Um Domingo de Chuva

Acordei com a chuva a bater nos vidros da janela. Já estava a habituar-me a esta Primavera antecipada quando a chuva decidiu regressar. Mas não veio sozinha. Trouxe uma ligeira subida de temperatura. Levantei-me nu da cama e não tive frio. Foi assim que fui mijar. Foi assim que fui ligar a máquina do café. Foi assim que fui olhar, através da janela da cozinha, a casota vazia do cão.
O cão morreu ontem. Atropelado.
Fiquei triste. Deixei mesmo cair umas lágrimas. Afinal, o cão foi a minha companhia nestes últimos dois anos. Ia comigo para todo o lado. Ouvia-me quando eu falava alto para perceber que ainda tinha voz. Lambeu, vezes sem conta, os copos de vinho tinto que deixei cair no chão depois de já não conseguir erguer seguro o copo em direcção aos lábios.
Bebi o café.
Porque raio é que o deixei sair daqui? Ele gostava de visitar os amigos, é certo mas… Que merda!
Olhei ao longe as montanhas atrás da camada de chuva que as tornavam quase sumidas. Mal se viam. Devia estar bonito, lá em cima. Pensei que era um bom dia para ir para as montanhas fotografar.
Hum.
Acabei de beber o café e fui pôr a chávena na máquina de lavar. Olhei para o maço de cigarros em cima da mesa da cozinha. Pensei que podia sentar-me à mesa, frente ao computador, a fumar um cigarro e a escrever o que achava sobre o Aliança, o novo partido de Pedro Santana Lopes, o enfant terrible da Kapital e da revista Olá. A revista Olá? Estou velho. Eu e o Pedro. Estamos velhos.
Bocejei. Cocei o rabo. Lembrei-me que estava nu. Voltei ao quarto.
Olhei para o livro na mesa-de-cabeceira à espera de ser relido mais de vinte anos depois de o ter lido pela primeira vez: De que Falamos Quando Falamos de Amor do Raymond Carver. Mas não lhe peguei. Não. Ainda não era o dia. Cocei o rabo. Cocei o peito. Afaguei o pescoço. Cofiei a barba. Pensei Apetecia-me ter aqui uma mulher. Precisava de uma tarde de sexo para afastar esta melancolia.
Deitei-me na cama e puxei o edredão sobre mim.

Acordei e estava escuro. A noite tinha caído. Era Domingo e eu mal tinha visto a luz do dia. Não fizera nada. Rigorosamente nada. Tinha dormido e gasto um dia inteirinho sem ter produzido o que quer que fosse.
Chegou-me a neura.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/10]

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