Foto-Sinto-Me

Está frio.
O sol chama-me lá para fora. Saio. Saio de casa. Passo o alpendre. Vou até ao quintal. Desço a ladeira até à estrada de terra batida.
O sol está quente. A rua é mais quente que a casa. A casa é fria.
Não há carros.
Ouço, ao longe, um cão a ladrar.
Vejo, lá em cima no céu, o chemtrail de um avião. Para onde irá?
Do outro lado da estrada, um casal de velhos está a podar as oliveiras. Lembro-me de os ter visto a apanhar a azeitona. Agora podam as oliveiras. Ouço a velha Vê lá se me cortas o dedo, Velho! Sorrio.
Abro os braços. Deixo o corpo espreguiçar-se. Todo eu tremo. É bom sentir o corpo a espreguiçar-se. Pareço crescer.
O sol está quente. Gosto do sol quente no Inverno. Não gosto do Inverno.
Quero regressar ao Verão.
Quero chegar ao Verão. Mergulhar no mar. No mar da Nazaré. Rever o nevoeiro matinal de São Pedro de Moel. Comer um arroz de marisco no Coelho, na Vieira. Umas navalheiras no Tonico, em Paredes de Vitória. Beber umas imperiais no Casino, no Pedrogão. A ver o Atlântico. Sempre a ver o Atlântico.
O gato veio ter comigo à estrada de terra batida. Roça-se na minha perna. Sobe a uma oliveira. Olha para o casal de velhos. Depois vira-se para mim e mia. Quer leite.
Subo a ladeira. Gosto de sentir o sol a bater-me nas costas. Na cabeça. Sinto-me retemperado.
Entro em casa. Regressa o frio. A casa é fria, já tinha dito. Tremo. Visto um casaco. Um casaco de lã. Abro o frigorífico. Agarro o pacote de leite e vou ao alpendre despejar um pouco num pires para o gato.
Largo o pacote de leite no murete do alpendre. Desço as escadas. Volto ao sol. É aqui que estou bem. É aqui que sinto. Que me sinto. Foto-sinto-me.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos. Fumo o cigarro, debaixo do sol, de olhos fechados. A vida às vezes é simples. Bem simples.
Hoje joga o Benfica.
Que me interessa o estado do mundo quando posso estar assim.

Um dia visitei as cataratas de Iguazú. Confluem lá três países. Argentina. Brasil. Paraguai. Eu estava no lado argentino. E via os outros dois lados. Mas o que vi realmente foi o poder de toda aquela água a cair. A fúria. O voo. O som. O princípio e o fim. O princípio e o fim de tudo. Vi a água levar-me. Lavar-me. Abençoar-me. E achei que podia morrer. Depois de ver Iguazú, podia morrer. Feliz.

Abro os braços. Capto o sol. Recebo todo o calor que consigo. Guardo todo o conforto que me dá.
E, depois disto, posso morrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/11]

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