposição do Bosch. Cada um dá a cultura que consegue.
Lisboa está uma feira.
Há uma Padaria Portuguesa a cada esquina. Refugio-me na Mouraria. Como um velho e saboroso kebab. Nada como reencontrar velhos amigos. Sei que vou arrotar azia. Mas sei já com o que conto. Sei como a tratar. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. Não vá o Diabo tecê-las. Estou prevenido.
Ponho-me a subir a rua. Vou atrás dos cheiros. As especiarias. Cruzo-me com gente a carregar malas e malinhas com rodinhas. O barulho característico prolonga-se ao longo da Mouraria. Vêm de Alojamentos Locais. Vão para Alojamentos Locais. Vêem-se placas se acrílico um pouco por todo o lado. É epidémico. Entre indianos e vizinhos asiáticos, e turistas de mala com rodinhas, câmara fotográfica pendurada ao peito, camisas havaianas, calções, sapatilhas, mas também chinelos, pergunto Onde estão os portugueses?
Viro à direita. Perco-me por ruas pequenas. Vazias. Alguns restaurantes étnicos às moscas. Não há turistas por aqui. O circuito turístico tem os seus próprios mapas. Há silêncio. Ouço os meus passos. A minha respiração. Subo. Depois desço. Aqui ainda resiste uma pequena Lisboa-cidade-do-mundo. Regresso ao Martim Moniz pelo outro lado.
Vejo um monte de gente. Estrangeiros. Trabalhadores das redondezas. Gritam. Aproximo-me. Sou curioso. Vejo um homem sentado no chão. Três polícias municipais em volta dele. Respiram com dificuldade. Percebo que estiveram a correr atrás do homem. As pessoas que observam gritam. Gritam para o homem. O homem está algemado. Tem um casaco caído pelas costas abaixo. Está descomposto. Dois polícias agarram nele e levantam-no. O povo grita. Um burburinho que vai crescendo. Os turistas olham, curiosos. Como eu. Sinto-me um turista. O homem diz qualquer coisa a um dos polícias. Ele leva a mão atrás e dispara uma estalada na cara do homem algemado. Rebenta-lhe o sangue do nariz. E dos lábios. O povo exulta. Está na arena. Vejo-lhes as bocas a espumar. Raiva. Ódio.
A polícia leva o homem para a estrada, junto ao carro da polícia municipal. Sentam o homem no chão. Algemado.
Eu viro costas. Penso que Lisboa, afinal, não mudou assim tanto. Não é uma cidade perigosa. Nunca foi. Mas é uma cidade grande. Uma cidade grande como todas as cidades grandes. Um cidade pulsante. Às vezes também precisa de respirar. Respirar fundo. E fazer asneiras. Para aliviar.
Vejo chegar um carro da PSP. Vem à ocorrência. Vem buscar o homem algemado. Vão levá-lo para alguma esquadra. Depois apresentado a um juiz. Depois eu já não olho para trás. Sigo em frente. Tento encontrar um cantinho em Lisboa livre de turistas. Tento encontrar um cantinho em Lisboa que me recorde a Lisboa que conheci. Mas acho que não tenho sorte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/27]

