Um Dia que Até Tinha Começado Muito Bem

Um ano depois volto a ter aspirador. Depois de tantos meses a varrer a casa. Depois de tantos meses a respirar o pó da casa. A engolir o cotão. A sobreviver a ataques de asma. Depois de tantos meses a maldizer o aspirador e as avarias que consomem os novos electrodomésticos construídos para serem substituídos ao fim de alguns meses, numa febre-Ikea. Depois de tudo isso. Depois de tanto azucrinar-me a cabeça. Depois de tanta Merda! e Caralho-Foda-se! que gritei. Depois de tudo isso descubro que, afinal, o aspirador estava entupido.
Estava para levá-lo para o lixo. Estava a ocupar a casa. Estava, feito mono, deitado no chão da dispensa que, na verdade, não o é. Estava lá, abandonado. Peguei-lhe. Espreitei pelo tubo, coisa que pensava já ter feito. Espreitei e não vi nada. Não vi nada do outro lado. Enfiei o cabo da vassoura. Prendeu. Forcei. Forcei mais. Rompeu do outro lado. Uma bola de pêlo. De pêlos e fios e cotão e nojo, tudo enrolado numa bola de pêlo.
Fiquei contente. Fui experimentar. Aspirei a casa. Aspirei a casa toda. Tapetes e carpetes. Casa-de-banho e cozinha. Até a varanda.
Estou a transpirar. Estou cheio de calor. Mas estou satisfeito. Tenho a casa limpa. Bom, limpa, limpa, não. Está aspirada. O que é melhor do que tem estado. Estou cansado. Sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Mas agarro num cinzeiro. Não quero borrões de cinza caídos numa casa acabada de aspirar.
Fiquei com fome. Decido. Acabo o cigarro e vou almoçar. Aqui em baixo. Há uma pequena tasca aqui em baixo. No rés-do-chão de casa. Comida caseira. Acho. Barata.
Acabo o cigarro. Apago-o no cinzeiro. Vou à casa-de-banho. Olho em volta e não vejo os pêlos da barba nem os cabelos em queda espalhados por lá. Também estou sem óculos, é certo. Lavo as mãos. Lavo as mãos e a cara. Espanto a transpiração com um sabonete da Ach. Brito. Gosto do cheiro que me deixam.
Desço ao rés-do-chão. Vou de elevador. Está a funcionar. Estão os dois a funcionar. Parece um dia de festa. Tenho de jogar no Euromilhões.
Entro na tasca. Hoje há bife de cebolada com puré de batata e petinga frita com arroz de tomate. Opto pela petinga. Mas arrependo-me. Afinal, a petinga está toda oleosa e mole. O arroz de tomate está empapado. Fico um desconsolo. Salva-se o vinho tinto. Uma zurrapa de pacote de cartão. Doce. Mas bate. É o que preciso. Que bata. E bate. Relaxo. Estou na esplanada. Na pequena esplanada debaixo de um corredor exterior de arcos. Gosto de sentir o frio. Já me passou a transpiração. E acabo por continuar a comer aquelas petingas oleosas e o arroz empapado. Não desperdiço comida.
E é então que ouço o craque. Primeiro ouço o craque e depois percebo que parti alguma coisa na boca. E percebo, logo, o que foi. Foda-se!-Caralho!, penso. Mas não digo. A placa. A placa dos dentes. A placa de baixo. Em cima não tenho placa. Ainda tenho os meus dentes. Ao trincar a cabeça de uma petinga mole e mal enjorcada, parti a porra da placa.
Olho para o relógio. Duas da tarde. Ainda não deve haver ninguém no dentista. Disfarçadamente, retiro a placa para o guardanapo de papel. Estou envergonhado. Muito envergonhado. Levanto-me e vou ao interior, ao balcão, pagar. Quanto devo?, pergunto. Com a mão a tapar a boca. Com a mão a disfarçar a falta de dentes na parte de baixo da boca. Tenho dificuldade em falar. Tenho dificuldade em soletrar as palavras. Pago e voo para casa.
Entro em casa e sento-me no sofá. Acendo um cigarro. Penso Quanto custará arranjar isto? Olho de novo o relógio. Duas e cinco. Ainda é cedo para o dentista. Ou se calhar não. Posso telefonar para lá. E quanto é que me custará arranjar isto? Não. Prefiro lá ir. Directamente. E digo alto, para me ouvir, Quanto é que terei de pagar por esta merda?
O dia até que tinha começado muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/12]

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