A Noite que Não Foi a Noite

O tipo andava lá de um lado para o outro. Depois voltava para trás. E repetia tudo. Parava e olhava. Respirava fundo. Parecia. Abanava a cabeça. Voltava a caminhar. A andar de um lado para o outro.
Ele estava à beira-mar. Junto à água. Na linha de rebentação das ondas. Por vezes a água apanhava-o. Mas ele não parecia importar-se. Nem parecia aperceber-se disso. Continuava a andar de um lado para o outro. Os pés, por vezes, enterravam-se na areia molhada. Mas ele continuava. Como se nada fosse.
Parou. Olhou para o mar. Acendeu um cigarro. Ficou lá parado. A olhar o mar. A fumar um cigarro, parado, a olhar o mar.
Eu também acendi um cigarro. Eu estava cá em cima. Na arriba. Tinha ido até lá para…
Eu estava assim, no limite da vertigem, a olhar para o mar a bater violento nas rochas, quando vi o tipo. A andar de um lado para o outro. Chamou-me a atenção. Ele parecia nervoso. Sempre a andar de um lado para o outro. Prendeu-me logo a atenção.
Eu também acendi um cigarro. E fiquei cá em cima a fumar o cigarro e a olhar para o tipo.
Estávamos no lusco-fusco.
Aproximava-se a noite. Ao fundo, na linha do horizonte, o céu estava cor-de-rosa. Havia umas farripas de nuvens rasgadas no céu. Nós éramos as duas únicas pessoas ali na praia, àquelas horas. Ele lá em baixo. Eu cá em cima.
O que é que nos levava, aos dois, ali? Naquele dia? Àquelas horas?
Porque é que ele estava ali? E senti o coração acelerar quando ouvi a pergunta a bater-me na cabeça. Eu tinha medo da resposta. Olhei para baixo. Vi as ondas a bater nas rochas. Cheguei-me atrás. Sentei-me numa rocha. A fumar o cigarro. A olhar o tipo.
E disse baixinho Vai-te embora. Vai-te embora para casa.
O tipo acabou o cigarro. Mandou a beata para o chão. Colocou as mãos nas ancas, como se recuperasse o fôlego.
E eu disse baixinho Se te fores embora, eu também vou.
O tipo recomeçou a andar de um lado para o outro. Eu já não quis levantar-me. Mandei a beata pela arriba abaixo.
O horizonte começou a escurecer. O lusco-fusco estava a perder para a noite. Ainda via o tipo lá em baixo. A andar de um lado para o outro. Agora já com os pés sempre na linha de água.
Eu já não queria levantar-me. Já quase não via as ondas a bater nas rochas aos meus pés.
E disse baixinho Quero ir-me embora. Vai. Vai tu primeiro.
E tipo parou. Virou-se para o mar. Colocou as mãos na cabeça. Depois voltou a pô-las na cintura. Eu já mal o via. Mas ainda vi. Ainda vi o tipo a abanar a cabeça. E, depois, resignado, virar costas ao mar e ir embora.
O tipo virou as costas ao mar e começou a sair da praia. Vi-o caminhar ao longo da areia. Até à marginal.
Eu suspirei de alívio. Já não via a praia. Nem o mar. Nem as rochas aos meus pés. Mas ouvia o barulho das ondas a bater lá em baixo. E vi o carro do tipo a fazer a marginal debaixo das luzes dos candeeiros públicos.
Eu suspirei.
Acendi um cigarro.
Levantei-me e também me fui embora. Aquela noite não era a noite.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/26]

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