Um Céu Azul, em Dégradé

A manhã acordou bonita.
Através da janela da cozinha vejo o céu em dégradé. Desde o azul escuro, quase preto, por cima da casa, até ao amarelo explosivo, quase branco, que paira por trás das montanhas a aguentar a saída do sol. Não é um azul, são vários. Água, bebé, celeste, cobalto, marinho, turquesa, petróleo, tóquio. Nem uma nuvem. Uma ruga. Um céu limpo. Liso.
Ao fundo, no meio daqueles azuis em mutação, lá muito em cima, a Lua. A Lua em forma de unha de criança. Uma curva fininha. Fininha, fininha, fininha. Como a unha do meu filho perdida no chão da cozinha e encontrada quando procurava a lente de contacto caída por desleixo.
Depois vejo um, dois, três riscos de aviões a cruzarem o céu. Os chemtrails. A marca da conspiração mundial. Os químicos que os aviões vão largando nos céus para controlar a população. Basta ler na internet. Basta procurar no Google. Mas eu ia agora ali, num daqueles aviões, destino a onde-quer-que-fosse. Só queria que tivesse um céu assim. Azul. Em dégradé.
É três de Janeiro. A minha mãe dizia que os doze primeiros dias de Janeiro eram uma retrato dos doze meses do ano. Março vai ser um belo mês. Luminoso. Quente. Solar. Um regresso à praia, com certeza. Já houve anos em que fui à praia em Março. À praia para tomar banho no mar. Em pleno Atlântico. Eu e a Malta da Rua. De bicicleta. Estrada fora. Mochilas com farnel. Calções de banho e toalha. E uma mentira piedosa em casa.
Estranho como ao olhar agora estas montanhas me recordo da praia.
Acho que sinto falta do mar. Da água do mar. Da fúria da água do mar.
Os aviões parecem vir para cá. Afinal não vão para lado nenhum. Parece que vêm todos para cá. Para aqui. Os riscos no céu parecem uma chuva de asteróides em pleno dia na minha direcção.
Cada vez há mais.
Não podem ser aviões.
Há um ali que parece cair. Olha, olha, olha! Parece mesmo que vai cair. Está baixo. Muito baixo. Não, não é um avião. Olha! Desapareceu atrás da montanha. Caiu!
Porra! Que estrondo! Caiu, de certeza. Olha!… Olha, olha, olha!… Um cogumelo! Um cogumelo gigante! Atrás das montanhas. Era um míssil. Era a porra de um míssil, de certeza. São mísseis! Todos eles são mísseis!
Foda-se!
Há outros a cair. Há mais cogumelos a levantarem-se para lá do meu horizonte. Os azuis desaparecem debaixo dos cogumelos de fumo e fogo.
Há um míssil que se dirige para aqui. Vem para aqui. Para cima de mim. E ainda não bebi café. Ora, porra! Mais outro cogumelo e este não o vou ver.
Foda-se!…

[escrito directamente no facebook em 2019/01/03]

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