Na Relva de Rabo para o Ar

Estava deitada na relva. A cabeça tombada sobre a mala de cabedal castanho claro, a fazer de almofada, com uma alça que serpenteava à volta dos cabelos presos num rabo-de-cavalo. Na cara uns óculos de sol, escuros. Muito escuros. Não conseguia ver-lhe os olhos. Não sabia se estavam abertos ou fechados. Nos pulsos, inúmeras pulseiras de vários géneros. De cobre. Prata. Couro. Havia uma que me parecia de madeira. Mas não posso precisar.
Ela estava deitada na relva de rabo para o ar. Na verdade foi o rabo que me chamou logo a atenção. Um rabo bonito. Um rabo que enchia as calças de ganga. Não enchia em demasia. Mas também não ficava folgada.
Eu apontei a câmara. Tentei encontrá-la. Mas ela não estava lá.
Havia uma relva verde. Algumas beatas. Restos de cigarros. Umas folhas, castanhas, quebradiças, que tinham caído das árvores. Dois pedaços de tijolo partido, vindos não sei de onde. Uma raspadinha, sem prémio, rasgada em mil pedaços.
Baixei a câmara. Ninguém.
No meio da relva, uma árvore. Talvez uma acácia. Não sei. Não sei nada de árvores. Reconheço os pinheiros. Os bravos e os mansos. E as laranjeiras se tiverem laranjas. Mas ninguém.
Encontro um cabelo grande agarrado à barba. Não é meu. Puxo-o. E deixo-o cair no chão. Ainda o vejo ser levado no ar pelo vento. Depois também deixo de o ver.
Limpo a objectiva da câmara. Volto a apontar. Nada.
Vou até ao café. Peço uma imperial. Um rissol de camarão. Olho para a câmara. Acendo um cigarro.

[2019/03/27]

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