Pizza

Ia jantar com a minha mãe. A casa dela. Apareci lá com uma Pizza média, de risco ao meio. Numa metade Cogumelos, Bacon e Alcaparras. Na outra metade Cogumelos, Pimentos e Alcachofra. Entrei em casa dela e, ainda não tendo fechado a porta nas minhas costas, ouvi És tu? Cheira-me a Pizza. Trazes Pizza? Não me apetece nada Pizza.
Fiquei parado à entrada de casa. A porta por fechar. E disse, mentalmente, Foda-se!
Fechei a porta nas minhas costas. Entrei em casa. Fui até à sala. Não estava ninguém. Fui até à cozinha. A minha mãe estava sentada à mesa. A mesa posta para duas pessoas. Pratos. Talheres. Guardanapos. Copos. O dela com vinho tinto.
Coloquei a caixa com a Pizza na mesa da cozinha. Perguntei Mas não queres Pizza? Já não comes há tanto tempo! E ela abanou a cabeça e disse Não gosto de Pizza, sabes bem! Sabes que não gosto de Pizza! Só como por tua causa!
Não me apetecia discutir. Olhei o relógio. Vi as horas. Virei-me para ela e perguntei O que é que te apetece comer? Ainda posso ir ao Rei dos Frangos! E ela respondeu Ah, não sei. Qualquer coisa. Sabes que sou boa boca. Como o que for.
Eu acenei a cabeça. Soube que tinha perdido a batalha. Não adiantava contestar. Para quê? Peguei na garrafa de vinho. Enchi o copo. Bebi-o de um trago. A minha mãe exclamou Então?!, e eu fiz Ah!, satisfeito. Sorri-lhe e saí porta fora.
Fui ao Rei dos Frangos ver o que havia. Era bom haver Arroz de Pato que ela gosta, pensei.
Mas não havia Arroz de Pato.
Acabei por trazer uma tira de Entrecosto e Arroz de Feijão.
Voltei a entrar em casa. Fui directo à cozinha. A minha mãe estava a acabar a terceira fatia de Pizza. Da minha metade.
E disse Mãe? Não querias Pizza!, não querias Pizza!, e comeste a minha metade? E ela disse Olha, começou a cheirar-me tão bem! Abriu-me o apetite e não consegui resistir. E achei piada a estas bolinhas pretas, provei e olha!, adorei! Um bocado salgadas, é verdade, por isso já bebi mais dois copitos, o que vale é que a cama é já ali, mas adorei!
Sentei-me em frente dela. Tirei as embalagens do saco de plástico e disse-lhe Bom, já ficas com almoço. Arroz de Feijão e Entrecosto. E ela disse-me, muito admirada Entrecosto? Como é que queres que roa o Entrecosto com estes dentes?
Fiquei a olhar para ela a pensar que tinha razão.
Enchi o copo. Bebi-o de um trago. Enchi-o outra vez. A minha mãe disse Não gosto que bebas muito vinho. E eu respondi-lhe E tu podes falar muito!, enquanto agarrava uma fatia da metade vegetariana da Pizza, a metade dela, e comecei a comer.
No fim lavei a louça. Arrumei o resto da Pizza numas caixas de plástico e pu-las no frigorífico juntamente com as caixinhas com o Arroz de Feijão e o Entrecosto.
Fechei a garrafa de vinho. Olhei-a. Era só um restinho. Dei cabo dele. Garrafa para o lixo.
A minha mãe estava no sofá a ver a televisão. Dei-lhe um beijo. Disse-lhe Até amanhã e ela respondeu Tem cuidado! Bebeste vinho! Sim, mãe.
Saí de casa com os sacos do lixo.
Na rua dirigi-me aos caixotes. Estava um carro lá parado. Mesmo em frente aos caixotes do lixo. Dois rapazes. Duas raparigas. Elas fumavam. Os quatro conversavam. Eu cheguei. Parei. Esperei. E tive de dizer Com licença. A rapariga chegou-se para o lado enquanto virava a cara para mim. Sorriu-me. Eu abri o caixote e mandei os sacos do lixo lá para dentro. Depois enfiei a garrafa de vinho no vidrão.
Os quatro continuaram na conversa ali ao pé dos caixotes de lixo. Não cheirava muito mal, mas eram os caixotes do lixo. Com tanto sítio, tiveram de escolher os caixotes do lixo.
Aproximei-me do carro. Abri a porta. Ia a entrar e bati com a cabeça no carro enquanto puxava ao mesmo tempo a porta que me bateu com força no outro lado da cabeça e prensou-a. Disse Porra! Eu estou maior ou mais gordo!
E nessa altura senti-me desmaiar…
Acordo. Olho em volta. Estou caído no chão. Ao lado do carro. Entre a porta aberta e o banco. O cu no chão. As pernas no interior do carro. Tenho sangue na camisola. Dói-me a cabeça. Levo a mão à cara. Tenho sangue. Tenho sangue na cara. Escorregou da cabeça. Olho o relógio. São duas da manhã. Estou aqui há quatro horas. Ninguém me ajudou. Ninguém me roubou. Ninguém me viu. Sou invisível. Ninguém me vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/09]

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