Às Vezes Penso em C.

Às vezes ainda penso em C. Em como foi a minha vida e como poderia ter sido.
C. foi a minha primeira namorada. A primeira namorada a sério. A namorada com quem passeava de mãos dadas. A quem dava um beijo de língua logo de manhã, quando nos encontrávamos na escola, mesmo em dias em que me tinha esquecido de lavar os dentes e ela sem se queixar. Foi a namorada com quem tive as primeiras relações sexuais de uma forma mais ou menos constante. Foi também com ela que apanhei os primeiros sustos do atraso do período. Mas nunca chegou a não vir.
Durante os anos em que namorámos fomos inseparáveis. Éramos amigos. Talvez os melhores amigos um do outro. Gostávamos das mesmas coisas. Sem obrigação. É que acabámos por ir adquirindo os mesmo gostos. Líamos os mesmos livros. Ouvíamos os mesmos discos. Íamos juntos ao cinema. Ainda não havia pipocas nem tinha chegado o VLC. Íamos juntos a concertos. Os poucos que existiam. Ainda não havia festivais de Verão. O Vilar de Mouros passou sem darmos por isso e o Artlântico acabou por nos deixar em Lisboa sem sabermos o que fazer na ausência de um festival que acabou por não acontecer. Gostávamos de exposições. Fumámos as mesmas marcas de cigarros. Foram várias ao longo dos anos. Quando nos separámos eu fugi para o CT. Ela deixou de fumar. Bebíamos em conjunto. Eu mais que ela. Eu embebedava-me. Ela aturava-me a bebedeira e os vomitados. Eu era do Benfica. Ela do Sporting. Mas não ligava muito. Ela era de direita. Eu também, mas refilava muito. Ela era mais conciliadora.
Tudo começou por nos detestarmos. Éramos da mesma turma no secundário. Ela era uma miúda de nariz arrebitado e pêlo na venta. Eu era um gajo teimoso e com a mania que sabia sempre tudo. Tivemos muitas discussões nas aulas. Discussões sobre a matéria. Sobre os pontos de vista. A última discussão que tivemos, antes de anos e anos de mãos transpiradas juntas a percorrer as ruas da cidade, terminou com eu a dar-lhe um beijo nos lábios, provocador, e ela, primeiro a ficar corada, depois envergonhada, acabou por sair da sala de aula a correr e a deixar a discussão sem final. A professora deu-me um pequeno ralhete. Que me entrou por um lado e saiu pelo outro.
Fui à procura de C. pela escola. Quando a encontrei foi porque ela veio ter comigo. Eu estava a rir, gozão. Ele chegou ao pé de mim e mandou-me um estalo. Um estalo valente. Sonoro. Fiquei com os dedos dela marcados na cara. Ainda não tinha barba para disfarçar. Mas depois de me dar o estalo, abraçou-me e beijou-me. Beijei-a. Beijámos-nos. Depois perguntei-lhe Queres namorar comigo? e ela disse Sim! Foi a primeira e última vez que pedi namoro a alguém, assim mesmo, com as letras todas. E ela disse sim. E lembro-me de ficar de sorriso enorme, de orelha a orelha, e nunca mais tive um sorriso desses.
Nesse dia, nos final das aulas, fomos lanchar juntos. Foi o primeiro de muitos lanches que partilhámos durante os anos seguintes.
Foi quando fomos para a Universidade que a nossa relação terminou. Fomos para a mesma cidade grande. Mas fomos para Faculdades diferentes. Cursar cursos diferentes. Viver em zonas diferentes da cidade. Fomos com expectativas diferentes. Começámos a ser diferentes. A desejar coisas diferentes. A fazer coisas diferentes. A crescer de forma diferente. Ela a crescer. Eu a manter a adolescência. E quando demos por nós já não éramos nós. Eu já era outro. Ela também. Acabámos por morrer. E renascemos diferentes. Eu e ela. E já não éramos nós.
Depois disso nunca mais a vi.
Soube, há uns anos, que tinha casado. Tinha duas filhas.
Às vezes penso nela. Penso nela como parte de uma época da minha vida em que também penso bastante. E agora, mais velho, é com maior regularidade que regresso lá atrás. E também com muita saudade.
Às vezes pergunto como seria a minha vida se tivesse continuado a namorar com C.
Às vezes sinto uma certa emoção quando penso nessa época e em C.
Às vezes penso se eu ainda seria eu e que versão de mim seria. E se seria melhor ou pior. Diferente, com certeza.
Às vezes gostava de poder voltar atrás no tempo e poder voltar ao mesmo momento. Àquele momento. Não sei qual seria a minha escolha. Mas gostava de poder voltar a escolher. Só para ver. Só para lembrar como é que era. E como é que sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/17]

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