Calamares

Estava sentado numa esplanada. Numa esplanada junto ao jardim. Bebia uma Fanta de uma cor mais laranja que as laranjas no quintal do meu avô. Tinha nas mãos um pão com calamares. Retirava os calamares devagarinho e comia-os todos, primeiro. Depois comia o pão com o resto das peles fritas que ficaram presas ao miolo. Gostava da textura dos calamares. Gostava de rasgá-los com os dentes. De os moer. Por vezes pareciam chicletes. Pareciam de borracha. E eu mastigava.
A minha mãe bebia um café que dizia saber mal.
O meu pai fumava um cigarro e bebia uma San Miguel.
Ali ao lado, num pequeno charco no jardim, uns patos tomavam banho. Enfiavam a cabeça debaixo de água e empinavam o rabo para o céu. Também havia lá um casal de cisnes. Mas esses não passavam cartão a ninguém. Estavam sempre juntos, afastados da confusão, como se estivessem a namorar. Os patos, às vezes, vinham até à esplanada pedinchar comida.
Era uma festa ir a Badajoz. Uma cidade grande. Cheia de gente. Gente desconhecida. Gente que falava um linguajar estranho, arreganhava os dentes quando falava e comia churros fritos ao pequeno-almoço, molhando-os em canecas de café com leite.
Passeava-me pela cidade de mãos dadas com a minha mãe.
Mais tarde haveria de entrar numa loja de brinquedos e comprar uma mesa de snooker, grande o suficiente para colocar em cima da mesa da sala de jantar, mas pequena o bastante para caber no carro. Haveria de jogar várias vezes com o meu pai. Haveria de perder com ele todas as vezes. Haveria de dizer aos meus amigos que era eu que vencia.
Voltava para Elvas. Dormia num quarto com os meus pais. Um divã desmontável no quarto de pensão com os meus pais. Uma pensão em Elvas. Elvas era triste. Mais pequena. Menos gente. Silenciosa. Não tinha calamares. Nem Fanta. Nem Coca-Cola. Mas os quartos eram mais baratos. E havia bitoques. Os espanhóis nunca conseguiram descobrir a importância do bitoque. Do ovo a cavalo do bife. Do pão molhado na gema quase-crua do ovo estrelado. Mas funcionavam bem um com outro. Elvas e Badajoz. Os meus pais traziam os caramelos de Badajoz e azeitonas de Elvas.
Voltei a Badajoz sozinho, já mais crescido. Ia a uma casa de putas ali antes de chegar a Évora. Depois fazia um desvio por Elvas e ia a Badajoz comprar Lucky Strike soft pack. Comprava vários volumes.
Deixei de beber Fanta. Os fritos começaram a fazer-me mal ao estômago. Perdi o norte da esplanada onde ia com os meus pais. Não voltei a ver os patos nem os cisnes. Já não sei onde fica a casa de brinquedos onde os meus pais me deram o snooker, um bingo com uma tômbola onde fazia girar bolinhas com os números e aquelas duas bolas presas a uma anilha por dois fios que só batiam monocordicamente uma na outra e que servia para irritar todas as outras pessoas que não estavam a fazer esse jogo de barulho com as bolas.
Os caramelos de Badajoz perderam a fama que tiveram. No Corte Inglés também já há calamares e com um pão bem melhor que o espanhol.
A última vez que voltei a Badajoz comi sushi. E vim dormir a casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/31]