Sentado no Escuro da Plateia

Estou sentado na plateia. Escondido no escuro. Não propriamente escondido. Estou em silêncio, sentado no fundo de uma cadeira no meio da plateia, anonimamente plantado de forma a que se esqueçam de mim. Sabem que eu estou ali, mas devem perder-me. Devem ignorar-me.
Olho o palco iluminado. Ainda não é o desenho de luz da peça. Mas está iluminado. Os actores movimentam-se. Os actores, meio dentro do corpo das personagens que representam, movimentam-se pelo palco. Estão em casa. Na vida. Numa vida. São verdade e mentira. Existem e não. Mas existem sempre. Mesmo quando mentem e dizem que não existem. Que são ficção. O que é a porra da ficção senão retratos reais?
Um deles dá um berro.
Eu dou um pulo na cadeira onde estou enfiado.
O encenador, sentado perto do palco, vejo-o de perfil, está atento. Não lhe vejo nenhuma emoção. Não sei se está contente com o trabalho que está a executar. Não sei se está contente com a interpretação que os actores estão a fazer da sua escrita representativa. Mas está atento. É a única coisa que consigo perceber. Ele está atento. Muito atento.
Há duas miúdas que se abraçam. Sinto-lhes os peitos a saltar enquanto pulam no palco. Há uma terceira mas está afastada. Espera. Espera pelo nascimento da sua personagem na cronologia da peça. Aparecem dois rapazes. Falam alto. Gesticulam muito.
Sinto-me afastar da história. Do ensaio. Ainda vejo uma miúda beijar a outra na face. Vejo-a ruborizar? Os olhos fecham-se. Não é desinteresse. Estou cansado. Despertei muito cedo. Por vezes acontece-me. Acordo e não consigo voltar a dormir. Hoje aconteceu. Acordei eram quatro da manhã. Acordei a uma hora a que costumava deitar-me. Se calhar é isso. Tenho uma longa relação com as quatro da manhã. Antigamente deitava-me. Agora, levanto-me.
Sinto-me embalado. As vozes dos actores são uma balada que me embala para Slumberland.
E de repente Amigos da Revolução. Ouço perfeitamente dizer, alto e claro Somos amigos da Revolução. E desperto. Percebo onde estou. O que estou a ver. A peça. Os actores. O assunto. Fala-se de revolução.
Endireito-me na cadeira. Tento manter-me acordado. Tento tomar atenção ao ensaio da peça. No palco parece haver um happening. Actores felizes. Personagens positivas. Há festa. Uma festa revolucionária? Sorrio. Estou perdido na cronologia.
Chega um grupo de militares. Ou, pelo menos, militarizados. Um deles, talvez o mais graduado, cospe palavras azedas para o palco. Sinto muita veracidade no que vejo. Desperto completamente.
Os soldados cercam as personagens civis. Estão assustadas. Gosto destes actores. São viscerais. Um deles está completamente branco. Dir-se-ia morto de medo. E então, uma rajada de metralhadora para o ar. Umas placas de esferovite, colocadas no tecto para cortar a reverberação do som, são pulverizadas e chove bolinhas de esferovite sobre o palco. Sobre os actores. Sobre as personagens.
Assusto-me. Sinto tudo demasiado real. Os tiros pareciam mesmo tiros. Tiros a sério.
Um dos actores salta do palco, desesperado, e começa a correr pelo meio da plateia. Um soldado aponta uma metralhadora e dispara um rajada. O actor é atingido. Dá mais três ou quatro passos aos trambolhões. E vem cair ao pé de mim. Aos meus pés. E vejo o sangue que lhe sai de vários buracos do corpo. Ainda lhe vejo os olhos a olharem-me. A pedirem-me ajuda. E eu sem saber o que fazer. Como reagir. Vejo o sangue fluir em golfadas. Ouço os berros dos militares no palco. O medo estampado na cara dos actores que despiram as personagens. Agora as personagens são mesmo os actores. E representam-se a eles próprios. E sentem a vida fugir-lhes. E eu com eles. Como eles.
O que é que está acontecer? O que é que nos está a acontecer? Quero acordar!

[escrito directamente no facebook em 2019/04/26]

