Regresso a Cacilhas

Tempo de regressos. Refaço os passos do passado. Volto no tempo e faço-o presente. Mas já não é a mesma coisa. Já não são as mesmas coisas.
Algumas pessoas já morreram. Sei-o agora. Acompanhei através das redes sociais. Através dos jornais. Uns de doença. Outros… Outros encontraram-se com a inevitabilidade.
Passo a pé pelos sítios que eram os do costume e já não são mais. Sou estrangeiro. Sinto-me estrangeiro. O tempo rasgou-me daqui. As casas estão diferentes. Umas degradadas. Outras transformadas. As árvores desapareceram. As pessoas também. Não reconheço ninguém. Parece tudo novo. Castradoramente novo. Novo e limpo. O ar do tempo é outro. Quero acender um cigarro e sinto-me intimidado. Esta cidade está esterilizada.
Há mais carros. Mais motorizadas. Mais bicicletas. Até trotinetas largadas um pouco por todo o lado. Esta cidade parece a cidade das trotinetas. Mas quero uma rede wi-if de jeito e não encontro. Que cidade é esta? Que futuro mentiroso é este? Afinal, onde está a tecnologia? O futuro é brilhante mas assustadoramente asséptico. Quero fumar um cigarro e sinto que não o posso fazer.
Apanho o ferry. Vou até ao outro lado. À outra margem. Houve um tempo em que havia um tempo da outra margem. Na música. Nos jornais. Na história que fez andar este país. Mas o outro lado está parecido com o lado de cá. As cidades são outras. À primeira vista parecem melhor. Mais limpas. Mais seguras. Mas também mais iguais. O que distingue uma da outra? O que nos dão de diferente para além dos horizontes?
Fui à Lisnave. Passeei-me ao longo do gradeamento dos estaleiros que já não existem. Aguardam algum empreendimento de luxo. Uma varanda junto às nuvens a olhar a cidade branca.
Já nada resta lá dentro. Está tudo vazio. Rapado. Limpo. Há docas e tanques com água. Mas não há barcos. Nem operários. A revolução morreu. A revolução não chegou a nascer. Morreu estrangulada à nascença. Resta o vazio.
Vejo a enorme placa, em metal, imponente: Lisnave, no fim da Cova da Piedade. Gosto destes nomes. Cova da Piedade. Amora. Corroios. Fogueteiro. Baixa da Banheira. Apreendi-os com o futebol. E com a música. Acompanhava o meu pai a ver os jogos da União de Leiria por estes subúrbios industriais fora. Laranjeiro. CUF. Quimigal. Barreirense. E os festivais de música moderna. O que começou naquela pequena sala na Rua da Beneficência e se espalhou por salas de todo o país. Muitas nesta Margem Sul. Em Corroios.
Mas a Lisnave? Aquele espaço, aquela história, aquilo corta a respiração. Marca a época. A outra época. Que já não volta como eu não posso afinal voltar.
A verdade é que nunca fui um filho da Margem Sul. Nem da Lisnave. Apanhava ao cacilheiro para ir jantar ao Cais do Ginjal. Atira-te ao Rio. Ponto Final. Um burguês fruto de uma classe que se queria média. E agora? Agora sou o quê? Ainda vim cá ver um ou outro teatro mais Underground. Hoje é tão mainstream como a Cidade Branca. E já não há lugar para mim. Só cá cabem os iguais. Dar ao povo o que o povo conhece. Não é assim?
Não sou da Margem Sul mas tenho em mim as memórias dos outros. Amigos meus. Amores meus. Companheiros meus. Gente que fez uma terra. Que criou um mito. Moldou um mundo. E que se evaporou. E já nada resta que mereça ser alguma coisa. Mas fica tudo aqui. Aqui dentro. Aqui dentro de mim. Porque a história não morre. Mesmo que a luta estivesse perdida. Como a Lisnave. Onde estão os orgulhosos estivadores da Lisnave? Onde param os homens que um dia sonharam mudar esta terra?
Sento-me no Cais do Ginjal. Os pés baloiçam sobre a água suja do Tejo. Imagino a Maria Cabral, de sardas, a cruzar o rio num cacilheiro. E acendo um cigarro. Ainda se pode fumar em Cacilhas.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/08]

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