A Manta

Mais que o conforto do calor, o aconchego era dado pelo peso. Deitava-me na cama, com várias camadas de cobertores, mas tinha de ter, sempre, em cima deles todos, a manta. A manta era uma espécie de tapete-cobertor, pesado, que não era quente nem aquecia grande coisa, mas que pesava sobre mim e me fazia sentir aconchegado e confortável.
Vestia um pijama de turco, material que detestava e que ainda hoje me provoca arrepios no corpo, e por baixo da camisola, que tinha um pequeno fecho abaixo do pescoço para facilitar a passagem pela cabeça, vestia uma Thermotebe. A Thermotebe era uma camisola interior, de manga curta ou comprida, que se vestia por baixo das camisas ou das camisolas de gola-alta ou das camisolas de lã, e que protegia da maior onda de frio polar que aí viesse Europa abaixo. Havia Thermotebe de gola redonda e outras com três botões. Dormia com uma Thermotebe por baixo do pijama e, de manhã, quando me levantava, lavava a cara, os ouvidos, o pescoço, os dentes, tirava a camisola de pijama mas mantinha a Thermotebe. Depois vestia a camisola de gola-alta, depois a de lã, um casaco grosso e estava pronto para ir para a escola.
Gostava de sentir este peso em cima de mim. Era um peso confortável. Quente.
Os anos passaram.
Cresci. Menos do que aparento.
Há muitos anos que deixei de usar pijama. Gosto de dormir nu.
Larguei os cobertores. Adoptei o edredão. Mas ainda guardo alguns cobertores que, em alturas de maior stress ou depressão, vou buscar e enrolo-me neles, como uma segunda pele, que me protege do mau-olhado, da inveja, do azar e da falta de amor. Depois de tudo passado, voltam para o armário. Dentro de sacos de plástico. Fechados a vácuo. Para se protegerem dos ácaros, das traças, das poeiras do tempo e manterem intactas as qualidades de me recuperarem a alma.
A manta ainda anda por aqui.
No meu quarto. Em cima da minha cama.
A manta está sempre por cima do edredão. Mesmo no Verão. Posso tirar o edredão, dormir só com um lençol, mas a manta está lá. Para pesar sobre mim. Para me fazer sentir protegido. Para me proteger.
As Thermotebes acabaram. Desapareceram do mercado. Mas já antes delas terem desaparecido, já eu não as usava. A minha adolescência tornou-me uma pessoa quente. Há muito que já não uso camisola interior. Nem sequer daquelas de alças que muitos homens ainda usam por baixo das camisas.
Não.
Não preciso.
Não tenho frio.
Mas a manta!… Ah, a manta sim, está cá por casa. Em cima da cama. Como uma amante. Onde me deito todos os dias.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/10]

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