O Pacote de Bechamel

Foi quando cheguei a casa que reparei que o pacote de bechamel estava rasgado. Deitei a mão ao saco de plástico. Uma garrafa de vinho. Brócolos. Cogumelos. Umas cenouras. O pacote de bechamel. Fiquei com a mão peganhenta. O pacote estava a deitar fora. Mirei-o. Um corte longitudinal. Talvez feito com um x-acto. Talvez feito ao abrir as embalagens de plástico onde vêm os pacotes. Aproximei-o para ver melhor. Cheirava mal. Cheirava mesmo muito mal. Cheirava a podre. Devia estar aberto há muito tempo. Sim, ainda estava dentro do prazo, mas lá de dentro saía um fedor a podridão.
Tinha de voltar ao Intermarché. E estava a chover.
Olhei à minha volta. As mãos na ancas. Podia esquecer. Mandar o pacote para o lixo. Aquilo custa o quê? Quanto? O problema é que assim teria de comer os legumes só cozidos. Com o resto do frango assado da véspera. Uma coisa desenxabida, portanto.
Agarrei no pacote. Pu-lo dentro do saco de plástico. Vesti o casaco. Agarrei no chapéu-de-chuva. Ia a sair de casa e lembrei-me. O talão! Abri o saco de plástico. Aproximei-o da cara. Veio-me o cheiro a podre do bechamel. E não vi lá nenhum papel. Procurei nos bolsos das calças. Nos bolsos do casaco. Em cima da mesa da cozinha. No chão. No frigorífico. No caixote do lixo. Nada! Deve ter ficado no supermercado.
Saí de casa.
Encharquei os pés mal os pus na rua. Caí numa poça de água. As botas estavam velhas. Não eram para a chuva. Não eram Gortex.
Pus-me a caminho. Consegui ir evitando os carros e a água que lançavam sobre os peões ao passar nos buracos da estrada.
Passei por um Pingo Doce. Por um Minipreço. Por um Aldi.
A chuva caía agora com mais violência. E vinha tocada a vento. Tinha-se levantado um pequeno vendaval. O chapéu já se tinha virado algumas vezes. O cabelo estava molhado. Os óculos cheios de pingos de água e embaciados. Não via nada. Ia assim por tentativa. A seguir a mancha escura da calçada à portuguesa.
Cheguei ao Intermarché. Fui ao balcão das reclamações. O pacote cortado. O cheiro. Não tinha o talão. Foi há pouco tempo. Naquela caixa ali, e apontei. Tudo tranquilo. Podia ir buscar outro pacote. Nem precisava de passar nas caixas. Era passar por ali. E lá fui. Fui buscar um pacote de bechamel. Procurei onde tinha encontrado o outro. E à volta. Nos lineares adjacentes. Nos corredores ao lado. Perguntei a uma menina com o fato da casa. Desculpe, mas já não há. Esgotou! Esgotou? Esgotou! Porra!
Deixei lá o pacote rasgado e com cheiro a podre. Nem quis trazer um vale com o valor do pacote de bechamel.
Sai para a rua.
Chapéu-de-chuva aberto. Pés encharcados. Cabelo molhado. Óculos embaciados. Frio. Fiz o caminho de regresso no automático. Não pensava em nada. Já não me preocupava com os carros e as poças de água nas bermas. Estava melancólico. Triste. Com vontade de me mandar para a frente de um autocarro.
Passei pelo Aldi. Pelo Minipreço. Entrei no Pingo Doce já perto de casa. Comprei um pacote de bechamel. Estava intacto.
Cheguei a casa. Cozi os legumes que já tinha comprado. Desfiei o resto de frango assado.
Coloquei os legumes cozidos numa travessa de pirex. Espalhei o frango desfiado. Larguei umas gotas de piri-piri. Cobri tudo com o bechamel. Levei ao forno. E enquanto gratinava, fui tomar um duche quente que estava todo molhado e cheio de frio. Mas antes ainda abri a garrafa de vinho, um Monte dos Pegos (o vinho barato não é nada mau) e bebi um copo de um só trago. Para aquecer o coração. E ainda fiz, Ah!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/30]

A Revolução em Marcha

Este é um grande país, afinal. Cheio de gente valorosa. Voluntariosa. Inteligente. Mas nos lugares errados. Com os caminhos tapados.
Estava a ler os comentários às notícias do dia. Os comentários que o povo anónimo escrevia sobre as notícias reluzentes da actualidade. As notícias sobre política, economia e finanças. Também sobre futebol. Sim, eles tinham razão. O povo. As elites estavam erradas. Enredadas nas suas obrigações. Atoladas na corrupção. No compadrio dos pequenos chefes de secção. As elites ajudavam-se entre elas. Construíam o seu próprio condomínio fechado. Porta fechada a sete-chaves. O povo estava a descobrir isso. No início nem ligou. Era lá entre eles. Mas depois começou a pagar a factura. E começou a irritar-se. A ver os outros a irritarem-se noutros lados. Era preciso mudar o estado das coisas. Era preciso saltar das caixas de comentários para a rua. Era preciso colocar a revolução em marcha. Era preciso substituir a velha razão de estado pelo novo pragmatismo social. O que estava em baixo tinha de passar para cima.
Foi o que aconteceu em França. Em Inglaterra. No Brasil.
O um por cento devia ser substituído pelos noventa e nove por cento. As ajudas do estado não podiam mais ser aos bancos, mas às famílias. O risco sistémico não era mais o descalabro das finanças que sobrevivia mal aos erros sucessivos do CEO com mais olhos que barriga. O risco sistémico era o do suicídio em massa de quem não tinha comida para pôr na mesa, para colocar na boca dos filhos.
Eu resolvi fazer a minha parte.
Tomo banho. Um duche quente. A escaldar. Vejo a minha pele a ficar encarnada. Faço a barba. Duas vezes. Corto-me. Faço algum sangue. Estanco-o com pedaços de papel higiénico. Quero ficar limpo. Passo after-shave pela cara. Arde. Dou duas palmadas.
Visto um fato. Um fato azul escuro. É a primeira vez que visto um fato. Camisa branca. Gravata às riscas em vários tons de azul. Uso os botões-de-punho do meu pai. Calço sapatos de sola. Sinto-me elegante.
Pego na pistola e coloco-a à cintura. À frente. Entalada entre o cós das calças e a barriga. Amarrota um pouco a camisa. Mas não faz mal. Aperto um botão do casaco. Estou elegante.
Entro no carro. Vou devagar até à casa dela. Páro o carro a certa distância. Vejo a porta de saída. Aguardo pelo momento certo. Substituir o velho pelo novo. O amante há-de sair por ali. E quando sair, começa a revolução. Um tiro. Quando ele sair pela porta da rua, eu saio do carro. Aproximo-me dele e disparo. Limpo o meu caminho. Recupero o tempo perdido. Começa a revolução.
Vejo a porta a abrir. Vejo o amante a sair pela porta da rua. Coloco a mão na arma, antes de sair do carro. Ouço um som forte. Sinto uma picada… Um murro.
Foda-se!
Olho para baixo. Vejo uma mancha de sangue a alastrar pela camisa branca. E não pára. O vermelho come o branco. Vem em jorro. Porra! A vista começa a ficar turva. Levo a mão à porta. Quero abri-la mas não consigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/29]