Não Desci a Avenida por Causa do Jackie Chan

Era vinte e cinco de Abril e eu queria ir à manifestação. Queria descer a Avenida de cravo-na-mão. Porque se pode descer a Avenida de cravo-na-mão em dias certos. Ou no vinte e cinco de Abril ou na festa do Continente. Não vou à festa do Continente. Mas vou no vinte e cinco de Abril.
Levantei-me cedo. Tomei o pequeno-almoço. Mudei os lençóis à cama. Aspirei a casa. Reguei as flores da varanda. Pus uma máquina de roupa a lavar.
Depois fui tomar banho. Lavei o corpo com sabonete Patti. Lavei o cabelo com Linic. Desodorizei os sovacos com Basic Homme da Vichi. Olhei pela janela da casa-de-banho para a rua e estava a chover.
Merda!
Chovia que Deus-a-dava. O céu cinzento. Carregado de nuvens escuras.
Desanimei.
Vesti o fato-de-treino. Fui fumar um cigarro para a varanda. Com cuidado para não me molhar. Podia ser que parasse. Sim, talvez parasse.
Mas não parou.
Acabei o cigarro. Deitei a beata fora. Voltei para dentro de casa. Sentei-me no sofá. Liguei a televisão. Apanhei com um filme do Jackie Chan. Fiquei a ver.
Afundei-me no sofá. Eu e o Jackie Chan.
Quando voltei a olhar pela janela, descobri o sol. Tinha parado de chover. Veio o sol. São Pedro queria que eu fosse à manifestação. Boa. Ia levantar-me. Ia levantar-me mas não me levantei. Continuei enfiado no sofá. A olhar para o Jackie Chan. Ainda espreitei várias vezes para o sol através da janela. Mas não consegui levantar-me.
O Jackie Chan fazia das suas no filme que passava na televisão. Mas eu já nem conseguia rir. Sentia um peso na consciência. Mas não me serviu de nada. Devia ter-me levantado. Devia. Mas não levantei.
O dia correu.
Perdi o interesse no Jackie Chan.
Acabei por adormecer deitado no sofá.
Quando acordei já era noite. Sentia-me um pouco mal-disposto. Tinha o estômago às voltas. Doía-me a cabeça. Apetecia-me vomitar.
Acabei por me levantar. Com muito esforço. Pensei em ir à casa-de-banho vomitar. Mas fui antes para a varanda fumar um cigarro. Achei ser mais urgente.
E depois, enquanto fumava um cigarro na varanda e via passar gente contente com cravos na mão, pensei A vinte e cinco de Abril não fui à Avenida por causa do Jackie Chan. Mas em Maio, em Maio tenho de ir ao Marquês comemorar a vitória do Benfica.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/25]

Revolução? Qual Revolução, Meu Capitão?

Era hoje.
Era hoje à noite. Eu já andava em pulgas. Há semanas que andava em pulgas. Era hoje que eu ia deixar de ser virgem. Um colega tinha prometido ir comigo às putas da Rua Direita. Perder a virgindade antes de abalar para o Ultramar. Comer uma rata antes de ser comido pelos turras.
Andei semanas a preparar esta noite. A saída desta noite. Vinte e quatro de Abril. Mil nove e setenta e quatro. Ia ficar para a história. Para a história da minha vida. A noite em que me tornei homem. Até comprei um sabonete Lux. Aquele das estrelas. Queria ir cheiroso para os braços da minha primeira mulher.
Passei o dia nervoso.
Até pensei que me ia mijar todo na parada.
Estive horas debaixo do chuveiro. A ensaboar-me. Até gozaram comigo, aqueles cabrões dum raio.
Passei a roupa a ferro. Nem um vinco. Nem uma nesga. Tudo limpo e bem passado a ferro. As botas engraxadas e escovadas. Tão brilhantes que me ofuscavam a vista. Se tivesse bigode também o teria aparado e penteado. Mas não tenho. Não tenho bigode. Mas fiz a barba. Não que precisasse muito. Tenho meia dúzia de pêlos no buço. Mas um rapaz que quer ser homem… Um rapaz que vai ser homem tem que fazer a barba até não ter nenhum pêlo na cara. Pelo menos que passe no teste da folha do sargento.
E foi quando já estava a salivar. Foi quando já estava a antecipar a noite em que ia ser homem. Quando já tinha contado três vezes o dinheiro que levava no bolso. Para pagar. Para pagar o que teria de pagar e não mais do que teria que pagar. Já tinha comprado mais um maço de cigarros. Estava a fumar muito. Eram os nervos. A excitação. A antecipação. E foi nessa altura, de cigarro no dedo, olhos brilhantes e expectativa ao rubro que caiu a notícia. Todas as saídas revogadas. Não havia licenças para ninguém. Porra!
Havia qualquer coisa. Não sabia o que era. Mas havia qualquer coisa. Qualquer coisa que me fodeu a noite. Raios partam estes gajos, pensei eu.
Despi a farda de saída.
Preparei a arma. A mochila. Avisaram-nos Vamos como se fossemos para a guerra. Raios os partam. Está bem! Está bem!
Reunimos com o capitão. E ele disse Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. O estado socialista, o estado capitalista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos embora para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!
Saímos e formámos. Até parecia mal. Virei-me para baixo, para a braguilha fechada e disse Olha, fica para a próxima!
Arrancámos em coluna.
Íamos para Lisboa. Nunca tinha estado em Lisboa. Queria conhecer a capital. Ouvi dizer que também havia miúdas giras em Lisboa.
Chegámos a Lisboa. Ruas largas. Casas muito altas. Muitos carros. Muitas luzes. E eu com uma enorme vontade de mijar.
A coluna parou num semáforo vermelho. Decidi aproveitar. Disse ao meu colega do lado Vou só ali verter águas! Já venho! e abalei. Enfiei-me entre dois carros. Bonitos, os carros. E comecei a mijar.
E então ouvi-o chegar à minha beira. E disse-me Isto lá é hora de mijar, soldado? Vamos embora que a revolução não espera por nós.
Eu virei-me para trás, ainda a fechar os botões das calças, e perguntei Revolução? Qual revolução, meu capitão?

