Há Quanto Tempo Não Estou com uma Mulher?

Estou dentro do carro. Na confusão da hora de ponta na cidade. Páro antes de um cruzamento. O semáforo vermelho para mim. O semáforo verde para os peões.
Uma rapariga nova, vestida toda de preto, com uma blusa com botões, abertos até ao peito, caminha pela passadeira e pára a meio. Vira-se para mim e começa a lançar umas bolas ao ar. Bolas pequenas. Três bolas pequenas. Manda-as ao ar e consegue fazê-las ficar todas no ar ao mesmo tempo. Agarra uma bola numa mão e passa-a à outra que a manda com mais força ao ar, e a accão repete-se. Uma e outra vez. Sempre com pequenas diferenças. Diferenças acrobáticas. Artísticas. Eu sorrio.
Eu sorrio mas não para os malabarismos que executa. Eu sorrio mas não as pequenas modificações que ela provoca neste ritmo constante e minimal das bolas em constante movimento de uma mão para a outra e para o ar, sempre sem parar. Eu sorrio porque vejo a blusa aberta sobre o peito. Vejo a pele da rapariga. Aquele pela alva da rapariga que promete o paraíso. E imagino. Oh, porra! como eu imagino aquilo que lá está mesmo sem ver.
Eu olho a rapariga mas já não a vejo. Já a despi. Já lhe tirei a blusa. As calças. Tudo. Já não é ela. É outra. Outras. Umas reais. Outras recriadas pelo meu desejo.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Sinto saudades. Saudades dos corpos. O meu corpo estremece à recordação. Sinto nas palmas das minhas mãos todos os seios que por cá já passaram. Revivo-os.
Sinto os corpos que afaguei. Sinto-os a passarem-me pelas mãos. As minhas mãos calejadas. Em sofreguidão pela suavidade daqueles corpos que se abrem à minha vontade.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Deixei passar tudo ao lado. Perdi a vontade. A paciência. Achei que havia coisas mais interessantes e importantes para conquistar na vida. E havia tempo. Havia sempre tempo. Havia sempre muito tempo até deixar de haver.
A porta de casa abre-se todos os dias para o silêncio. Deixei-me perder tudo o que, agora, faria sentido.
Sinto falta do calor. Da frescura. Da violência de um corpo doce a morrer no meu.
Há quanto tempo não estou com uma mulher?
Desperto para a chuva que tomba no pára-brisas. A rapariga passa ao meu lado, olha para mim, com as bolas na mão, à espera de uma pequena contribuição. Mas eu só vejo que está a chover. Começou a chover torrencialmente. A rapariga volta para trás, agarra numa capa, veste-a e desaparece. O semáforo dispara verde num estilhaço pelo vidro do pára-brisas.
Ouço o som de uma buzina vindo lá de trás.
Ainda procuro com o olhar a rapariga com a blusa aberta até meio do peito. Mas já não a vejo. Chove muito. Arranco com o carro. Tenho a garganta seca. O estômago anda por aqui às voltas. Os olhos estão húmidos.
Que fiz eu à minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/06]

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