A Vida Não Basta

Eu estava a ver-me. Eu estava a ver-me ali sentado, na poltrona baixa, atrás daquela pequena mesa aos meus pés, cheia de livros vários, muitos deles de poesia. E os tipos ao meu lado. O Manuel António Pina. O Afonso Cruz. O Luís Mourão. Eu via-me ali, no meio deles. No meio da conversa deles. O Manuel estava a falar. O Afonso replicava. O Luís sugeria. Eu tentava intervir, mas via-me a balbuciar qualquer coisa de inaudível. Gesticulava. Parecia um boneco daqueles articulados que, dantes, viajavam no vidros traseiros dos carros, assim, a abanar a cabeça, os braços, mas só pelo movimento do carro, não por vontade própria ou com sentido. Mas ninguém via. Ninguém me via. Só eu. Só mesmo eu é que me via ali no meio deles.
Eu estava lá, mas não estava lá. Já não estava lá.
E depois percebi.
Ainda tentei levantar a voz. Pus-me a gritar. Levantei-me da poltrona baixa para dizer ao Manuel como tinha comprado o meu primeiro livro dele por acaso. Por puro acaso. Como uma paixão à primeira vista. Sem saber quem ele era. Sem saber que o livro era dele. E que era tão bom. Oh, porra, se era maravilhoso! Queria dizer-lhe que tinha comprado aquele livro por ter como título o poema mais bonito que já tinha lido
Ainda Não É o Fim Nem o Princípio do Mundo
Calma
É Apenas um Pouco Tarde
Mas ele não me ouvia. Ninguém me ouvia. Nem eu próprio, a ver-me à distância, me conseguia ouvir.
E, então, vi.
Não fui eu que vi. Foi ele. Ele que era eu. Vi os olhos frios de réptil que me observavam do meio da plateia. Os olhos frios de réptil que não estavam a ligar à conversa do Manuel, do Afonso, do Luís. Não. Os olhos frios de réptil estavam cravados em mim. Assim, meio cerrados. Como se me focassem. Como uma faca espetada no coração. Empurrando a lâmina fria cada vez mais para dentro. Devagar. Muito devagar. Com tempo. Com prazer. A fazer doer. Como uma vingança. Como uma vingança que se consome tranquila. Com calma.
Os olhos frios de réptil levantaram-se da cadeira, no meio da plateia atenta ao debate. Uma garra empunhava um revólver apontado na minha direcção, e eu vi o projéctil sair disparado do cano de metal e percorrer brevemente o espaço que nos separava, num tempo presente que logo se tornou passado, e trespassar-me o corpo, bem no meio do coração, e eu vi uma mancha vermelho escuro, quase castanho, a alastrar vagarosa pela camisa clara, vincada de véspera para estar ali, engomada, ao pé deles, à frente de toda a gente, como uma cidade do SimCity original em expansão, comendo centímetros, metros, quilómetros de vida. Assim, aos poucos, mas imparável.
Eu vi-me a ir. E então, percebi.
Percebi porque ninguém me escutava. Porque ninguém me via. Só então percebi que era porque a vida, por si só, não bastava. Não me bastava.
Percebi que, às vezes, é preciso a morte para dar razão à vida.
Sintonizei os ouvidos. Pus-me à escuta. E ouvi
“Os tempos não vão bons para nós, os mortos…”

[escrito directamente no facebook em 2019/01/28]