[escrito directamente no facebook em 2019/04/24]

Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]

Ainda Aqui Estou à Espera, a Salivar

Era novo.
Tinha dezasseis anos. Dezoito. Vinte. Finquei os pés no chão. Queria o que queria. E ia fazer tudo pelo que queria.
Fartei de correr. Agarrei com unhas e dentes. Parti dedos. Feri a boca. Sangrei o coração. Desloquei o maxilar. Insisti.
Entre o tempo, os dias magros de chuva miudinha e as noites negras, de lâmpadas fundidas, passei muito tempo no Estádio. Sentado solitário a uma mesa cheia de gente no meio de outras mesas. Outras mesas todas cheias de gente. Sempre muita gente.
A cabeça pendente sobre o peito. A enrolar um cigarro. A enrolar um charro. A agarrar uma média Sagres. A beber pela garrafa. Nunca beber imperial no Estádio. Nunca.
Entrava lá sossegado. Silencioso. Na companhia das mulheres do bairro que ainda restavam por ali, àquelas horas vespertinas. Ainda tão cedo e vazio que ouvia o eco da minha voz quando pedia, de forma sonora, uma cerveja. Um brandy Croft quando mais abonado de dinheiro. Macieira quando as coisas corriam mal. E tanto que elas corriam mal.
De tempos-em-tempo, um renovar de esperança. Um recomeço. O corpo a perder a postura do falhanço. Re-crescia centímetros. Os que tinha perdido. Voltava a ser gente. Voltava a ser grande. Enorme. O mundo era meu e estava pronto para o devorar.
Mas…
Estou velho.
Já tenho… Já nem sei quantos anos tenho. Muitos, com certeza. Perdi-lhes a conta.
O Estádio já não existe. Já não se fuma nos sítios onde perdemos as horas da nossa vida. Nem eu fumo já. Nem cigarros, nem charros. Troquei a cerveja, o brandy Croft e a Macieira pelo copo de vinho. Copo de vinho tinto. Que pode ser de pacote. Capataz. Cinco euros a caixa de cinco litros.
Já não corro. A bronquite não mo permite. Já não tenho dedos. Parti-os todos a tentar subir a parede do El Capitán. Os dentes comi-os. Tinha fome.
Já não quero ir a lado nenhum. Já não quero ser nada. Já não ambiciono ser nada.
Quero só estar por aqui enquanto por aqui estiver.
E quero estar sossegado. A ver a morte avançar, sorrateira, disfarçada. Cheia de lantejoulas. A ouvir canções em streaming. A ver filmes pirateados. A ler PDF’s de livros cheios de direitos de autor e de herdeiros. A olhar de esguelha para as notícias na televisão. As notícias banais de gente banal a morrer de forma tão banal. E eu com a língua de fora. Como os cães. A salivar.
E ainda aqui estou. À espera. A salivar.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/22]

