Os Filmes Pornográficos do Meu Pai

Eu tinha onze anos quando descobri os filmes do meu pai. Os filmes super-8. Estavam numa caixa de latão. Uma caixa de latão igual às que a minha mãe usava como caixas de costura. Iguais às que a minha avó usava para colocar os biscoitos.
Andava a remexer nas coisas dos meus pais. Eles não estavam em casa. Estava só com a minha avó. Com a minha avó e a minha irmã mais nova, que era tão nova que não conta para aqui. Andava numa caça ao tesouro. Naquela altura não havia Youtube Kids, Cartoon Network ou Canal Panda. Não havia consolas de jogos. O primeiro que entrou lá em casa foi o TV Brinca e era uma espécie de jogo de matraquilhos onde só havia dois traços a defender uma baliza de um rectângulo que andava de um lado para o outro. Mas isso foi mais tarde. Já não recordo bem quando. Mais tarde. Mas foi antes do Spectrum. O Spectrum fazia muito barulho a arrancar. Era uma espécie de ritual para entrar num mundo mágico. Era como as provas de aptidão para entrar no grupo dos Pequenos Vagabundos.
Para me entreter, e como só havia televisão à hora do almoço e à noite, aventurava-me nos fundos dos armários do corredor e do quarto dos meus pais. À procura de tesouros. Foi assim que descobri que já tinha sido louro. Quando era bebé. A minha mãe tinha guardado um envelope com dois anéis de cabelo, loirinhos, e o meu nome em diminutivo, escrito à mão, no envelope.
Naquele dia descobri, nos confins do armário, debaixo de outras caixas que estavam debaixo de cobertores debaixo de vária toalhas, aquela caixa. Era de um latão dourado. E chamou-me logo a atenção. Abri-a com cuidado. Algum nervosismo.
Havia uma série de rolinhos de plástico. Com fitas. Fitas que se desenrolavam. Puxei algumas. Tinham imagens. Pareciam fotografias. Mas eu não conseguia perceber o que era. Eram muitas. Algumas dentro de caixinhas de cartão. Outras soltas.
Mais tarde falei desta minha descoberta lá na escola. Havia quem soubesse o que era. Filmes. O meu pai também tem filmes desses lá em casa, disse-me. Que filmes?, perguntei. De miúdas nuas, respondeu.
Miúdas nuas?, pensei.
Podemos vê-los lá em casa. Na máquina de projecção do meu pai, sugeriu. E eu disse Está bem! E ele ainda disse Traz amanhã. Vamos para minha casa. E eu voltei a dizer Está bem.
Foi um problema para ir buscar a caixa de latão dourada ao fundo do armário do quarto dos meus pais. Tive de esperar pela hora de me ir deitar. Não adormecer. Esperar que eles fossem para a sala. Ver televisão. Talvez A Visita da Cornélia. Talvez algum filme. Porta encostada. O som relativamente baixo. Uma pequena luz indirecta. Num candeeiro ao fundo da sala. Eu não adormeci. E em silêncio fui ao quarto deles. Às escuras. Só na companhia da luz da lua que entrava pela janela do quarto e me assustava um bocadinho. Tirei as toalhas. Os cobertores. As outras caixas. A caixa. A caixa de latão dourada. Voltei a meter tudo de novo no fundo do armário. As caixas. Os cobertores. As toalhas. O monte mais pequeno. Rezei para que a minha mãe não notasse que o monte estava um pouco mais pequeno.
Acordei cedo. Com vontade de ir para a escola. Ia fazer os trabalhos de casa com os amigos. Tudo ali na rua. Tudo vizinhança. A escola. Os colegas. Os amigos. As casas de uns e outros. E não havia medo da rua, naqueles tempos.
E no fim das aulas lá fomos. Em romaria para casa de um deles. De um de nós. A caixa. Os rolos de plástico. Que eram filmes. A máquina de projecção. A janela quase fechada para tirar luz à sala. E começou.
Éramos para aí uns cinco ou seis. Espalhados pela sala. Nos sofás. No chão. E começou o barulho da máquina. Rrrrrrrrr. E umas imagens. A cor. Umas senhoras. Talvez meninas. Num piquenique. Num parque. A comer. A beber. Depois tiraram as roupas. Começaram a brincar entre elas. Chegaram uns homens. Talvez rapazes. As raparigas foram ter com eles. Despiram-nos.
Na sala reinava o silêncio. Não se ouvia, sequer, o respirar de cinco ou seis adolescentes a verem o seu primeiro filme pornográfico. Bom, não ele. O miúdo da máquina de projecção. Esse já tinha visto os filmes do pai dele. Até sabia mexer na máquina. Mas também não respirava.
Ficámos em silêncio a ver o resto do filme daquele pequeno rolo. Um tempo curto, mas que pareceu longo. E havia muitos mais rolos para ver. Mas não vimos.
Quando aquele rolo chegou ao fim, a máquina continuou no seu barulho imparável Rrrrrrrrr. Ninguém se mexeu. Ninguém disse nada. Continuámos em silêncio, sentados exactamente como estávamos. Como estivemos sempre, a ver o filme. Como se ainda estivéssemos a ver o filme. Durante algum tempo. Até que alguém disse Vamos jogar à bola? E lá fomos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/26]