Ir a Lisboa Comprar o Concert dos Cure

Apanhámos a camioneta para Lisboa. Os dois. Eu e ela.
Era Sábado. Almoçámos e apanhámos a camioneta. Na Rodoviária. Ali na Heróis de Angola. Demorámos várias horas a chegar a Lisboa. A camioneta passou por Rio Maior. Parou no Pôr do Sol 2. Bebemos uma cerveja. Comprámos outras para a viagem. Fumámos uns cigarros. Em Aveiras entrámos na auto-estrada. Na camioneta continuámos a fumar. Bebemos as cervejas. Largámos as latas no chão da camioneta. Ficámos a ouvi-las a dançar pelo chão até chegarmos a Lisboa. Saímos na Casal Ribeiro. Subimos ao Saldanha. Apanhámos o metro para os Restauradores. Entrámos na Bimotor. Comprei o Concert dos Cure. Era chato andar com o saco do disco. Mas valia a pena.
Ainda era cedo. Fomos ao Pirata beber um. Um Pirata. Ir a Lisboa e não beber um Pirata no Pirata, não era ir a Lisboa. Acabámos por beber dois. Fomos até ao Rossio. Passeámos pela baixa. Vimos as montras na Rua Augusta.
Anoiteceu. Fomos às Portas de Santo Antão comer um bitoque. Comemos o bitoque. Molhámos bocados de pão na gema do ovo. Bebemos umas cervejas. Comemos as batatas fritas todas. Eu comi as minhas e as dela. O resto das dela. Fumámos uns cigarros. Bebemos café. Partilhámos uma Ponte de Amarante. Eu bebi. Ela ajudou.
Cruzámos os Restauradores. Subimos a Calçada da Glória a pé. Eu com o saco na mão. Fomos ultrapassados pelo Elevador. Chegámos lá cima cansados. A deitar os bofes pela boca. Ela sentou-se nos degraus da escada. Eu encostei-me à parede. Fumámos um cigarro. Eu e ela. Cada um de nós fumou um cigarro. Depois fomos ao Gingão. Íamos encontrar um amigo que nos dava guarida para a noite.
Entrámos no Gingão. Estava gente mas ainda não estava cheio de gente. O tipo que eu conhecia estava sentado a uma mesa. Caído sobre a mesa. Os braços na mesa e a cabeça tombada sobre os braços. Ela sentou-se na mesa dele. Eu fui ao balcão buscar três minis. Acabei por beber a dele que o tipo não despertava. Mas estava a respirar. Continuou a dormir. Eu e ela olhámos um para o outro. Ela encolheu os ombros. Eu levantei-me. Dei-lhe a mão e disse Vamos dar uma volta. Passamos aqui mais tarde. E fomos. Fomos dar uma volta. Fomos ao Estádio. Depois ao Esteves. Passámos pelas Primas. E ainda fomos às Catacumbas.
E eu com o saco do disco sempre atrás.
Foi nas Primas que nos cruzámos com o tipo. Tinha despertado e tinha ido dar uma volta. Demos de caras um com o outro. Lembrou-se de mim. De nós. Deu-me as chaves de casa. Da casa do quintal. Na Estrela. Eu lembrava-me onde era. Ele ficou nas Primas. Nós fomos às Catacumbas.
Já era madrugada quando passámos na Juke Box. Estava cheia de skins. Acabámos por ir embora e terminámos no Ocarina. Dançámos. Ficámos lá até fechar. Fechou. Saímos. Subimos a Rua da Rosa. Fomos a pé até à Estrela.
Estávamos cansados.
Chegámos a casa do tipo, galgámos o muro e nas traseiras da casa, lá estava o barracão. Abri a porta. Entrámos. Cheirava a mofo. Abrimos a janela. Fumámos uns cigarros. Depois ela começou a ficar com frio. Fechei a janela. Deitei-me na cama. Com ela. Encostei-me. Ela encostou-se. Eu toquei-lhe. Toquei-lhe no corpo nu. Ela adormeceu.
Que merda!
Eu não consegui dormir. Andei sempre às voltas na cama. Ouvi todos os barulhos da Estrela. De Lisboa. Vi alguém a espreitar pela janela. Pareceu-me. Senti umas patinhas pequeninas a caminhar pelo chão do barracão. Talvez ratos. Talvez baratas. Talvez outra coisa qualquer.
Deitei-me e levantei-me sem ter pregado olho. Ela dormiu que nem um anjinho.
Fumámos o primeiro cigarro da manhã. Vesti-me. Ela perguntou-me Onde é a casa-de-banho? Eu fiquei a olhar para ela. E disse Ali fora! Ela ficou a olhar para mim. Desatou a rir. Ri com ela. Rimos com vontade. Fomos os dois à rua mijar. Estávamos nas traseiras das casas de uma rua na Estrela. Ela baixou-se junto a umas couves. Eu mijei para as rodas de uma bicicleta. Deixámos as chaves dentro do barracão e fomos embora.
Descemos até ao Rato. Depois apanhámos um autocarro até à Casal Ribeiro. Esperámos umas horas até termos uma camioneta de regresso a Leiria. Quando entrámos, adormecemos. Eu e ela. De mãos dadas. Eu com a cabeça no vidro da camioneta. Ela com a cabeça no meu ombro. E fomos o caminho todo a dormir.
Quando acordámos já tínhamos passado o nosso destino. Estávamos em Coimbra. Porra! Agora tínhamos de voltar para trás. Mas só havia camionetas mais tarde. Bem mais tarde. Passeámos um pouco por Coimbra e acabámos no jardim da Sereia. Eu adormeci. Ela não. Eu constipei-me. Ela só ficou irritada por eu ter adormecido no jardim. E eu sempre com o saco com o disco dos Cure na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/27]

A Noite que Não Foi a Noite

O tipo andava lá de um lado para o outro. Depois voltava para trás. E repetia tudo. Parava e olhava. Respirava fundo. Parecia. Abanava a cabeça. Voltava a caminhar. A andar de um lado para o outro.
Ele estava à beira-mar. Junto à água. Na linha de rebentação das ondas. Por vezes a água apanhava-o. Mas ele não parecia importar-se. Nem parecia aperceber-se disso. Continuava a andar de um lado para o outro. Os pés, por vezes, enterravam-se na areia molhada. Mas ele continuava. Como se nada fosse.
Parou. Olhou para o mar. Acendeu um cigarro. Ficou lá parado. A olhar o mar. A fumar um cigarro, parado, a olhar o mar.
Eu também acendi um cigarro. Eu estava cá em cima. Na arriba. Tinha ido até lá para…
Eu estava assim, no limite da vertigem, a olhar para o mar a bater violento nas rochas, quando vi o tipo. A andar de um lado para o outro. Chamou-me a atenção. Ele parecia nervoso. Sempre a andar de um lado para o outro. Prendeu-me logo a atenção.
Eu também acendi um cigarro. E fiquei cá em cima a fumar o cigarro e a olhar para o tipo.
Estávamos no lusco-fusco.
Aproximava-se a noite. Ao fundo, na linha do horizonte, o céu estava cor-de-rosa. Havia umas farripas de nuvens rasgadas no céu. Nós éramos as duas únicas pessoas ali na praia, àquelas horas. Ele lá em baixo. Eu cá em cima.
O que é que nos levava, aos dois, ali? Naquele dia? Àquelas horas?
Porque é que ele estava ali? E senti o coração acelerar quando ouvi a pergunta a bater-me na cabeça. Eu tinha medo da resposta. Olhei para baixo. Vi as ondas a bater nas rochas. Cheguei-me atrás. Sentei-me numa rocha. A fumar o cigarro. A olhar o tipo.
E disse baixinho Vai-te embora. Vai-te embora para casa.
O tipo acabou o cigarro. Mandou a beata para o chão. Colocou as mãos nas ancas, como se recuperasse o fôlego.
E eu disse baixinho Se te fores embora, eu também vou.
O tipo recomeçou a andar de um lado para o outro. Eu já não quis levantar-me. Mandei a beata pela arriba abaixo.
O horizonte começou a escurecer. O lusco-fusco estava a perder para a noite. Ainda via o tipo lá em baixo. A andar de um lado para o outro. Agora já com os pés sempre na linha de água.
Eu já não queria levantar-me. Já quase não via as ondas a bater nas rochas aos meus pés.
E disse baixinho Quero ir-me embora. Vai. Vai tu primeiro.
E tipo parou. Virou-se para o mar. Colocou as mãos na cabeça. Depois voltou a pô-las na cintura. Eu já mal o via. Mas ainda vi. Ainda vi o tipo a abanar a cabeça. E, depois, resignado, virar costas ao mar e ir embora.
O tipo virou as costas ao mar e começou a sair da praia. Vi-o caminhar ao longo da areia. Até à marginal.
Eu suspirei de alívio. Já não via a praia. Nem o mar. Nem as rochas aos meus pés. Mas ouvia o barulho das ondas a bater lá em baixo. E vi o carro do tipo a fazer a marginal debaixo das luzes dos candeeiros públicos.
Eu suspirei.
Acendi um cigarro.
Levantei-me e também me fui embora. Aquela noite não era a noite.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/26]

