A Vida Era Simples e Eu Tinha de a Complicar

Eu estava sentado à mesa da sala. Sentado numa das cadeiras da mesa da sala. Era uma mesa que não era muito utilizada. Normalmente fazíamos as refeições na cozinha. Todas. Na sala víamos televisão e, em dias de festa, aí sim, a mesa era aumentada, com uma tábua que tornava a mesa um terço mais comprida, a minha mãe colocava uma toalha de linho, que era só utilizada nestas alturas, com uma toalha de plástico por baixo para não estragar a mesa, sendo que normalmente ficava furiosa porque apareciam sempre pingos de vinho e de molhos da comida, e a toalha ficava com mais uma nódoa porque Vocês são uns porcos! e O que vale é que tenho ali outra, mas não é para as vossas unhas que vocês estragam tudo!, mais o serviço de mesa inglês comprado a prestações na Lora e que, milagrosamente ainda estava inteiro, com peças que eu nunca soube para que é que serviam, mas que viam a luz da ribalta nestas alturas em que nós, todos nós, a família nuclear, de fatinho domingueiro, banhinho tomado e cabelo bem penteado, com o risco ao lado, nos sentávamos então na mesa da sala e parecíamos uma daquelas famílias da televisão, como os Buddenbrook, mas sem o glamour, a aristocracia e o dinheiro.
Eu estava sentado à mesa da sala mas não era dia de festa nem estávamos lá a fazer nenhuma refeição. Estava lá sentado porque eram as cadeiras mais altas de casa e, por causa de um ataque de bronquite, eu precisava estar sentado num sítio alto, muito direito, com os polegares enfiados nas presilhas das calças para abrir os alvéolos e me facilitar a respiração e tentar sobreviver a mais um ataque.
Estava com falta de ar.
Ainda não tinha descoberto o Ventilan.
A minha mãe fazia umas papas com linhaça, que cozinhava no fogão, fazia uma trouxa com um pano e colocava-me esse preparado sobre o peito. Parece que fazia bem à bronquite. E eu ficava assim, quieto, deitado na cama, de barriga para cima, a olhar as teias-de-aranha no tecto, com aquelas papas de linhaça quente sobre o peito, à espera que a bronquite desaparecesse e eu conseguisse voltar a respirar normalmente, como toda a gente.
Naquele dia eu sentei-me à mesa da sala para respirar melhor porque não queria ir para a cama com a trouxa de linhaça.
Naquele dia, que era já noite afinal, era um Sábado de Euro-Festival da Canção e eu queria estar ali, na sala, a ver quem ganhava, em que lugar ficava a canção portuguesa e qual a canção minha preferida para que, no dia seguinte, pudesse comentar com a Malta da Rua.
Tinha um gravador Sanyo ao pé da televisão, onde carregava nas teclas REC (a vermelha) e PLAY ao mesmo tempo para gravar todo o Festival e poder, no dia seguinte, dizer de minha justiça perante a plateia lá da rua.
Eu estava sentado à mesa da sala com dificuldade em respirar, mas atento ao fim da cassete para a virar para o lado B.
Cada vez que me sento numa mesa de sala, penso nos rituais motivados pela minha bronquite.
Cada vez que vejo o Euro-Festival da Canção, lembro-me do António Calvário, da Madalena Iglésias, da Simone, da Tonicha e do Fernando Tordo.
Cada vez que olho para a minha vida penso sempre como ela era tão simples, porque raio tive de a complicar?

[escrito directamente no facebook em 2019/01/13]

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