Não Dou Beijos

Tenho os dedos das mãos inchados. Não os consigo dobrar. Devem ser frieiras. Este tempo, entre o frio e o calor extremos, mexe com o meu corpo. A minha carne. Com as articulações.
Os dedos das mãos parecem chouriços a querer romper para fora da pele que encarcera a carne no interior. A pele parece que vai estalar.
Dói.
Não consigo acender o isqueiro. Tenho de levar o cigarro ao fogão para o acender.
E penso quando ela me disse Não dou beijos.
Tinha arranjado uma miúda no Marachão. Convidei-a para vir a minha casa. Declinou o convite. Propôs uma pensão barata. Lá ao pé. Ao pé do Marachão.
Ainda não tinha os dedos das mãos assim, inchados. Ainda não me provocavam comichão. Ainda não os coçava. Ainda não doíam. Mas as costas já estavam quase em sangue. Este tempo frio provoca-me um ligeiro prurido do corpo. Nas partes do corpo que roça na roupa. As costas. As pernas. O rabo. Os sovacos. E coço. Às vezes violentamente. Costumo encostar-me às esquinas e esfregar-me nelas.
Entrei na pensão com a miúda. Cheirava a creolina. Senti-me enjoado. Agarrei-a. Tentei beijá-la. Ela disse Não dou beijos. Despiu-se. Era bonita. Muito branquinha. Seios pequenos. Um rabo teso. Umas nódoas negras nas pernas. Nos braços. Eu não me queria despir. Ela insistiu. Eu não me mexi. Ela desapertou-me o cinto. Quando me tirou a camisa não conseguiu disfarçar a aversão. O meu corpo estava arranhado. Coçado. Com riscos de sangue. A principiar uma chaga.
Fiquei nervoso. Ela também.
Voltei a vestir a camisa. O casaco. Apertei o cinto. Olhei para ela. Vi a cara de nojo. Ouvi-a dizer Não dou beijos.
Larguei duas notas de vinte euros na cama da pensão e saí do quarto. Da casa. Do prédio.
Precisava de ar.
Desci as escadas a correr. Saí da pensão a correr. Entrei na rua e cruzei a estrada sem olhar, a correr. E continuei por ali fora, a correr, a correr, até chegar às margens e ser parado pelo frio que vinha lá debaixo, da água gelada do leito do rio.
Parei. Ofegante. Faltava-me o ar. Respirei fundo. Tentei recuperar o fôlego.
Mas estava nervoso. Sentia o corpo a tremer.
Via-a a olhar para mim. Para o meu corpo. Para a bestialidade do meu corpo.
Ouvia-a dizer Não dou beijos.
Procurei os cigarros. Tentei tirar um. Não consegui. Os dedos estavam inchados. Deixei cair o maço de cigarros no chão. Dobrei-me. Apanhei o maço. Mas desisti de tentar agarrar um cigarro. Os meus dedos não eram meus. Estavam gordos. Enormes. Uma caricatura. Um desenho animado de dimensões desproporcionadas. Os dedos ardiam-me. Não conseguia dobrá-los. Cocei-os.
Coloquei o maço no bolso do casaco e fui para casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/12]

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