Chega a Noite e Fecho-me em Casa

O tempo salta ao pé coxinho. Num dia com chuva. No outro com sol. Agora já não sei. Escureceu. Aproxima-se a noite.
Fechei a casa. As janelas. As portas. Já não saio para o alpendre durante a noite. Tenho medo. Fecho-me em casa.
Há uma semana que ouço passos à volta da casa. O cão a ladrar. Os gatos desaparecem. Já saí várias vezes, à rua, na escuridão da noite, cheio de coragem, com uma moca de Rio Maior e a luz ténue do telemóvel. Não vejo ninguém. Mas sinto. Sinto uma presença.
Tenho medo.
Chega a noite e fecho-me em casa. Tranco as portas e as janelas. Verifico de cinco em cinco minutos se tenho rede wi-fi. Se tenho rede telefónica. Se estou em contacto com o mundo se precisar.
Sento-me no sofá. As pernas cruzadas debaixo do rabo. A televisão ligada, mas sem som. O ouvido atento ao exterior. A dar fé de tudo o que se passa lá fora.
Ouço os cães da vizinhança. Ao longe. Uns ladram à Lua. Outros aos foguetes. Ladram quando ouvem algo fora do normal. Do seu normal. Do meu normal. Ladram aos barulhos que se escondem no escuro.
Ouço o vento a deslizar pelas folhas das árvores. A chocalhar as persianas. Ouço o vento a assobiar canções que não são de embalar.
E eu sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Não posso adormecer. Estou atento. Alerta.
Ouço o ribeiro a correr lá ao fundo. Nas traseiras da casa. Não ouço sempre. Só às vezes. Em dias muito frios. Silenciosos. Agora não estou a ouvir. Acho que não chove. Também não faz calor. Mas ainda não percebi em que estação estamos. Demasiado frio para Verão. Demasiado quente para Inverno. Demasiado chuvoso para Outono. Demasiado melancólico para Primavera.
Em casa não há estações do ano. Estou de camisa. Sentado no sofá. Com as pernas cruzadas debaixo do rabo. Em silêncio. Não tenho frio. Nem calor. Estou bem. Com um pouco de medo, contudo. Atento aos ruídos do exterior. Algo se passa lá fora durante a noite.
Ouço o sino da igreja. Quantas badaladas? Uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete… Sete. Sete horas. Sete horas da tarde. Da noite. Já é de noite. Podia ser mais tarde. Parece mais tarde. Não ouço barulhos da vida. Da vida a acontecer. Ouço ruídos. Alguns ruídos. Ruídos na escuridão.
Ouço a minha respiração. Estou ofegante. Chio. A minha bronquite é ruidosa. Acendo um cigarro. Cago na minha bronquite. Fumo. Fumo um cigarro. Invado os pulmões. E acalma-me a respiração.
Ouço um helicóptero. As hélices de um helicóptero a girar. O que é que se passa? Não é normal os helicópteros voarem à noite. O helicóptero aproxima-se. Parece estar aqui mesmo em cima. O barulho cresce. É ensurdecedor. Tapo os ouvidos com as mãos. Mas o som do helicóptero fura tudo. As mãos. Os ouvidos. A cabeça. Está em cima de mim. Dentro da minha cabeça. Viro a cara para a porta da rua e vejo a maçaneta a girar. Como as hélices do helicóptero. Flap, flap, flap…
Está alguém à porta. Não ouço nada. Só as pás do helicóptero. E agora o The End dos Doors. Porra. Isto não é o Apocalypse Now!
Alguém está mesmo lá fora. Não consigo ouvir nada. Só barulho. Está lá gente. Ali. Na porta. Tenho de me esconder. Levo a moca de Rio Maior comigo. Largo o cigarro no chão da sala. Em cima do tapete da sala. Fujo. Escondo-me. Escondo-me no escuro.
Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/25]

