Um Casal no Aeroporto

08:00’
Estou no aeroporto. Vim esperar alguém. Alguém que tenho de levar a um sítio.
Embora a cidade estivesse deserta, as chegadas do aeroporto estão cheias de gente. Gente que espera. Gente que desespera. Há alguns voos atrasados. Mas há gente que chega. Encontros. Abraços. Choro. Muita alegria. Alegria carregada de malas de todas as cores e feitios.
Eu espero.
Vejo um rapaz, novo, com uma rosa amarela na mão. Vejo o rapaz olhar para uma rapariga que chega. A rapariga sorri, envergonhada. Ele vai ao encontro dela. Ela caminha para ele. Encontram-se. Abraçam-se.
Eu sorrio.
Ela coloca as mãos nos cabelos dele. Ele beija-lhe o pescoço. Prolongam a saudade. Aguentam o desejo. Agarram-se. Olham-se. Aproximam os lábios. Beijam-se. Beijam-se com sofreguidão.
Eu sinto um pingo de inveja.
Ele agarra nela e fá-la rodopiar ali no meio das chegadas do aeroporto. A rosa amarela cai no chão. Nenhum deles se apercebe. Já se esqueceram da rosa. Já só têm olhos um para o outro.
Param o beijo. Olham-se. Os olhos dançam. Os lábios, húmidos, sorriem. Ela cruza as mãos no pescoço dele. Levanta o pé direito enquanto lhe beija a cara em formato bilhete-postal. Ele agarra na mala dela. Estão de mãos-dadas. E partem a flutuar pelo pé-direito alto da nave das chegadas do aeroporto.
Ninguém os viu. Eu vi.

13:00’
Estou a almoçar à beira-rio. Levei quem fui buscar a comer um peixinho assado. Partilho o gosto. A mesma vontade. Peixe-assado para dois. Na companhia de uns brócolos. Um vinho branco. Da casa. Nem sei de onde é. É da casa e a casa escolhi eu. Ali à beira-rio. Junto ao fresco da maré.
Enquanto a fome devasta umas azeitonas embebidas em azeite e alho e umas fatias de pão alentejano, vejo-os chegar. O casal do aeroporto. Estão com a mesma roupa. Um e outro. Sem a mala dela. Sem a rosa deixada caída lá no aeroporto. Esquecida.
Não têm mesa reservada. Esperam. Esperam em pé. À entrada da esplanada. Junto ao rio. À beira-rio. Ao sol quente deste início de Primavera que promete ser um pequeno Verão.
Ele acende um cigarro e põe-se a olhar os barcos no rio. Ela está próxima dele. Ela passa-lhe a mão pelo braço. Afaga-o. Longamente. Depois vira-se para a esplanada. Vira-se para mim. E eu vejo. Vejo-lhe o olho negro. O olho negro que ela não tinha negro de manhã.
Eu sinto pena. Primeiro sinto pena. Depois sinto raiva.
E despejo um copo de branco de uma só vez.

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