A Minha Vida Corre Toda Igual

Estou preso num loop. Queria saltar fora. Não consigo.
Repito-me à exaustão. Tudo de novo. Sempre o mesmo. O mesmo todas as vezes. As vezes que refaço tudo de novo.
É fim de tarde. Saio de casa. Vou ao café da aldeia beber um favaios. Como ontem. Como amanhã.
Saio de casa três vezes por dia. De manhã e depois de almoço para ir beber um café. Expresso. De máquina a sério. Não aquela coisa Nespresso caseira que imita o café a brincar. Ao final do dia, como agora, para beber um favaios antes de jantar. Antes de jantar e para sair um pouco de casa. Respirar um pouco de ar da rua. Ouvir barulho. Ver gente a passar, nem que seja à distância
Passei o dia a pintar bonecos de chumbo. São bonecos para os jogos de matraquilhos. Mandam-se bonecos para eu pintar de vermelho e branco. Só pinto bonecos do Benfica. Suponho que haverá quem pinte outros de outras cores de outras equipas. Eu, só pinto jogadores do Benfica. Foi assim ontem. Será assim amanhã. Será assim enquanto houver jogos de matraquilhos para vender e forem necessários bonecos pintados com as cores das equipas nacionais.
Tudo se repete. Sei de cor tudo o que se passa. Tudo o que se irá passar.
Subo a estrada que leva ao café. A esta hora não haverá lá muita gente. Alguma para eu poder olhar. Mas não tanta assim que me faça não querer lá ir. Irei pedir um favaios fresco. A senhora do café há-de-dizer Não tenho fresco, quer uma pedra de gelo? e eu irei dizer Não! Mas não faz mal, bebo mesmo assim. E irei beber o favaios ao balcão. Irei bebê-lo de um trago. Irei largar o copo vazio no balcão. E umas moedas. Irei sair do café e sentar-me no muro ao lado e irei acender um cigarro. Irá passar um velhote que me irá dar as boas-noites, embora ainda seja de dia. Eu irei responder. Irei fumar o cigarro. Deitar a beata fora. Irei ver duas ou três pessoas a passar ao longe. Geralmente são as mesmas. Depois irei regressar a casa. Começarei a sentir a aragem fresca do fim do dia. A luz irá começar a cair. E, quando vier a descer a estrada para casa, irei pensar nesta vida cheia de vazios que se repetem, uns atrás dos outros. Irei pensar que já nada me surpreende. Que tudo é igual. Que tenho vontade de saltar fora em andamento, em alguns momentos, mas acabo por me retrair e fazer sempre os mesmos caminhos, da mesma maneira, dia-após-dia, semana-após-semana, a tentar perceber quando e como é que tudo isto irá acabar. E depois irei pensar, de uma forma séria, e dizer alto para entender melhor E se eu for imortal? e irei o resto do caminho a pensar que, se calhar, lá no fundo, lá bem no fundo, eu sou uma peça tão importante nesta engrenagem que será impossível morrer. Sou eu quem concebe o mundo e, no dia em que deixar de o conceber, deixará de haver mundo. Ainda irei galvanizar por uns minutos até perceber que, afinal, sou um gajo como os outros, talvez até menos que os outros por pensar estas merdas e que a minha vida não tem nada de especial, eu não sou nada de especial e as repetições dos meus dias é tudo o que consigo fazer. Faço as coisas todas iguais para não me esquecer. Para não fazer merda. Para não descarrilar. E irei deprimir durante um bocado.
Agora chego ao café. Dirijo-me ao balcão e peço Um favaios fresco, se faz favor. E a senhora olha para mim e diz Não tenho fresco, quer uma pedra de gelo?, e eu olho para ela e digo Não! Não faz mal, bebo mesmo assim. E bebo o favaios de um trago.
Saio do café. Sento-me no muro. Acendo um cigarro. Ao fundo vejo um velhote, de bengala, que se aproxima.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/30]

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