O Homem à Boleia na Benedita

A Benedita, que é também um belo nome de menina que poderia ser rainha, no tempo em que as meninas não eram princesas, mas podiam ser rainhas se lhes corresse sangue azul nas veias e não este proletário encarnado que jorra quando cortado, é uma terriola ali nas margens da EN1. Ficou bastante conhecida pelo calçado, pelas facas, pelo pão e pela Venda das Raparigas. É uma terra com bastante indústria, especialmente de calçado e cutelaria. O pão foi fazendo o seu caminho e ganhou artigo: O pão da Benedita! A Venda das Raparigas era a localidade mais famosa da freguesia, terra cortada a meio pela antiga EN1 e, quando eu lá passava, de expresso, a caminho de Lisboa, e via a placa de entrada com Venda das Raparigas, imaginava um estrado num barracão (também há uma terrinha chamada Barracão, mas é para o outro lado), com uma série de raparigas semi-nuas lá em cima, em leilão, e uma data de marmanjos desdentados a fazerem lances por cada uma delas, coitadas. E eu a pensar se tal coisa poderia ser mesmo possível ou eu era mesmo só um idiota com a cabeça toda fodida dos ácidos.
Mas para além das coisas que lhe dão fama, a Benedita não tem nada de especial. É uma estrada que começa na EN1, que vai por ali fora, uma recta enorme, polvilhada de fábricas, primeiro, pequenos prédios depois, passando por duas ou três rotundas, perdi-lhes a conta, e uma série de cafés, isso sim, digno de nota, abertos à noite, coisa que já começa a rarear em terras maiores e cidades que almejam outros voos. A Benedita não tem falta de cafés. E bares. Não sei se tem vida nocturna. Se tem gente nocturna. Mas tem condições para isso. À volta das rotundas. Ao longo da estrada. No rés-do-chão dos pequenos prédios que acompanham a estrada até chegar à igreja que fica lá mesmo no topo da estrada, altaneira. Ao lado da igreja, a escola. Atrás, um auditório. Eu sei porque fui lá. Fui ao Centro Cultural Gonçalves Sapinho ver um concerto de Frankie Chavez. E foi depois do concerto que tudo aconteceu.
Saí do auditório. Ouvi uma brasileira pedir Você vai buscar o carro?, e uma voz rude de homem responder a rir, Nã, porra! O carro está já ali em baixo! Ela ainda retorquiu Mas os saltos…, mas não teve sorte. Sorri.
Entrei para o carro. Fiz o caminho no sentido inverso. Deixei a igreja atrás de mim. Na primeira rotunda estava um tipo à boleia. Nem sabia que ainda andava gente à boleia. À noite. No meio da terriola.
Segui em frente. Na segunda rotunda, outro tipo à boleia. Comecei a rir. Pensei que a Benedita já não era a terra do calçado, mas da boleia. Ao passar pelo tipo jurei que parecia o mesmo da rotunda anterior. Senti um calafrio pelas costas. Nã!…
Continuei pela estrada. Deixei os pequenos prédios para trás. E ao aproximar-me da zona das fábricas, numa parte mais sombria, onde havia um candeeiro público fundido, lá estava, outra vez, um homem à boleia. E desta vez, tinha a certeza. Era o mesmo homem. O mesmo homem que me pedira boleia lá atrás. Por duas vezes, lá atrás. Passei à frente dele. Olhei-o. Fiquei assustado. Com medo, mesmo. Tremi. Transpirei. Senti as mãos molhadas no volante. A barriga começou às voltas. Os nervos. Senti frio. Desliguei o rádio. Queria estar atento. Ouvir todos os barulhos da rua. Do carro. Da minha cabeça. Havia muitos barulhos na minha cabeça. Não os percebia. Estava com medo. Queria dar-lhes atenção.
Fiz o resto da estrada até ao fim. Depois virei à esquerda na EN1.
A Benedita é uma terra estranha, pensei. Enquanto descontraía. E estava a olhar para a estrada, atento à estrada nacional, quando o vi novamente. Agora estava lá à frente, na EN1, numa zona deserta. Numa zona escura. Não havia mais carros para além do meu. Nem para um lado, nem para outro. Nem ao longe eu via faróis de outros carros que estivessem a aproximar-se. Comecei a tremer. A tremer de medo. Espreitei pelo espelho retrovisor, mas não vi luzes nenhumas atrás de mim. A minha cabeça era uma confusão de conversas desconexas. À minha frente o homem. O homem de barba. Uma barba branca que se via ao longe. O cabelo curto. Alto. Magro. O braço esticado. O polegar para cima. Pensei no Facebook e comecei a rir, com os nervos. Eu aproximava-me dele. Ele aproximava-se de mim. Faltou-me o ar. Queria respirar e não conseguia. Abria a boca. Levei a mão ao pescoço. Estava nervoso. Com medo. Massajei-me. As mãos molhadas escorregavam pelo pescoço. Depois escorregavam no volante. Acelerei. Ou pensei que acelerava. Porque o carro parecia mover-se em câmara-lenta. Aproximei-me do homem. Ele de braço esticado. Olhámos nos olhos um do outro. Depois um relâmpago. Um flash branco. Os meus olhos encadearam. Deixei de ver. Deixei de estar. Deixei de sentir. Eu não era eu. Era só uma energia rodeada de branco. Puf!…

