Mandem-na Janela Fora

Vinha da escola para casa. Vinha com o meu pai. De carro. Ele tinha-me ido buscar à escola. E mandou-me sentar à frente. Sem cadeirinha nem cinto de segurança. Naquela altura era assim. Não sei como sobrevivemos a nós próprios e às nossas asneiras quotidianas. E eu vinha ali assim, sentado no banco da frente, ao lado do meu pai, sem cinto de segurança e com a mochila da escola ao colo. Íamos ter conversa. O que é que eu teria feito?
E o meu pai diz Tens uma mana!
E eu pensei Uma mana?
E ele continuou Chegou hoje e é muito pequenina. Tens de cuidar dela.
E eu pensei Uma mana?
Silêncio.
E agora? O que é que eu vou fazer com uma mana? Não quero uma mana, decidi.
O meu pai olhou para mim. À espera de uma reacção. De uma resposta.
Eu não disse nada. O olhar na estrada em frente. Na cabeça uma pergunta O que é que eu vou fazer com uma mana?
Sempre em silêncio.
Chegámos a casa. Saí lentamente do carro. De repente, a mochila pesava toneladas. Sentia-me desfalecer debaixo dela. Nunca antes aqueles dois lances de escadas me custaram tanto a subir. As escadas do inferno.
Entrei em casa. Deixei cair a mochila no chão. Com estrondo. Pensei que podia ter partido os bicos dos lápis de cor.
O meu pai pôs-me uma mão nas costas e disse Vai!
Mas eu não queria ir.
Fui empurrado por ele. Entrei no quarto da minha mãe. Ela estava sentada na cama. Tinha uma coisa ao colo. Chamou-me. Eu cheguei-me a ela. E vi-a. A outra. Parei. Olhei para a minha mãe furioso e disse Mandem-na janela fora!
A minha mãe fez uma cara feia. O meu pai também. A outra não precisava. Já tinha uma cara feia. Fugi para o quarto.
Saltei para cima da cama. Enfiei a cara na almofada. Comecei a chorar.
O meu pai chegou atrás de mim. Sentou-se na cama. Ao meu lado. Fez-me uma festa na cabeça. Colocou a mão sobre as minhas costas. E disse Não faças birra! É a tua mana!
Mas eu não quero uma mana! Não quero uma mana! gritei enquanto me virava para ele e as lágrimas caíam copiosas pela cara abaixo.
Ninguém perguntou se eu queria uma mana! continuei. Mandem-na janela fora.
E o meu pai, pacientemente explicou-me Não dá para devolver. Agora temos todos de tomar conta dela.
E eu levantei-me da cama, a chorar, e fui, pela primeira vez na vida, arrumar todos os meus brinquedos que estavam espalhados pelo quarto e que a minha mãe passava a vida a pedir para eu arrumar. Meti-os todos dentro do caixote. Enfiei o caixote debaixo da cama. Voltei a sentar-me em cima da cama. Cruzei os braços. As pernas. E disse Ela não brinca com os meus brinquedos.
O meu pai suspirou. Levantou-se da cama. Começou a sair do quarto. À porta, virou-se para trás e disse Também não brincas com os dela!
Eu fiquei parado a olhar o meu pai a desaparecer no correr. A olhar para o vazio da entrada da porta. E desatei num berreiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/27]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s