E a Laura Acompanhou-me a Casa

Fim de um dia de trabalho. Estou na cidade. No meio da cidade. Tenho fome. Preciso de jantar.
Olho à minha volta. Procuro um toldo. Um néon. Uma placa. Um nome. Procuro um restaurante. Um sítio onde mitigar a fome. E descansar um pouco. Nada. Muito néons mas nenhum restaurante.
Pego no telemóvel. Serve para muita coisa. Google. Restaurantes na cidade. Na parte baixa da cidade. Na zona histórica. E mereço qualquer coisa mais. Peixe cru. Japoneses na zona histórica da cidade. E lá vou eu a caminho de um sushi. Subo. Viro. Desço. Já não existe. O Google está desactualizado. Experimento outro. Percorro. Subo. Ora porra! Um corner! É isto um corner? Outro. Desço. Caminho. Escadas. Viro. Está vazio. Existe. Está aberto. Mas está vazio. Não é apelativo. Experimento mais um. O último, digo-me alto. Estou cansado. Mas ando. Ando. Ando mais um pouco. Modernices. Música em altos berros. Turistas jovens à entrada. Fumam. Falam alto para se sobreporem à música. Parecem estudantes do Erasmus. Não. Definitivamente não. Estou cansado.
Desisto. Na minha cidade saía à rua e tropeçava em restaurantes de sushi.
Continuo com fome.
Prometo entrar no primeiro restaurante que não tenha música aos berros, miúdas com as mamas ao léu e adolescentes aos saltos e a empinar shots.
E lá vou eu.
Ora bem. Cá estou. No primeiro.
Um sítio agradável. Pouca gente. Mas com gente. Uma decoração minimal. Suave. Mas acolhedora. A lista é curta. Uma lista de conceitos. Mas intrigante.
Escolho ceviche de não-sei-quê. Com redução. E espuma. Acompanho com um vinho tinto de não-sei-donde.
Estou cansado. Mas estou sentado. Trazem-me umas fatias de um pão escuro e saboroso. Um bocado de queixo de cabra com pó de laranja. Manteiga de qualquer-coisa que tem uma cor creme e uns bocados de cebolinho por lá espalhado. Devoro tudo enquanto o diabo esfrega um olho. E é depois de comer tudo que me lembro que não tinha lavado as mãos. Ainda vou a tempo. Lavo as mãos. As mão e a cara. E a boca. Estou transpirado. Cheiro-me os sovacos. Não cheiro mal. Ato os atacadores das sapatilhas que descubro desatados. Como é que isto aconteceu?
Regresso à mesa. Sento-me e colocam-me o prato à frente. A quantidade não é muita mas a decoração agrada-me. Parece um quadro do Pollock. Tenho pena de o destruir. Fico a olhar para ele por instantes. Custa-me. Estou aqui para comer, penso. E antes de terminar de formular a frase, já comi tudo. Pouco mas intenso. Tenho o interior da boca a explodir de sensações. Uma pequena maravilha. E não fiquei com nada preso nos dentes. Não preciso de palitos. Nem de fio-dentário.
Pago. Vou-me embora.
Chego ao carro e começa a chover. Uma chuva violenta. Laura. Parece que se chama Laura e está deprimida.
Já matei a fome. Estou cansado. Agora preciso de dormir.
Arranco para casa. Abro o vidro do carro. A chuva molha-me a cara e eu pergunto à Laura Queres vir comigo? E ela vem. Acompanha-me até casa. É a minha companhia.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/05]

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