Estava tudo preto. Despertei na escuridão. Virava a cabeça e não via nada. Só escuro. Noite.
E depois, aos poucos, umas linhas mais claras. Uns contornos. Os contornos de uns corpos. Cores. Vozes. Vozes baixas. Sussurradas. Mas não era na minha cabeça. Era exterior a mim. Vinha de fora. Havia gente a falar ali à minha volta.
Senti os olhos a abrir. Senti-me a despertar. As linhas focaram. As imagens tornaram-se nítidas. E vi o homem. Reconheci o homem. O homem da boleia. Estava à minha frente. Debruçado sobre mim. A barba branca. Uma bata, também branca. Uma pequena lanterna sobre os meus olhos. De um para o outro. E de novo, de um para o outro. E depois disse Bem-vindo de volta, rapaz!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/24]

Vivi com Ela, mas Não a Conhecia Muito Bem

Eu não a conhecia muito bem. Mesmo se chegámos a viver juntos durante um par de meses. Pôs-me fora de casa quando se cansou de mim. Cansava-se muito depressa das suas obsessões. Mas eu nunca cheguei a conhecê-la bem. Só de estar ali. De estarmos ali. No mesmo bar. Na mesma mesa. De termos amigos em comum. De bebermos uns copos. E de nos partilharmos por uns meses.
Era uma menina da alta da cidade. Do bairro da alta da cidade. Família com dinheiro. Rebelde. Gostava de se dar com artistas. Acho que gostava de ter sido uma. Mas era mais fácil dar-se com eles. Com os artistas. Também gostava dos marginais. Esses era mais para chatear o pai. Davam-se mal. Ela, pelo menos, queixava-se dele. Do pai. Dizia mal. No fundo acho que o amava.
Às vezes ela era o abono da malta. Tinha sempre dinheiro. Eram jantares. Copos. Coca. Quando andava obcecada por alguém, dava-lhe tudo. Tudo o que tinha. Vestia-o. Investia nele. Comprava a guitarra. A câmara. As tintas. Depois cansava-se. Cansava-se sempre muito depressa.
Na noite em que nos deitámos na mesma cama pela primeira vez, tínhamos estado na festa de lançamento do primeiro disco do namorado. Acabou ali, a relação deles. Ele editou o disco. As críticas vinham a ser boas. Muito boas, aliás. A promoção nas rádios estava a funcionar. Já havia datas para concertos. A expectativa de venda de CD’s era muito alta. E ela cansou-se. Eu estava ali ao pé. Ela chamou-me. Passou-me um charro. Fomos fumar outro para a rua. Bebemos uns copos no bar. Levou-me para a cama. E eu fui.
No dia seguinte perguntou se não queria viver com ela. Assim, de caras. Sem meias medidas. E eu disse que sim.
Fui levando algumas coisas. Roupas. Livros. CD’s. Merdas avulso que ia levando de casa dos meus pais. Coisas que, de repente, eu precisava muito para viver. Quando ela se cansou de mim, quando me pôs fora de casa, o meu maior problema foi voltar com toda a tralha, que fui acumulando naqueles dois meses, para casa dos meus pais. Uma trabalheira.
Continuei a vê-la nos mesmos sítios. Mas andava diferente. Estava diferente. De repente começou a andar com o dealer. Afastou-se dos amigos. Dos amigos dela que também eram meus. Deixou de me falar, mas não liguei. Na verdade estava zangado com ela. Não muito zangado. Só aquela pequena raiva que tem alguém que é preterido. Chateou-me quando me pôs fora de casa. Ainda me deu dois murros no peito. Foi uma noite um bocado má, aquela. Ela estava cheia de coca. Eu também. Discutimos muito. Já não recordo o que dissemos. Tenho poucas memórias dessa última noite. Mas lembro-me dela me ter batido. Lembro-me de ter mandado alguns dos meus livros pela varanda abaixo. Lembro-me do que disse nesse momento. Nesse momento em que ela agarrou num monte de livros meus e os mandou varanda abaixo, lembro-me de estar estático, no meio da sala, de ver os livros a voar e de lhe chamar Vaca do caralho! e dela olhar para mim, a rir, levantar o dedo do meio, acender um cigarro e deitar-se no sofá. Eu saí porta fora.
Quando soube da overdose, não me fez grande mossa. Na verdade ela não era ninguém muito próxima de mim. Tínhamos amigos em comum. Partilhámos a cama durante dois meses. Mas foi só. Saí zangado de casa dela e rapidamente a esqueci. Mas é assim, a vida. Vai e vem. Às vezes fica.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/23]

