A Angústia da Novidade

Sempre que inicio um novo trabalho, sobrevém uma enorme angústia. É-me difícil o começo. O recomeço. O partir de novo para…
Não sei se é a mesma angústia do guarda-redes no momento do penalty de que falava Peter Handke. Mas a novidade tende a socar-me o estômago. E sofro. As dores são horríveis. Começo por ficar com a garganta seca. A cabeça fica pesada. Mas vazia. É uma sensação estranha. A barriga começa às voltas como se fosse uma máquina de lavar roupa. E fico extremamente triste. E inerte. Por vezes choro. E então quero desistir. Quero sempre desistir.
Hoje tinha uma reunião.
Hoje tinha de sair de casa para ir a uma reunião.
Acordei dois minutos antes do despertador. Acordo sempre. Acho que fico ansioso. Abri os olhos. Completamente desperto. Liguei o rádio na mesa-de-cabeceira. Levantei-me ao som do noticiário. Não liguei às notícias. Era só um ruído de companhia. Abri as cortinas. Entrou alguma luz no quarto. Não muita que ainda é Inverno e o tempo está de chuva. Entrou alguma luz cinzenta e fraquinha no quarto o que me deixou melancólico, mas permitiu-me encontrar os boxers e uma t-shirt para ir à cozinha. Percorri o corredor descalço. Fiz café. Enfiei-me debaixo do duche e fiquei ali. Sem me mexer. A absorver o conforto da água quente a cair-me em cima. Por momentos esqueci-me. Esqueci-me de mim. Esqueci-me onde estava. Esqueci-me da reunião. Esqueci-me que estava no duche. Depois tomei consciência. O tempo tinha passado. Percebi o nervoso a instalar-se. Já não havia tempo para o champô. Não havia tempo para o sabonete. Não havia tempo para tomar banho. Contentei-me com o corpo enxaguado de água quente. Saí. Sequei-me. Fui ao quarto e vesti-me. Não me apetecia sair de casa. Porque raio tinha de ir lá onde tinha de ir para fazer um trabalho que iria fazer em casa? Sentei-me na cama a calçar as sapatilhas. Imaginei-me cair para trás e deixar-me adormecer de novo e não ter reunião nem trabalho nem obrigação nem nada.
Voltei à cozinha. Comecei a beber uma caneca de café. Olhei para o pão. Não me apetecia. Olhei para a fruta. Também não. E enquanto olhava à volta da cozinha, enquanto procurava algo para pôr o estômago a trabalhar, percebi que ele já andava por ali às voltas. Merda.
Fiquei maldisposto.
Fico sempre maldisposto quando inicio um trabalho. Fico sempre maldisposto quando tenho que encontrar alguém que não conheço. Não gosto de pessoas que não conheço. Não gosto de conhecer pessoas. É por isso que não faço novos amigos. Nem consigo manter os velhos. É tudo muito cansativo. E tudo isto me deixa angustiado.
Pousei a caneca com o resto do café na bancada ao lado do lava-louça. Pousei mal a caneca. E a caneca caiu. Caiu no chão. Partiu-se. Partiu-se com estardalhaço. Espalhou o resto de café pelo chão da cozinha. Pelas minhas sapatilhas. Pelas minhas calças. Ficaram salpicadas, as calças. Eu estava maldisposto. Muito maldisposto. E ainda fiquei pior.
Fui à casa-de-banho.
Não valeu de nada. Molhei a cara. Olhei-me no espelho. E disse-me Tem calma, pá! Mas não conseguia.
Agarrei no telemóvel. Na mochila. Nos óculos. Nas chaves de casa. Abri a porta para sair e senti que estava a transpirar. Sentia uma gota a escorrer pelas têmporas. A descer pelas costas abaixo. Tinha as mãos húmidas. Imaginei-me a cumprimentar umas mãos macias e sedosas com as mãos assim, neste estado. O estômago revolveu-se. Contorci-me. Contorci-me de dores. Não tive tempo de regressar à casa-de-banho. Abri muito a boca. Num esgar. Vomitei ali. Na entrada de casa. Pela parede. Pelo chão.
Voltei a entrar em casa. Sentei-me no sofá. A olhar para a parede em frente. A parede em frente por cima da televisão. Estava lá uma racha que passava por trás da televisão.
Peguei no telemóvel. Marquei o número. Tremi. Senti-me enterrar no sofá. Doía-me o estômago. A boca cheirava a vomitado. O mundo estava a morrer. Do outro lado atenderam. E eu disse Bom-dia!
E expliquei. Desculpei-me. Desliguei.
No momento em que percebi que podia fazer ali o trabalho, ali em casa, sem ter de passar por uma reunião com quem não conheço, as dores de barriga desapareceram. Miraculosamente. Passou a má-disposição. Já não transpirava. Tinha as mãos secas. A cabeça lúcida. E uma vontade incrível de comer uma torrada banhada de manteiga Milhafre.
Levantei-me. Fui apanhar os cacos da caneca. Pus uma torrada a fazer. Peguei numa esfregona e limpei o chão da cozinha. Fui à casa-de-banho e lavei os dentes. Lavei a cara. Fui ao quarto e desliguei o rádio. Puxei o edredão para trás. Para arejar a cama. E anotei mentalmente para fazer a cama antes de almoço. Voltei à cozinha e comi a torrada com manteiga. Depois fui para a sala. Sentei-me à mesa, frente ao computador.
Abri o computador. Olhei para ele. Senti-me nervoso. Outra vez. Pensei Como é que vou começar esta merda?
Acendi um cigarro. Olhei para as horas. Tinha muito tempo. Bastante, mesmo. Levantei-me. Fui até à rua fumar o resto do cigarro. O gato veio a correr roçar-se nas minhas pernas.

O tempo passou. O tempo passou e eu não dei por ele.
Estou a dez minutos do tempo-limite para entregar o trabalho.
Estou sentado em frente ao computador. Sinto uma angústia enorme. Tenho um peso sobre as costas. A barriga anda às voltas. As mãos estão húmidas. Tremo. Mas o corpo não mexe. É cá por dentro. Uma tremedeira interior.
Mexo os dedos. Coloco os dedos sobre o teclado e começo a escrever.
Alguma coisa há-de acontecer.
E amanhã é outro dia.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/08]

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