Um Domingo de Páscoa Igual aos Outros

É Páscoa. Domingo de Páscoa.
É dia de folar. De amêndoas. De cabrito. Há quem leve com borrego. Uma espécie de gato por lebre.
É dia de padrinhos e de afilhados.
Tento lembrar-me dos meus padrinhos. Sei que os tive. Por ventura ainda os tenho. Mas já não os recordo. Não lhes consigo ver as caras. Não sei quem são. Desapareceram na minha infância. É ainda da minha infância a única memória que lhes pertence. Acho. O volume de banda-desenhada O Adivinho, da coleção do Astérix, o irredutível gaulês de Albert Uderzo e René Goscinny. Não sabia o que era. Quem era. Quem eram. Fiquei a conhecer por intermédio desse livro. Pelos meus padrinhos. Acho. Hoje não me recordo deles. Fiquei com o Astérix. Perdi os meus padrinhos. Porque é a memória tão fraca e selectiva, por vezes?
Volto a almoçar sozinho. Como ontem. Como antes-de-ontem. Como amanhã. Desci as escadas do prédio e fui ao restaurante no rés-do-chão. Estava cheio. Cheio de famílias. Crianças. Uma barulheira infernal. Criancinhas a correr por todo o lado aos berros e aos gritinhos. Os pais não têm mãos nestas crianças. Permitem-lhes tudo. Quando começam a querer comer descansados, ligam o tablet com desenhos-animados.
Como ao balcão. Sou a única pessoa a comer ao balcão. Como ao balcão, como sempre. Mas hoje estou sozinho. Hoje não tenho a companhia dos outros solitários. Hoje sou só eu. E o empregado avisa-me Não se esqueça que hoje à noite estamos fechados. Ainda avanço com a pergunta Porquê?, mas não recebo resposta. Talvez não tenha ouvido a minha pergunta. Eu estou mais inclinado para que me tenha ignorado. Porquê!?, deve ter perguntado a ele próprio. Porquê!? Oh que caralho! Sim, sou um chato. Acham que não percebo que as pessoas gostam de celebrar estes dias religiosos. A Páscoa. O Natal. O Corpo de Deus. E não, não percebo. Na verdade, para a maioria destas pessoas, este dia é só mais um dia de feriado. Não os vejo a rezar. A celebrar a morte e ressurreição de Jesus Cristo. É só um feriado. Vão à praia. Ao mar. Lotam as esplanadas. Despejam barris de cerveja. Devoram travessas de camarão. Pedem crédito ao banco para sustentar estes dias. Devia chover. Devia chover a potes para eles ficarem em casa. Eles e as criancinhas.
Mas não.
Está sol. Está calor.
Está um belo dia de praia. Não um dia de celebração de Cristo Aleluia. Está um dia de celebração da praia, das esplanadas, do mergulho no mar, de encher a pança de cerveja e decidir onde ir nas férias com o resto do crédito concedido pelo banco.
Aqui não. Aqui ao balcão está escuro. Sombrio. Só não tão escuro porque as horríveis lâmpadas fluorescentes brancas iluminam o prego no pão para onde espremo uma bisnaga de mostarda enquanto desfaço uma imperial de um só gole.
Pelo espelho à minha frente vejo as famílias em volta do cabrito. Comem de boca aberta. Sorriem com a carne presa nos dentes. Os fios verdes dos grelos que escapam dos garfos e caem para cima das camisas que já não são imaculadas tendem a fugir-lhes das gengivas. Empinam copos de tinto, do jarro que transporta o vinho dos pacote de cartão, com mais glamour e mais barato que as garrafas DOC.
Como um pudim flan. Dias-não-são-dias.
Bebo um café.
Uma Aliança Velha.
Fumava um cigarro mas vou ter de esperar até sair daqui. Vou ter de fumar em casa. Enquanto ligo a televisão nas notícias e aguardo que más novas é que o dia de hoje me traz. É que estes dias trazem sempre más novas. Já não espero outras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/21]