O Dia em que o Pingo Doce Acabou com a Passagem de Modelos

A velha saía todos os dias de casa. De manhã. Pela fresquinha. Para dar as suas voltas. Passear. Arejar um pouco. Nunca se afastava muito das redondezas. Tinha medo de lhe faltarem as forças. Tinha medo das pernas fraquejarem.
O mais longe que arriscava era ir até à Praça. O centro da cidade. Gostava de se sentar lá, numa das esplanadas, a olhar os miúdos e miúdas que tomaram a Praça de assalto, e lembrar o tempo em que ela também era assim. Também ela teve o cabelo comprido. Saias rodadas. Os peitos direitos. O rabo rijo. Também ela corria de um lado para o outro. E corava. E passeava de mãos dadas com os rapazes. Bom, isso não, que os tempos eram outros. As meninas não andavam por aí de mãos dadas com os rapazes. Mas podiam ter andado que daí não vinha mal nenhum ao mundo, pensava com os seus botões. Quando ia até à Praça tinha de parar várias vezes para recuperar forças e a respiração. A sorte da velha é que ainda havia alguns bancos públicos plantados ao longo do trajecto. Fazia o seu tabuleiro de xadrez. De casa em casa. Até à Praça. Bebia um carioca. Às vezes um chá. Ou um Compal. Observava a louca vida de quem não se arrasta com uma bengala. E ficava feliz. Ficava feliz por eles. E por ela. Por ainda poder ir até ali. Por não ter de ficar fechada em casa. Por não ter de ficar fechada numa casa cheia de gente como ela. De não ter de ficar presa a uma cama. Dava muitas graças por isso. Não corria. Mas ainda conseguia andar. Devagar. Devagar mas ainda chegava ao seu destino.
Ia à Praça só de vez em quando.
Nos outros dias saía de casa e andava ali à volta. Ia aos correios. À farmácia. Ao supermercado. À loja dos chineses – gostava de ver toda aquela confusão de bric-a-brac. Ao quiosque dos jornais. Fazia o Euromilhões. Às vezes comprava uma raspadinha. Dizia que tinha tido muita sorte no amor. E agora o jogo não queria nada com ela. Nunca ganhou nenhum prémio de jeito. Às vezes ganhava um euro ou dois nas raspadinhas. Dava para se ir mantendo no jogo. Depois ia a um café. A outro. Conhecia as empregadas. Quando estava dois ou três dias sem aparecer, perguntavam-lhe logo se tinha estado doente. Ela queixava-se logo do tempo. Do frio. Das dores nas costas. Da dificuldade em calçar as botas. Desistia de sair. Fica para amanhã, pensava.
Mas onde ela ia mais vezes, de manhã e à tarde, e onde gostava mais de ir, era ao Pingo Doce ver as Passagens de Modelos, como ele lhe chamava. Ia ao Pingo Doce, que à entrada tinha uma pequena pastelaria, com umas cadeiras de plástico, e ela sentava-se lá, ela e os outros velhos, a beberem um café, um garoto, um chá, comiam um folhado misto, um Pastel de Nata, um Croissant e conversavam, conversavam e olhavam. Muito gostavam eles de olhar quem entrava e saía do supermercado. Havia sempre muita gente nova por ali. Gente que descia das escolas para comprar um almoço mais leve, ou um pedaço de frango assado, uma fruta, chocolates e latas de Coca-Cola. O que aquela juventude consumia de chocolates e latas de Coca-Cola, dizia. Diziam. Uns aos outros. E depois lembravam o passado. No tempo deles não era assim. Infelizmente. Que também gostariam de ter bebido Coca-Cola. E comido um chocolate. Daqueles com coisas lá dentro. Passas. Avelãs. Nougat.
Havia sempre gente conhecida no Pingo Doce. Estavam lá sentados à espera uns dos outros. Ou passavam. Às vezes por acaso. Viam-se amigos que já se julgavam mortos. Ou a viverem em lares. Mas não. Andavam por ali, também. Como eles. E era mais um para o grupo. Contavam histórias. Riam. Viam quem passava. Faziam as compras para o almoço. Uma couve portuguesa. Umas tranches de Salmão. Umas cavalas. Tomates. Uma melancia. A quantidade de melancia que aqueles velhos consumiam no Verão. Os empregados cortavam-nas às metades e assim não as deixavam estragar em casa. Meia melancia para cada um deles era uma delícia que escorregava garganta abaixo.
Um dia o Pingo Doce fechou. Para obras. É verdade que já precisava. Era o único supermercado ali, naquela zona baixa da cidade. Durou uma semana. E durante uma semana, a velha e os velhos, esperaram. Esperaram para se voltarem a encontrar. Mas esperaram em vão.
O Pingo Doce não é a Santa Casa da Misericórdia e, vai daí, as obras alteraram profundamente a estrutura do espaço e, por arrasto, a vida daqueles velhos.
Os lineares deixaram de ser cortados a meio e, agora, são corredores enormes que os velho têm dificuldade em percorrer até ao fundo. Mudaram o local de alguns dos produtos. E é vê-los, perdidos, à procura, nem sabem bem do quê, mas que costumava estar ali. Ali naquela prateleira. E agora perdi-lhe o rasto. Já nem sei o que é que queria, dizia a velha.
Mas o pior, o pior foi que retiraram a pastelaria da entrada. Levaram a pastelaria para o interior do supermercado. Retiraram as cadeiras de plástico. E as mesas. Agora o Pingo Doce é um supermercado moderno e tem mesas redondas altas e sem bancos, para os jovens encostarem os cotovelos enquanto puxam os cabelos para trás. E os velhos? Os velhos não conseguem estar em pé. Os velhos estão cansados e precisam de descansar quando vão às compras ao supermercado. E chove. E faz calor. E precisam de esperar. Sentados. E dar dois dedos de conversa. E ver os miúdos. E as miúdas. Os jovens que são o que eles já foram.
Os velhos perderam o seu pouso. O supermercado ignorou uma das faixas principais dos seus clientes. Agora os velhos distribuem-se pelos vários cafés da zona. Alguns até têm grandes montras por onde podem olhar para a rua. Mas não é a mesma coisa. Agora já não há Passagem de Modelos. Agora já não estão todos juntos na galhofa. Agora já não encontram tantos amigos no jogo do acaso.
A velha continua a sair de casa todos os dias. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/22]