O Tiago Baptista Pendurado numa Parede

Hoje encontrei o Tiago Baptista pendurado numa parede do CCB.
Fui empurrado para fora da cama pelo sol madrugador. Estava sol e calor. Pegaram-me pela orelha e fizeram-me ir.
E disseram Come! e eu comi.
E depois disseram Bebe! e eu bebi.
E ainda disseram Fuma! e eu fumei. Não, é mentira. Não foi preciso que me mandassem fumar para eu puxar de um cigarro e inundar os pulmões daquele prazer acre e mal cheiroso.
Depois de fumar, ao ar livre como convém para não chatear os outros, entrei. Entrei lá dentro.
E vi.
Vi o Tiago Baptista pendurado numa parede.
O homem estava em tronco nu. O corpo torneado, mas não plástico. Era o corpo de um homem, não de um modelo. O corpo era de um homem. Tinha uma lança na mão. No braço levantado em posição de ataque.
Sentei-me no chão. No meio da sala. Sentei-me e esperei. Deixei que saíssem todas pessoas que conversavam alto e à galhofa e esperei. Queria ver o homem mandar a lança. Queria ver qual era o alvo. Quem era o alvo! Esperei. Esperei. Mas o homem não mandou a lança. O homem fugiu. Vi-o fugir, mais pequenino, em silhueta, a correr e deixar para trás a tela gigante. Mais tarde percebi. Percebi quando vi a boca a cuspir as palavras de Samuel Beckett. A boca gigante na tela. A projectar as palavras de Beckett. E o homem fugiu. E nunca mais o vi.
Ainda perguntei por ele à Sara. E ao André. Encolheram os ombros. Ninguém viu para onde é que o homem tinha fugido
Mais tarde acabei por ver o Gonçalo Pena no meio de uma suruba. A placa avisava para a susceptibilidade de algumas peças. Pilas. Ratas. Gente nua. Sexo. A Nan Goldin a mostrar as suas tragédias. Os seus olhos inchados. Negros.
Teria uma coisa a ver com a outra?
Fui beber um café. Fumar um cigarro.
Vi que a Surma ia lá tocar.
Ficou frio.
A luz caiu.
Vim-me embora.
Ainda estou a pensar no homem. Com umas nuvens carregadas num céu azul. Uma lança na mão. O homem em tronco nu. De calças de ganga. Descalço. A sentir a terra nos pés. E olhos vendados. Agora é que me lembro. O homem tem os olhos vendados. E, depois…
E depois já estou em casa. A comer uns ovos mexidos com alheira de caça. E a beber um vinho alentejano.
Tenho um prato e um copo na mesa. À espera do homem. Se ele resolver passar por aqui. (Eu já tive o Homem com Cara de Cu pendurado na parede, mas ficou numa das curvas da minha vida).
Mas o homem, o homem será sempre bem-vindo.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/02]

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